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Pianista lança disco cujo repertório surge a partir de 'On The Road'

João Marcos Coelho - Especial para O Estado de S.Paulo

02 Julho 2014 | 12h 20

Shani Diluka apresenta primeiro álbum 'Road 66' com base no clássico de Jack Kerouac

Shani Diluka nasceu 37 anos atrás no Principado de Mônaco, de pais originários do Sri Lanka. Estudou no Conservatório de Paris com Georges Pludemarcher e, posteriormente, com Nicholas Angelich e Bruno Rigutto. Road 66, disponível para download em iTunes por US$ 7,99, é seu primeiro CD. Aparentemente já apresenta erro no título, quando lembramos da célebre Route 66 que rasgava boa parte dos EUA, entre Chicago e a Califórnia. Não é erro. Ela quis misturar a Route 66 com On the Road, a bíblia beatnik de Jack Kerouac. O CD é uma espécie "on the road" musical, viagem sem destino pela música para piano, até sessão de psicanálise musical. Misturam-se sons do australiano naturalizado norte-americano Percy Grainger com Samuel Barber; do pianista de jazz Bill Evans com os minimalistas Philip Glass e John Adams; de Leonard Bernstein com Gershwin e o argentino Alberto Ginastera, entre outros.

Detalhe: para cada peça, Shani escolheu um trecho de On the Road. Ela descreve o processo de gestação do CD assim: "Entre a incandescência da vida e o zen budismo, o passo é ínfimo... Assim, Kerouac, em sua busca inesgotável pelo infinito, leva-nos pelas estradas da América, dos cânions às estrelas... uma América entre fantasmas e verdades".

Divulgação
Shani Diluka

Já deu para perceber a pegada do projeto musical de Shani Diluka. Não se deve procurar coerência, mas o desenrolar de um fluxo de consciência, como a escrita espontânea de Kerouac. E não é que funciona? Na primeira faixa, ainda dá vontade de ler Kerouac enquanto se ouve China Gates, de John Adams: "Eu havia atravessado metade da América, estava por um fio, entre, ao leste, minha juventude e, a oeste, o meu futuro". Depois é melhor deixar-se levar só pela música. Vejam a sequência: My Wild Irish Rose, de Keith Jarrett, Lullaby, de Grainger, Pas de Deux, de Barber, Young Birches, de Amy Beach, a primeira mulher compositora a se afirmar nos EUA entre o final do século 19 e o início do 20. A "viagem" continua com Waltz for Debby, de Bill Evans, duas vinhetas de Bernstein, o arranjo de Jarrett para I Love You Porgy, de Gerhswin. No final, a curiosa Chandeliers, do compositor contemporâneo Richard Hyung-ki Joo, de pais coreanos mas nascido na Inglaterra: a peça foi composta sob o impacto do 11 de setembro de 2001.

E a qualidade do pianismo de Shani Diluka? Nada fora do normal. Ela é só competente. O divertido e diversificado repertório é que a destaca. Boa maneira de "causar" no superpovoado planeta dos tecladistas de todas as tribos e latitudes do planeta.

Avaliação: Bom

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