Assine o Estadão
assine

Cultura

Paulinho da Viola

Pianista Maíra Freitas, filha de Martinho da Vila, lança 2º disco

O trabalho se mostra mais autoral e ela, mais segura para suas aptidões como cantora e compositora

0

Adriana Del Ré,
O Estado de S. Paulo

05 Janeiro 2016 | 05h00

A pianista carioca Maíra Freitas, de 30 anos, parece trilhar seu caminho na música com cautela, atenta ao chão em que pisa. Em seu disco de estreia, Maíra Freitas, lançado em 2011, encarou o desafio de cantar. Para tanto, foi estudar esse então novo instrumento a ser explorado: sua voz. Ela também tateou suas habilidades como compositora. No álbum, uniu três composições suas com regravações de Paulinho da Viola, Chico Buarque, entre outras. Tudo com calma, para experimentar esses novos campos de atuação. 

À época, também se cercou de pessoas que sabem bem do riscado: a irmã Mart’nália, que assinava a produção do álbum, e o pai, o sambista veterano Martinho da Vila, que participou do trabalho cantando em Disritmia, de sua autoria, além de ter escrito o texto de divulgação do disco. 

Quatro anos depois, Maíra lança o segundo disco, Piano e Batucada, novamente com a chancela da Biscoito Fino – e patrocínio da Natural Musical. O trabalho se mostra mais autoral e ela, mais segura para suas aptidões como cantora e compositora. O intervalo entre os dois álbuns foi proveitoso para que ela amadurecesse como intérprete, fazendo shows, e fizesse a maioria das músicas do novo trabalho. “Nesse segundo disco, fui me sentindo mais à vontade com a composição, porque, antes, eu não me sentia totalmente compositora, sou meio exigente demais às vezes”, explica ela. “Nesse tempo, fiz muita música, foi um momento muito criativo. Fui juntando algumas coisas com as outras, fui garimpando uns cadernos, coisas que eu gravava no celular, no computador.” Viu, enfim, que tinha munição suficiente para uma nova incursão mais autoral.

E o que se espreitava no álbum de estreia se escancara agora já no título do novo trabalho, Piano e Batucada – esse encontro de dois universos, do erudito e do samba, que sempre coexistiram na vida de Maíra de maneira harmoniosa. O samba, aliás, é que abre o disco, em Êta, parceria dela com Edu Krieger. Mas Maíra faz incursões em outras frentes sonoras, com abertura para as programações eletrônicas. “Me envolvi também com eletrônico, comecei a mexer em loop, em timbre, eu estava muito interessada nessa parte”, conta ela. 

O músico Sacha Amback, como produtor do disco, trouxe seus conhecimentos para aprofundar as experimentações almejadas por Maíra. E, como ele é pianista como ela, o diálogo entre os dois ficou mais fluído. Também tecladista, compositor e arranjador, Amback traz no irretocável currículo sua colaboração em trilhas sonoras de filmes como Madame Satã (2000), de Karim Aïnouz, e A Hora e a Vez de Augusto Matraga (2011), de Vinícius Coimbra.

Maíra Freitas também se viu mais confiante para entrar em estúdio sem o apoio – e a presença – da família o tempo todo. Quem aparece é Mart’nália na canção Gargalhada, de Maíra e Felipe Cordeiro, que conta ainda com a participação especial dele. “Quanta risada boa/Mas é muita risada boa/Gargalhada boa é só começar/No café na rua na mesa do bar/Basta um pra atiçar”, diz trecho da música. “No outro disco, eu ainda estava descobrindo esse negócio de ser cantora. Pedi ajuda mesmo a quem sabia e quem me ama. Minha família me ajuda muito, estava no estúdio todo dia. É uma família musical, isso foi muito importante para mim naquela época”, conta ela. 

Além de Mart’nália e Felipe Cordeiro, há outras participações, como as dos também amigos Filipe Catto, em Estranha Loucura (Michael Sullivan e Paulo Massadas), e João Sabiá, em Pousa (parceria dela, João e Oswaldo Pereira), e o Ilê Aiyê, em Feeling Good. Muitas de suas composições falam do amor e têm uma forte presença feminina – ou feminista, caso de Nua, em que Maíra prega a aceitação da mulher do jeito que ela é, “sem retoque ou disfarce”. 

“É bom a gente explorar o feminino. A composição na MPB é sob o olhar do masculino ainda, a maioria dos compositores ainda é homem, então é aquele olhar deles”, pondera. “Acho que é legal esse olhar, é importante, e nem tenho como fazer de outro jeito. Nua, para mim, resume o Piano e Batucada, porque é um disco em que estou exposta. As músicas são minhas, as letras, as melodias, os arranjos, o conceito, então é uma superexposição.”

Referências. Apesar de Piano e Batucada ser um álbum predominantemente autoral, Maíra Freitas reservou espaço para três regravações – e deu sua versão a elas, pois, afinal, se tratam de canções que se tornaram marcantes na interpretação de outros cantores. Sobretudo, Estranha Loucura, um clássico na voz dramática de Alcione, e Feeling Good, eternizada por Nina Simone e muitas vezes regravadas. Faz ainda parte do repertório Minha Festa (Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito). 

Mas Maíra não se intimidou. E fez sua própria releitura para canções que lhe são caras. Fez ska em Estranha Loucura, samba-reggae em Feeling Good (cujo resultado é bem interessante e inusitado) e valsa em Minha Festa. “Gosto muito da música do Nelson Cavaquinho, que fala de alegria, que a vida mudou. Fico pensando como a valsa encaixa bem nesse clima de alegria.” 

Em Estranha Loucura, ela queria se distanciar da interpretação de Alcione. “Quem nunca colocou aquela música no último volume, arrumando a casa? Gosto muito, é aquela mulher que está a ponto de matar a outra pessoa, mas ainda contida na loucura dela.” 

A célebre cantora Nina Simone é outra referência para Maíra Freitas. “Sempre quis colocar algo do repertório dela, o que é difícil. Comecei a experimentar e surgiu o samba-reggae”, afirma ela, que apresenta seu novo disco em show no Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 18 de fevereiro. “As coisas vão surgindo, sou muito livre na hora de fazer arranjos, versões, e o acaso contribui.”

A travessia entre o popular e o erudito

Nascida numa família musical, Maíra Freitas começou a aprender a tocar piano aos 7 anos. Ela não sabe ao certo o que a levou a escolher justamente o piano – apenas se lembra que pedia para sua mãe que queria fazer aula do instrumento. Mas, ao mesmo tempo que a música clássica lhe tomava boa parte do dia, o samba estava ali presente, sobretudo por causa do pai, Martinho da Vila.

Cresceu ouvindo o ritmo. E muita MPB: Djavan, Paulinho da Viola, entre outros. Para ela, sempre foi tranquilo transitar entre o popular e o erudito.

Maíra acompanhou de perto a construção da carreira de sua irmã Mart’nália. “Eu vi esse processo dela, porque, quando nasci, meu pai já era muito famoso, e ela ainda não”, diz. Em 2010, Maíra fez canto coral na faculdade. Martinho a ouviu cantando e chamou a filha para participar de um disco dele. A música foi Último Desejo, do álbum Poeta da Cidade – Martinho Canta Noel Rosa. Essa participação chamou a atenção de Olivia Hime, diretora artística da gravadora Biscoito Fino, que propôs à pianista um disco só dela. Daí nasceu seu álbum de estreia, Maíra Freitas. 

Comentários