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Entrevista. Lang Lang

No Rio, artista diz ter preparado seleção de peças brasileiras

Pianista chinês Lang Lang faz concerto no Rio de Janeiro

João Sampaio

11 Julho 2014 | 02h 00

RIO - Aos 32 anos, o pianista chinês Lang Lang já lançou mais de duas dezenas de discos, foi embaixador da Unicef, criou projetos educacionais na Europa e Ásia, virou garoto-propaganda de grifes e marcas famosas, tocou em eventos esportivos e grandes arenas, assim como nas principais salas de concerto do mundo, tornou-se símbolo da presença cultural chinesa no Ocidente e encontrou tempo até para escrever uma precoce autobiografia. Se existem celebridades no mundo da música clássica, ele é com certeza uma delas - assim como o tenor espanhol Plácido Domingo, com quem ele sobe ao palco nesta sexta-feira, no Rio, para um concerto em comemoração pela Copa do Mundo, do qual vai participar também a Orquestra Sinfônica Brasileira regida por Eugene Kohn e a cantora brasileira Paula Fernandes.

Nos últimos anos, no entanto, Lang Lang vem tentando mostrar que tem mais do que uma bela técnica e um plano de marketing a oferecer. Seu repertório tem se ampliado - e esse movimento sugere a busca por peças que permitam a ele demonstrar novas camadas de musicalidade, distante da pirotecnia de gravações do início da carreira. Ele acaba de registrar, por exemplo, obras de Richard Strauss e Mozart (com o maestro Nikolaus Harnoncourt, um dos maiores especialistas na obra do compositor). E tem voltado também a Bach e Beethoven. "No começo da sua relação com a música, quando se é muito jovem, você aprende Bach, Mozart, Beethoven, mas não consegue entender a conexão entre eles, o significado de suas músicas", diz ele, em entrevista exclusiva ao Estado concedida na tarde da última quinta-feira em um hotel de São Conrado. "E por isso é muito estimulante revisitar este repertório nessa fase da minha carreira."

Nascido no interior da China em junho de 1982, Lang Lang mudou-se para Pequim para realizar seus estudos, que completaria mais tarde nos EUA. Diz que sempre se imaginou ligado à música, mesmo nos momentos mais difíceis, quando a pressão de seu pai, como conta em sua autobiografia, era quase intolerável. "Minha relação com o passado é tranquila. Ele é importante para mim. Quando olhamos para trás, descobrimos erros, acertos e um pouco do que somos. É assim com minhas gravações também. Mesmo que eu não goste de algo que fiz, preciso ouvir e partir dali em direção a outro caminho", explica.

Marcos de Paula/Estadão
Nascido no interior da China em junho de 1982, Lang Lang mudou-se para Pequim para realizar seus estudos, que completaria mais tarde nos EUA

O pianista chinês Lang Lang já confirmou sua presença na final da Copa, domingo, no Maracanã. E estará em companhia de torcida de peso e estrelas da música clássica - além dele, vão estar no estádio o tenor Plácido Domingo, o maestro Gustavo Dudamel e o regente russo Valery Gergiev, que vem ao Brasil na comitiva do presidente russo Vladimir Putin.

Na entrevista a seguir, Lang Lang fala da apresentação desta sexta-feira, dos novos passos da carreira, do momento em que revisita compositores importantes de sua trajetória e do seu trabalho como mensageiro de paz da ONU. "Podemos ajudar na transmissão de algumas mensagens e ao reunir e energizar as pessoas. Mas achar que podemos mudar a sociedade com concertos não é realista", diz.

O tenor Plácido Domingo tem feito surpresa sobre o repertório do concerto. Pode nos adiantar um pouco do que será apresentado?

Bom, o que posso dizer é que vou tocar peças conhecidas, de compositores como Chopin. E também, claro, SuperBrazil, uma seleção de peças brasileiras, além da Spring Overture, peça chinesa da qual gosto muito. Também vou acompanhar Plácido em algumas canções. E tem também Tico-tico no Fubá, eu gravei para o disco oficial da Copa do Mundo. Ou seja, será um longo concerto (risos).

