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EFE|Sigi Tischler

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Pierre Boulez, um músico radical mais respeitado que amado

Maestro era venerado por discípulos, mas criticado por colegas

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Antonio Gonçalves Filho,
O Estado de S. Paulo

06 Janeiro 2016 | 20h06

Aquilo que Boulez disse de Schoenberg pode ser perfeitamente aplicado ao maestro e compositor que o mundo perdeu ontem: Boulez despertava mais respeito que afeto. E, eventualmente, ódio. O compositor Michel Legrand, ao saber de sua morte, definiu-o como um fascista, por discriminar autores que não seguiam seu caminho. Boulez era, de fato, sectário. E polêmico. Falou mal até de seu mestre Messiaen, classificando sua sinfonia Turangalîla de “música de bordel”. Por outro lado, teve de ouvir adjetivos pesados. Pierre Schaeffer chamou-o de “Stalin da música”.

Autoritário ou não, isso já não importa. O que fica é o conjunto da obra do compositor, seus registros antológicos (Lulu, de Alban Berg, a tetralogia de Wagner, o ciclo das canções de Mahler) e as pesquisas desenvolvidas no Ircam, o instituto fundado por ele há 40 anos para desenvolver a música contemporânea.

Foi exatamente em 1976, depois de criar o conjunto Intercontemporain com a ajuda do governo francês, que o choque produzido por sua concepção musical ganhou notoriedade. Nesse ano, a montagem da tetralogia O Anel do Nibelungo em Bayreuth por Patrice Chéreau provocou escândalo, mas virou uma gravação de referência, assim como a leitura revolucionária que Boulez fez de Lulu na Ópera de Paris, em 1979, também dirigida por Chéreau.

Há quem prefira o Boulez maestro ao Boulez compositor, mas o fato é que um não existe sem o outro. Foi estudando a música dos outros que ele desenvolveu um método científico de apreciação, permitindo, por exemplo, detectar as limitações da técnica dodecafônica de Schoenberg – não ousada o suficiente para seus padrões, mas o bastante para marcar presença (com ecos de Pierrot Lunaire) na incontestável primeira obra-prima de Boulez, Le Marteau sans Maître, que estreou em 1955 em Baden-Baden, cidade onde morreu o maestro.

Le Marteau sans Maître é importante por cruzar a vanguarda europeia atonal com tradições musicais da África e Ásia. O reconhecimento da alteridade era um traço marcante de Boulez, frequentemente definido como um homem racional, avesso ao sentimentalismo e assexuado – não era, segundo especulações sobre possíveis relações homoafetivas e sua amizade com Chéreau e Jean Genet, dois artistas assumidamente gays. Boulez até planejou escrever uma ópera com Genet, projeto interrompido com a morte do dramaturgo.

Boulez tinha vasta experiência no teatro, iniciada em 1946 na companhia de Jean-Louis Barrault. É desse ano sua primeira sonata para piano, obra radical que transforma o instrumento ao usar o serialismo de forma bastante pessoal, rejeitando a condição de servo de Schoenberg. Boulez desafia o instrumentista a transformar a peça numa obra aberta – característica que iria marcar sua produção entre tantos músicos experimentais contemporâneos (Cage, Stockhausen).

Se há algo que resuma Boulez como compositor é sua clareza estrutural. Sua música é rigidamente construída e intelectual (há referência a Cummings, Mallarmé e outros poetas), mas é impossível ao ouvinte ficar indiferente à riqueza de texturas de uma peça como Répons, feita do diálogo entre instrumentos acústicos e eletrônicos, ou ao apelo ritualístico de Notations. É esse Boulez que fica para a eternidade.

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