Páscoa de 1994

Hoje, somos adultos estilo Peter Pan, querendo acordar no domingo e viver tudo aquilo de novo

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2017 | 02h00

Acordávamos. Nessa altura, já não acreditávamos em coelhos. Quer dizer, acreditávamos – e muito – nos coelhos da Raíssa e da Livia, filhas de um amigo dos meus pais, e infernizávamos os dois diariamente para que nos dessem um coelho (“só um coelhiiiiiiinhooo”; “que que tem demais um coelhiiiiinhooo???”; “a gente jura que vai cuidar do coelhiiiinhoooo”; “vocês nunca fazem nada do que a gente pede”). Enfim, não acreditávamos no coelho da Páscoa, nem no bom senso dos nossos pais.

Mas acordávamos alegres e começávamos a procurar. Ovos embaixo do armário. Ovos dentro dos vasos. Ovos atrás dos livros. Ovos entre as almofadas do sofá. Ovos escondidos nas plantas. Meus pais ficavam por ali, observando, sem dizer nada. Todo ano era a mesma coisa: minha mãe não sabia quantos ovos havia escondido, portanto, nunca sabíamos se já havia acabado ou não. Nem ela.

Juntávamos nossos ovinhos com sorrisos estampados no rosto e dizíamos que iríamos abri-los e comê-los no café da manhã. Eles diziam só depois do papaia só depois do leite só depois do pão só depois só depois. Nos dávamos por vencidos e, obviamente, fraudávamos as regras intransponíveis. Filhos são os maiores profissionais da área de fraudes de regras intransponíveis. Começávamos a devorar ovos às 10 da manhã, sem qualquer previsão de intervalo.

Meus pais não davam ovos de Páscoa grandes. Eram daqueles pequeninos. Mãe com origens alemãs, pai com origens judaicas. Nunca foi uma casa de excessos e farturas. Era uma casa com o necessário. Na verdade, com muito mais do que o necessário, uma vez que ovos de Páscoa não são exatamente bens de primeira necessidade. E nós sempre soubemos ser gratos por isso. E, hoje, eu sou grata por ter aprendido a ser grata.

Mais tarde, chegava a Tia Rê. Os olhos brilhavam como nunca. A tia generosa que não tinha filhos (e que, na verdade, tem – até hoje – todos os sobrinhos como filhos). Eram os ovos grandalhões, coloridos, exagerados e brilhantes dentro de uma sacola imensa. Meus pais balançavam a cabeça. Nós parecíamos selvagens rumo a um ataque violento. Ela nunca se incomodou. Ela adorava. Nós, mais ainda.

Depois, vinha minha avó com a esperada caixa de pães de mel cobertos de chocolate. É como se eu sentisse aquele cheiro agora. Uma caixa cor de mostarda, forrada com papel manteiga para evitar que o chocolate que derretia entrasse em contato com o papelão. Eram os melhores pães de mel do mundo.

Fingíamos almoçar. A digestão do chocolate mal havia começado. Empurrávamos a comida com o garfo para lá e para cá. Era sempre a mesma coisa. Mas, no fim da refeição, surpreendentemente, havia espaço na barriga para mais cacau, mais manteiga, mais açúcar e mais crocantes. Trata-se de um fenômeno que a ciência até hoje não soube explicar.

No dia seguinte, levávamos ovos quebrados, semicomidos e desajeitadamente reembalados, dentro da mochila da escola. Os amigos também levavam seus tesouros e a segunda-feira tornava-se uma espécie de continuação do domingo de Páscoa, marcada por trocas, permutas e escambos.

Hoje, somos adultos estilo Peter Pan, que queriam acordar no domingo e viver tudo aquilo de novo. Mas não dá. Há distância, há colesterol alto, sobrepeso e tristes casos como o meu, no qual descobri que o chocolate era o grande culpado pelas dores de cabeça. Preferia que fosse a couve.

Mas não há drama. Tivemos sorte, muita sorte. Não pelos presentes, pelos sabores e pelas embalagens coloridas. Mas pelo zelo. Pelo ato de esconder um por um, pelo ato de ir à loja buscando os favoritos de cada sobrinho, pelos pães de mel que tinham e seguem tendo o gosto bom de ter uma avó. Sorte por ter lembranças tão boas. E sorte por ter esperança que dentro de algum vaso na casa dos meus pais ainda haja um ovo esquecido em 1994. 

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