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Pablo Milanés faz dueto com Maria Rita em SP

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2010 | 06h 00

Músico cubano diz por que não vai receber Grammys nos EUA e questiona a revolução cubana

Foi em 1983 que o cubano Pablo Milanés pisou no Brasil pela primeira vez. Os tempos por aqui eram promissores e o compositor, consagrado pelo crucial papel na modernização da música de sua ilha, foi abraçado por uma legião de admiradores formada por alguns artistas brasileiros da maior expressão: Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Elba Ramalho, Simone, Nana Caymmi... De lá pra cá, Pablo fez meia dúzia de visitas musicais. Agora, está de volta para o festival Sonidos, de cunho integracional, no Jockey Club de São Paulo: em sua noite, na quarta-feira, fará dueto com Maria Rita.

 

A amizade e o afeto pelo Brasil se mantêm em alta. Embora uma doença misteriosa que provoca a morte dos tecidos ósseos do quadril dificulte sua locomoção, Pablito, 67 anos, pai de nove filhos, continua o mesmo. Faz em suas canções um combinado de letras de amor, desamor e questões sociais, como as que aparecem no último CD, Regalo, lançado em 2008 em Cuba e sem data para sair aqui. Pablo critica de forma cada vez mais contundente o regime de Fidel e Raúl Castro, do qual não espera nada mais do que um fim digno. Foi em seu hotel em Copacabana, na última quarta-feira, que ele conversou com o Estado, por 1h10.

 

Qual é a primeira sensação que você tem quando pensa no Brasil?

Há uma coisa fundamental, que é o fato de ser parecido com Cuba em todos os sentidos: a integração racial, cultural, o caráter aberto, o sorriso. Depois, tem a beleza do país, a grandiosidade de rios, montanhas, selvas...

 

Há quase 40 anos você começou a viajar o mundo com sua música. Que prazer essas experiências ainda lhe dão?

O que mais me dá prazer são as apresentações ao vivo, mais que gravações, promoção em rádio, TV. Como comunicador, gosto disso. Tive o privilégio de cantar para muitos públicos, fui à Europa, Ásia, percorri a América inteira. Sempre há um denominador comum, que é a sensibilidade do público de se identificar com a poesia.

 

Para o CD Regalo, você escreveu uma música chamada Suicidio. De onde saiu?

É uma canção que fala um pouco do que se viveu, do momento em que a pessoa sente que não há mais nada a fazer, a não ser contemplar o passado. Vejo isso nas pessoas que se aposentam, aos 60, 65 anos.

 

Você tem 67 anos...

Mas estou muito longe de ser essa pessoa, muito longe da aposentadoria!

 

E a música Bayamo con Su Saco, dedicada à sua cidade? Ainda vai lá? (ele mora em Havana).

Vou muito, tenho familiares que visito. É uma cidade que foi muito importante, onde se levantou o primeiro grupo de patriotas cubanos, no que viria a culminar na independência de Cuba. O hino nacional se chama La Bayamesa, é de lá. A cidade foi foco de insurreição sempre, incluindo a última guerra, de Fidel Castro. Tem uma tradição revolucionária.

 

Suas preocupações sociais vêm de suas experiências em Bayamo?

Creio que sim. Meu pai trabalhava em casa e me colocava para ler a história de Bayamo. Só havia um livro, que se chamava Bayamo. Era o único que eu lia, sabia de cor.

 

No CD há a canção La Libertad, que fala que "a liberdade, como tudo na vida, nasceu para morrer". É uma ideia pessimista.

Não, é realista. Não há liberdade absoluta, eterna... "A liberdade é uma menina bonita e pura que é violada ao longo dos anos. Quando cresce por cima das árvores sabemos que não vai sobreviver" (recita a letra da música). Isso é assim em todo o planeta, não é uma canção dedicada só a Cuba, mas a todos os países.

 

Fale sobre a canção Dos Preguntas de Un Día.

É sobre a situação que se seguiu à diáspora cubana, com os exilados. Foi devastador ver as famílias divididas por questões políticas. Não foram só para os Estados Unidos, até no Polo Norte tem cubano. Essa canção fala dos culpados: os EUA, por não permitirem que os cubanos entrem em seu país, e Cuba, por não permitir que saiam. Quem sofre, quem se desmembra? As famílias. Então, com o tempo, nós, que defendemos a revolução, perguntamos: valeu a pena?

 

Seus principais temas são políticos, socialistas e amorosos. São os que mais o movem, ainda hoje?

São os temas humanos, comprometidos socialmente. Não diria exatamente político. Meu compromisso com meu país era estritamente político. Mas com o tempo vi que era além do político: era humano. Gosto mais de me aprofundar no ser humano, suas tristezas e alegrias, do que de me comprometer com uma questão política, que é passageira, pode mudar conforme os líderes.

 

Muito se fala da riqueza cultural de Cuba. Poderia ser ainda mais rica, se o país tivesse se integrado ao resto do mundo?

É uma pergunta bastante interessante. O cubano, independentemente do isolamento que passou, sempre teve um afã de conhecimento extraordinário. Você chega a Cuba e vê que o cubano pode falar sobre qualquer tema, mesmo com pouca informação.

 

Mas naturalmente o que vem de fora não influencia tanto...

