Kevin Winter/AFP
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'Posso lotar estádios mesmo sem tocar no rádio', diz Residente, líder em indicações no Grammy

Ex-vocalista da banda porto-riquenha Calle 13 conta, em entrevista, que Grammy Latino serve "para que a indústria acredite no seu trabalho"

AFP

14 Novembro 2017 | 15h54

Artista com mais indicações no Grammy Latino deste ano, com nove, o rapper Residente diz que não compõe sua música pensando em ganhar a estatueta, mas ao mesmo tempo reconhece a projeção que este prêmio deu ao seu trabalho.

"Os Grammy que recebi me ajudaram a dar credibilidade a uma carreira que vai contra a corrente por muito tempo", disse o porto-riquenho em uma entrevista telefônica à AFP.

Residente, cujo nome verdadeiro é René Pérez Joglar, lançou neste ano seu primeiro disco desde que se separou da Calle 13, a banda que teve com seu meio-irmão Eduardo Cabra, o Visitante, e sua irmã Ilena Mercedes Cabra, hoje iLe.

Juntos ganharam 24 Grammy Latinos, e em seu primeiro álbum solo lidera as indicações da 18a edição, que será realizada na quinta-feira.

"Posso lotar estádios mesmo sem tocar nas rádios", assegurou. "Não trabalho pensando em Grammys, minha prioridade é minha música, fazer um trabalho melhor, no nível pessoal, dar o melhor de mim".

Mas também reconheceu que ser premiado serve "para que a indústria acredite no seu trabalho. Infelizmente às vezes é necessário que outra pessoa diga 'ah, isso é bom' para que todo mundo diga 'é verdade'".

"Igualmente diferentes". Seu primeiro trabalho solo, intitulado "Residente", é o resultado de uma longa viagem pelo mundo, inspirada em um estudo de seu genoma, através de um exame que fez quando ainda estava na Calle 13 e deixou na gaveta, amadurecendo.

"Decidi fazer música baseada em meu DNA. Viajei a diferentes partes do mundo coletando sons e encontrando histórias. Todos somos residentes do espaço que ocupamos e em nosso espaço as fronteiras não existem".

O texto, que dá a boas-vindas no site de Residente, anuncia um projeto ambicioso, que durou dois anos e inclui um diário de viagem e um documentário.

Seu percurso o levou da Sibéria a Burkina Faso, da China a França, do Cáucaso a Gana e Nigéria.

O resultado: uma mistura em total harmonia com faixas pesadas como "Guerra" ou "Apocalíptico", ou "La Cátedra", na qual bate um recorde no rap e na música em geral com 1.900 palavras em 10 minutos.

"Somos igualmente diferentes, diversos mas somos bem parecidos, nos chateamos da mesma forma, nos alegramos com coisas similares, você às vezes pensa que somos bem diferentes, são culturas distintas mas somos seres humanos, similares", indicou o cantor, de 39 anos.

No disco, há participações de Lin-Manuel Miranda, o criador do sucesso da Broadway "Hamilton", e do guitarrista Bombino, de Burkina Faso, de músicos da ópera de Pequim, de cantores de Tuva na Sibéria e da tribo dagomba de Gana.

"Fiz um estudo, estava familiarizado com cada região", disse sobre a preparação das viagens, entre as quais fazia escalas em Nova York. "Não cheguei com a mala vazia, cheguei com a mala metade cheia para colocar mais coisas, tinha uma ideia dos temas que queria tocar".

Colônia. Como outros artistas compatriotas, Residente ajudou ativamente os afetados pelo furacão María em Porto Rico.

Em uma turnê internacional arrecadou alimentos e insumos que foram enviados à ilha a partir do Chile, que também enviou ajudas que foram retidas no aeroporto pelas autoridades.

O músico, sempre muito político e envolvido com temas sociais, assegura que "a situação de Porto Rico seria a mesma com [Donald] Trump, Hillary [Clinton] ou [Barack] Obama".

"É uma colônia, não é que seja culpa de Trump", disse, quando perguntado sobre a forma como o presidente lidou com a emergência. "Não é porque haja maldade, é porque é assim, foi lento para Nova Orleans com o Katrina, muito mais lento para Porto Rico".

Residente tem um show previsto em San Juan em 2 de dezembro, e esta semana viaja a Las Vegas para participar da entrega dos prêmios da Academia Latina da Gravação.

"Sentia a necessidade de fazer um projeto como o que eu fiz, agora me sinto relaxado para escrever, para fazer qualquer tipo de música".

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