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Richard McCaffrey|Michael Ochs Archives|Getty Images

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Iggy Pop

Parcerias com David Bowie resgataram talento de Iggy Pop, Lou Reed e outros artistas

Músico britânico estabeleceu relações de simbiose com artistas tão fundamentais do rock n' roll como ele

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Guilherme Sobota,
O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2016 | 04h00

“A amizade de David foi a luz da minha vida. Eu nunca encontrei uma pessoa tão brilhante. Ele foi o melhor que já existiu”, resumiu, por meio das redes sociais, Iggy Pop, sobre a notícia da morte de David Bowie.

Com uma imensa capacidade musical e artística, Bowie não apenas fez discos geniais e criativos, nem só atuou em papéis inesquecíveis no cinema, nem apenas transformou sua vida em uma peça única de arte perene – ele compartilhou e se aproveitou igualmente de habilidades musicais e no showbiz de artistas fundamentais do rock.

“Essa é outra marca de Bowie: pegar um artista numa encruzilhada profissional, geralmente um que já teve dias melhores, e reinventá-lo como uma nova entidade pop, uma que exaltasse o brilho Bowie”, escreve Marc Spitz, no livro Bowie: A Biografia (2010, Benvirá). E talvez a estrela maior dessa constelação de resgatados por Bowie tenha sido Iggy Pop.

Os dois se conheceram em 1971, no Max's Kansas City, mítico bar de rock em Nova York (a história está no livro Open Up and Bleed, de Paul Trynka, publicado por aqui pela Aleph). O encontro afetou a vida de ambos de uma maneira bastante decisiva. Entusiasmado e quase ingênuo sobre o showman incontrolável em sua frente, Bowie, com seu agente Tony Defries, propôs uma carreira solo para Iggy em Londres – que acabou virando um último respiro para os Stooges, a banda de Iggy, e o álbum Raw Power.

Pouco depois, Bowie lançaria seu personagem Ziggy Stardust e a reverência ao americano e tresloucado Pop já não poderia ser mais óbvia. Após uma controvérsia sobre a mixagem do disco (“aquele porra de cabeça de cenoura” tinha “sabotado” seu álbum, disse Iggy), os dois se separaram por um tempo, até Bowie encontrá-lo alguns anos depois numa clínica de reabilitação em Los Angeles (“e aí, quer um teco?” teria sido sua primeira frase ao velho amigo convalescente).

Era uma fase difícil para Iggy: após o fim dos Stooges, ele desfrutou um período pesado de abuso de drogas, pouco dinheiro, bicos em bares com o que sobrou do The Doors, noites ao relento e até alguns dias como operador de telemarketing. Quem o salvou foi um traficante de Hollywood, amigo de Keith Richards, Freddy Sessler, que ligou para Bowie em busca de socorro. O contato deu certo e Bowie mostrou a Iggy, alguns dias depois, Sister Midnight. Eles embarcariam para Berlim para gravar talvez as coisas mais brilhantes das carreiras de ambos.

Mas Iggy não foi o único. Em 1972, Bowie coproduziu o álbum Transformer, de Lou Reed (que na época, afastado do Velvet Underground, trabalhava na empresa de contabilidade de seu pai). No mesmo ano, escreveu e produziu All The Young Dudes, para a seminal banda Mott the Hoople, que virou um hino glam.

Levou, pouco depois, a estrela pop britânica Lulu (To Sir With Love) a uma direção mais adulta em sua carreira, com uma versão conjunta de The Man Who Sold The World. Em 1983, Bowie convidou um emergente guitarrista texano chamado Stevie Ray Vaughan para gravar seis das oito faixas de Modern Love, seu álbum de maior sucesso de todos os tempos.

Em 1985, no auge do glam, até Mick Jagger, na época brigado com os Stones e tropeçando em uma carreira solo que nunca decolou, foi agraciado com uma parceria (inesquecível, por várias razões), e o dueto com Bowie na versão de Dancing in the Street para o Live Aid ocupou o #1 das paradas britânicas.

Angie Bowie, a famosa ex-mulher, atribui razões um pouco mais cínicas à circulação do ex-marido nos nichos cults: “Se ele tivesse todas as pessoas legais em volta, isso não faria dele o mais legal de todos?”. Faria, Angie. E ele foi.

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