Sim, mas as pessoas não têm preconceito com o que vem de fora. O povo não tem, quem tem preconceito são as autoridades. O que é injustificado, na minha opinião, porque as pessoas estão capacitadas a definir se uma tendência é boa ou má. Deveriam ter livre arbítrio.

 

Há quatro anos você ganhou dois Grammys. Gostaria de ter ido aos Estados Unidos recebê-los?

Eu pude ir, não fui porque não quis. Eu respeito os jurados, mas os prêmios não me dão nenhuma felicidade, não alteram o ritmo do meu trabalho, não me interessam. Mas não me satisfaz fazer parte desse mundo.

 

Então não teve nada a ver com o fato de a premiação ser nos EUA?

Não, poderia ser em qualquer país. A competição é que não me anima.

 

Mas não se trata de um reconhecimento da música cubana como um todo?

De certa maneira, mas o importante é que meu país me reconheça.

 

Como você viu o fenômeno Buena Vista Social Club (filme e série de shows pelo mundo com a velha guarda da música cubana)?

Em Cuba há uma tendência muito ruim de se esquecer os grandes valores artísticos do passado. Todo o movimento artístico está centralizado no estado, e o estado às vezes é frio, não analisa humanamente o que significa reconhecer essas antigas figuras. Eu fiz um programa de TV e gravei discos de grande parte dessas pessoas. Isso nos 80, antes do Buena Vista. Mas teve pouca publicidade. Depois tiveram os meios, as empresas norte-americanas. Vi recompensando de algum modo o que eu tinha feito, porque foram consagrados Compay Segundo, Ibrahim (Ferrer), Omara (Portuondo), esses que carregam a história da música cubana. Para eles foi uma consagração inesperada, tanto que não sabiam o que fazer depois. O grande triunfo chegava tarde demais.

 

Como se sente sendo uma unanimidade em seu país?

É uma honra, mas quando comecei a fazer críticas à revolução, fiz correndo risco. Não por ser conhecido. Era o que eu precisava dizer. O governo me respeita, e isso me enche de orgulho, e o povo me respeita também. Me sinto representante dos que não podem fazer o mesmo.

 

Por que você pode falar o que pensa sobre o regime e os outros não?

Porque tenho meu sentimento revolucionário. Acredita-se que outra pessoa, que não se sabe quem é, não tenha direito de se manifestar. Qualquer pessoa, tenha o pensamento que tenha, a favor ou contra a revolução, tem o direito de se expressar. Há 20 anos eu venho dizendo isso.

 

Que futuro prevê?

Fidel e Raul têm a responsabilidade, antes de morrer, de deixar o país em ordem com seus devidos sucessores. Com todas as liberdades garantidas. Com os problemas econômicos resolvidos. Para que a revolução não fique no ar, e um grupo de oportunistas que já estão no poder não se apoderem de Cuba, da revolução, ou a vendam - o que seria o pior. Não podemos perder todos os valores, tudo de bom que ainda existe.

 

Perguntas de Maria Rita para Pablo Milanez

 

Pablo Milanés não conheceu Elis Regina pessoalmente: desembarcou no Brasil um ano após sua morte. Quando chegou, pelas mãos de Chico Buarque e pelo então empresário de Elis, quis saber tudo sobre a vida e a partida da grande cantora brasileira.

Passados 30 anos, "saltou de alegria" ao descobrir a filha de Elis, que à época assinava Maria Rita Mariano, pela gravação de Tristesse, do amigo mútuo Milton Nascimento.

 

No festival TelefônicaSonidos, os dois, Pablo e Maria Rita, deverão cantá-la juntos. A apresentação terá ainda Samba Meu, faixa-título do mais recente - e elogiado - CD da cantora brasileira, e Yolanda, hit insuperável do cubano. A seguir, Pablo responde às perguntas enviadas por Maria Rita.

 

Qual a sua primeira lembrança envolvendo música?

É de minha irmã mais velha escutando o trio Los Panchos, mexicano. Sabia todas as canções de cor, com 4 ou 5 anos. Brincava com meus brinquedos e cantava todo o repertório do trio. Lembro de estar dentro da música.

 

Creio que o artista seja, entre outras coisas, um repórter do seu tempo, captando o espírito de sua época e transformando-o em música. Qual composição de sua produção atual sintetiza seu sentimento sobre o momento histórico que vivemos?

Este último disco, Regalo, tem muitas canções que expressam esse sentimento. Há muitas letras assim.

 

O seu álbum Meus 22 Anos é considerado um marco evolutivo na música cubana. Na época, o senhor tinha noção da dimensão desse disco?

Não tinha ideia. Fiz sinceramente por um sentimento de criatividade de fazer algo diferente, de me manifestar de outra maneira, como jovem que era, mas não pensava que iria ser um marco.

 

Agrada ou incomoda saber que sua música pode ser ouvida e baixada livremente na internet?

Agrada. Sempre digo que os principais corsários da música são as grandes companhias de discos e que prefiro os piratas.

 

Fora a música cubana, quais gêneros musicais o encantam?

Ouço tudo o que é bom. Não tenho preferência, mas devo confessar que a música barroca e a brasileira são minhas preferidas. A vida e a música são cíclicas, dão voltas, e às vezes nos vemos ouvindo as mesmas músicas que ouvíamos há 40, 50 anos. São coisas que têm valor porque não perecem. O bom é imortal.

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