Nada de compositores alemães, certo?

Acho melhor não (risos).

Em pouco mais de 15 anos de carreira, você já tocou e gravou uma enorme quantidade de peças e repertórios, os principais concertos...

Mas há muito ainda a fazer! Vou lançar neste ano dois álbuns com obras novas para mim. Uma delas é a Burlesque, de Richard Strauss, que gravei em Viena. E, em seguida, meu primeiro CD com concertos de Mozart, será um álbum duplo, com algumas sonatas também. A regência é de Nikolaus Harnoncourt.

Harnoncourt é um dos grandes especialistas na obra de Mozart, dentro da técnica da música historicamente informada, ou seja, tocada de acordo com pesquisas a respeito do espírito e das técnicas da época em que a obra foi composta. Como foi trabalhar essas peças de Mozart com ele, em estúdio?

Harnoncourt me ajudou muito quando trabalhamos anteriormente, primeiro no Concerto n.º 1 de Beethoven e, em seguida, nas Variações Goldberg de Bach. Claro, Mozart é uma de suas grandes especialidades, ele conhece essa música do avesso. E, durante o trabalho, nos dizia coisas que nos alertavam para o significado, a essência de algumas passagens. Por exemplo, uma cadência ele comparava a lágrimas, em outro momento, via pássaros, ou então a evocação da música do interior, da música da igreja. E ele nos explica tudo isso de modo autêntico, fácil de entender, não estamos falando de conceitos complicados ou intelectualizados. Ele fala e o som, de repente, sai melhor. E com ele aprendi uma lição importante: a liberdade. O rigor formal e a preocupação excessiva com a clareza, às vezes, joga contra a música. Mozart pede flexibilidade. Quando Mozart escreve ao pai, diz que sua música é como uma árvore: a base é a raiz e, no alto, há as folhas, que flutuam ao vento. E isso nos oferece liberdade para ir além da mera busca pela clareza na interpretação.

Como se dá, em sua carreira, a escolha de repertório? Há um plano estabelecido?

É algo que acontece naturalmente, mas, ao mesmo tempo, há, sim, algum tipo de plano. Evito planejar com muita antecedência, o máximo que me permito são dois anos. Nesse momento, quero muito me dedicar a Bach, por exemplo. Mas, enfim, no final do dia, é preciso saber seguir a própria natureza, nunca ir contra si mesmo.

À medida que amplia seu repertório, você sente que estabelece novas conexões entre os compositores e suas obras?

É como uma enorme rede biológica. No começo, você aprende Bach, Mozart, Beethoven. Mas você não consegue realmente entender a conexão entre eles, é difícil compreender, quando se é muito jovem, uma sonata de Beethoven. É impossível. Mas, então, você começa a aprender as peças do período romântico, Chopin, Liszt, Rachmaninoff, e elas são mais fáceis, não em termos técnicos, mas, espiritualmente, digamos. O instinto, aqui, fala mais alto. Só que, com o tempo, o instinto não basta e você começa a sentir falta de conhecimento, de aprender a música de outra forma, analisá-la, encontrar sentido no que você está fazendo. Como intérprete, você precisa entender o que está tocando e por que está tocando desse ou daquele jeito. E aí você sente a necessidade de voltar a Bach, Beethoven. Só que, ao fazer esse retorno, você já sabe melhor onde quer chegar, qual o seu foco. Quando se é jovem demais, não há direção. E, depois de entender melhor Mozart, você passa a ver Beethoven de outra forma, e depois Brahms, Schubert, e assim por diante. Aí a conexão fica clara.

Em que sentido você é um pianista diferente do que era há cinco, dez anos?

Os alvos estão mais claros para mim, meus objetivos. E é muito estimulante revisitar o repertório nessa fase. Quanto mais velho você fica, sua técnica não necessariamente melhora, ainda que possa ser refinada. O que muda são os seus objetivos.

