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Pianista Gonzalo Rubalcaba vem ao Brasil

Em entrevista ao 'Estado', músico fala sobre política, Fidel Castro e os diferentes tipos de plateia

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2012 | 07h00

Assim que suas mãos ficaram grandes demais para Cuba, Gonzalo Rubalcaba fez aquilo que ninguém na Ilha tinha coragem de fazer. Agendou um horário para uma entrevista no Ministério da Cultura e para lá se foi, cheio de confiança e discurso ensaiado. Antes de pegar o primeiro bote clandestino rumo aos Estados Unidos, ou coisa que o valha para deixar o País com a mulher e o filho recém-nascido, Gonzalito resolveu pedir gentilmente por sua liberdade. Seu argumento era o de que a vida do lado de dentro do Malecón iria simplesmente sufocar seus anseios artísticos. Gonzalo tinha 26 anos e já era grande. Chick Corea, Dizzy Gillespie, Al Di Meola e Herbie Hancock sabiam da explosão que aqueles dedos em descontrole eram capazes de provocar quando entravam em contato com as teclas de um piano. “Quero sair daqui, e farei isso de qualquer maneira”, informou ao serviço de imigração. O funcionário molhou o carimbo na tinta e o bateu no passaporte: “Liberado”.

Aos 50 anos, Gonzalo vive na Flórida, Estados Unidos, com a mulher e três filhos. Sua galeria de trabalhos prestados é extensa e medalhas não lhe faltam. São ao todo 14 indicações para o Grammy, sendo vencedor em quatro delas. Ao piano, segue com uma técnica e um poder de improvisação de impressionar o alto escalão. Sua luta é para desativar as cercas elétricas, muitas vezes armadas pelas próprias plateias que insistem em separar a música clássica de gêneros populares como o jazz.

Gonzalo vem ao Brasil para um concerto de piano solo no Teatro Alfa dia 16 de novembro, como parte da programação da 3ª Mostra Tom Jobim Emesp. Ao Estado, por telefone, ele vai além do protocolo seguido por 99% dos músicos cubanos que decidem falar com jornalistas. Além de música, Gonzalo Rubalcaba fala de política e de Fidel Castro. E não fala pouco.

Ao saber que um artista vem de Cuba, as plateias já armam seus ouvidos para receber um certo padrão melódico e sobretudo rítmico que ouvem há décadas na música de vocês. Essa carga genética, quase obrigatória de ser mostrada, se tornou uma prisão?

Isso é um prejuízo. Antes de ouvir um concerto, as pessoas já estabelecem uma ordem daquilo que acham que vai acontecer. Elas deveriam ir a shows sem esperar nada. 

As plateias estão preparadas para o novo?

Há muita injustiça. Sei que é difícil não considerar a trajetória de um artista, mas as pessoas têm de entender que mesmo os que estão há anos na estrada devem continuar se renovando. As pessoas só querem a repetição.

Plateias são cruéis?

Sim, e quanto mais o músico tiver um trabalho popular, uma canção que tenha ganhado mais projeção, mais difícil ficará divorciar-se da repetição. Vão sempre vê-lo por meio dessa mesma canção. Tenho trabalhado com muitos artistas pelo mundo e propondo a eles que façam coisas novas, mas o público nem sempre aceita. É uma luta frustrante.

E o artista deve romper com as expectativas ou atendê-las?

A valentia de um músico está no ato de não se importar com o público, com os desejos momentâneos. Não podemos nos apaixonar pelos êxitos do passado.

Mas os êxitos do passado alimentam uma tradição inteira em Cuba. Muitos músicos construíram suas carreiras com eles...

Enfrento todos os dias esse dilema. As pessoas se aproximam de mim depois do concerto e dizem: “Puxa, eu pensei que fosse ouvir mais música cubana”. Isso sempre, seja aqui, nos Estados Unidos, seja na Europa ou na América do Sul. Só não me dizem isso no Japão, onde toco há 20 anos. Eu não discuto com essas pessoas, elas não precisam concordar comigo. O ideal seria que tivessem mais informações sobre os artistas.

Onde estariam hoje as plateias mais preparadas?

Existem plateias com mais memória, de nações mais antigas, acostumadas a receber o que você faz com reflexão. A música para elas não é um fato extraordinário, mas algo necessário à vida, por isso criam sempre espaços em seus cotidianos para recebê-la. E existem as nações mais jovens, com um conhecimento menor, mas com muita fome de se tornar parte de um evento artístico. Em geral, são mais espontâneos. Estive há quatro dias no Azerbaijão. Por só poderem ver espetáculos maiores agora, o público de lá é supersensível e se emociona instantaneamente, mesmo não sabendo o que você está fazendo.

O Brasil estaria nesse grupo?

As plateias do Brasil conseguem misturar esses dois perfis. Por conhecerem muito outros países e outras culturas, os brasileiros conseguem mesclar o apetite natural e a inteligência não acadêmica que possuem com as informações específicas. Eles sabem onde está o bom gosto.

E Cuba? Como fica Cuba?

Eu estive lá em dezembro passado depois de muitos anos distante. Apesar de todas as limitações, técnica e de organização, o cubano tem muita sensibilidade para as artes. A riqueza da tradição alimentada ali por vários povos está na memória daquela gente. O cubano nunca é apático e tem sempre um grande interesse em ser parte do show. Eles nunca vão só para assistir, querem participar. E quando vemos aquilo, aquele povo que busca espaço para fazer sua vida com tantos problemas colocando a cultura em suas vidas, é comovente.

Ao isolarem a Ilha do restante do mundo, a Revolução de Fidel e o embargo imposto pelos Estados Unidos parecem ter afetado também a música cubana. Apesar de ser farta, ela deveria ser mais rica se tivesse sofrido mais miscigenação?

A política de Cuba afetou tudo. E o cubano se acostumou a fazer as coisas em um espaço que não permite o novo, em que não há janelas para ver o mundo. Foi assim com a música, com os esportes, com a medicina. E veja como vive o artista. Um homem que acorda pensando como vai fazer para conseguir alimentar sua família, como vai fazer para se locomover... Quanto tempo sobrará para esse homem estudar, criar e compor? A política levou a uma falta de talento. A Ilha tem muitos ouros brutos. É por isso que muitos decidem abandonar o país e buscar condições para crescer em outros lugares. Ninguém ali pode falar o que pensa, e se o que você pensa não pode ser dito, você se converte em um exilado.

E o perigo disso seria tornar a música cubana uma língua morta?

Creio que o cubano foi salvo por sua essência religiosa. O que ajudou a música cubana este tempo todo foi a relação de sua cultura com a Igreja Católica. Veja, em Cuba há um diálogo muito forte entre as religiões afro-cubanas e o catolicismo. É por ele que as tradições não acabam.

Cuba anunciou há duas semanas permitir que seus cidadãos viagem ao exterior sem a necessidade de visto. As coisas podem mudar agora?

Só lamento que sejam mudanças tão tardias. Elas são bem-vindas, mas penso por que tivemos de esperar tanto para vê-las. Por que tanto tempo para escutar isso? É ridículo. No mundo em que vivemos termos um país que restrinja princípios básicos de liberdade dos homens, como o direito de visitar seus amigos, sua família, viajar. Temos agora de recuperar o tempo perdido, mas as mudanças devem ser sérias, de maneira standard. Quero dizer com isso que as leis devem dialogar, estar em conexão com os códigos de liberdade que são praticados no mundo, que não seja apenas uma liberdade forjada por Cuba. Todos estão esperando por isso.

Há entre os cubanos uma expectativa sobre como serão suas vidas depois da morte de Fidel? Tem muita gente esperando por ela?

É muito triste dependermos da morte de alguém para conseguirmos mudanças. É dramático, mas é o que vivem os cubanos. Uma nação não deveria depender da morte de um homem para encontrar seu caminho. É lamentável que seja assim. Fidel se tornou o ponto de controle de tudo em Cuba, tudo depende de suas decisões. E por isso as instituições não funcionam. Quando diz que não é assim, Fidel mente. Em Cuba ninguém sabe como ele vive, onde vive, o que ele faz. Fidel Castro se tornou um mistério, um mito. Nunca sabemos o que é verdade e o que é mentira.

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