Como encontrar um balanço entre técnica, virtuosismo e profundidade?

Não é algo natural. Você precisa constantemente trabalhar para encaixar em uma peça aquilo que aprendeu e, ao mesmo tempo, permitir que a técnica aponte caminhos. Há peças também em que você precisa ir no sentido contrário do que você é em termos de temperamento, caráter, personalidade. E, nesses casos, o pianista pode ser como um ator, digamos, buscando na literatura e em outras artes, ou mesmo na experiência de vida, elementos que permitam construir uma personagem.

Há um ano e meio, você lançou um disco dedicado à obra de Franz Liszt, intitulado Meu Herói do Piano. Por que definir o compositor como seu herói?

Quando era muito novo, ouvia peças de Liszt que me inspiravam e marcavam profundamente. Eram obras que permitiam um exibicionismo técnico que me deixa impressionado! Mas, com o tempo, entendi que ele foi mais do que isso, foi uma grande mente, sabia como promover recitais de piano, praticamente criou a ideia do recital. E, claro, pianisticamente, era um Deus! E, por isso, quis fazer um tributo.

Liszt foi uma celebridade do piano no século 19, assim como você é uma celebridade do piano do início do século 21. Em que sentido, porém, você diria que o trabalho do pianista hoje é diferente dos últimos séculos?

Nossa vida é muito mais fácil, viajar é muito mais rápido hoje. Imagina ir de um canto a outro de carruagem! Mesmo na época de Rachmaninoff, quando ele fazia as turnês pelos Estados Unidos ou voltava à Europa, os deslocamentos eram muito difíceis. Hoje, em um dia e meio, vou da China ao Brasil. Temos sorte também porque o mundo globalizado permite acesso a tudo, de modo muito mais fácil. Você reúne informações de maneira bem mais dinâmica. Mas, claro, há o lado ruim. Quando eu era criança, não havia muito mais para se fazer na China além de estudar, praticar cinco, seis horas. Hoje, há jogos, internet, a tecnologia. Conseguir momentos de concentração é raro, complicado.

Você falou em rapidez. Não sente, às vezes, que é tudo rápido demais?

Não, eu estou acostumado a isso e gosto deste aspecto da sociedade moderna. Posso fazer muito mais coisa em menos tempo, tocar, criar uma fundação, me dedicar a projetos educacionais, escolas. Hoje, você tem uma ideia e logo consegue transmiti-la e fazê-la repercutir.

Fundação, escolas. Você foi embaixador da Unicef e hoje é mensageiro da paz das Nações Unidas. Acredita que o artista hoje precisa ter uma atuação também política?

Não. No final das contas, o que as pessoas querem é ouvir você tocar. Ninguém vai a um concerto meu para me ouvir falar. É preciso separar as duas coisas. E encontrar um equilíbrio entre a atuação social e o fazer música. Mas o tocar sempre vem antes. Plácido Domingo é um ícone, mas, no palco, ele constantemente nos lembra de seu enorme talento e dos motivos que fizeram dele um ícone. Músicos clássicos precisam pensar em termos de carreiras longas, não interessam apenas cinco minutos de fama. A solidez, a busca pelo refinamento, este é o princípio. O resto vem depois.

E em que sentido um artista pode contribuir como representante da ONU?

Podemos ajudar na transmissão de algumas mensagens e ao reunir e energizar as pessoas. Mas achar que podemos mudar a sociedade com concertos é errado. A música ilumina, ajuda a curar. Mas o foco são, acima de tudo, apresentações especiais, chamar atenção para alguns temas, como a necessidade de investimento em educação. Mas alguns embaixadores não mudam o mundo. Não é realista achar isso.

PLÁCIDO DOMINGO E LANG LANG

HSBC Arena. Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3.401, Barra da Tijuca, Rio, 4003-1527. Hoje, 22 h. R$ 900/ R$ 1.200.

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