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Ópera inspirada em 'Dom Quixote' ganha nova produção no Teatro São Pedro

Produção tem um elenco encabeçado pelo baixo americano Gregory Reinhart.

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João Luiz Sampaio,
ESPECIAL PARA O ESTADO

02 Março 2016 | 05h00

Se a história de uma obra de arte é também a história das interpretações que ela recebe com o passar do tempo, no caso do romance Dom Quixote, já se vão mais de quatrocentos anos de releituras. “Alguém comentou outro dia: são os dois maiores best-sellers da história, Jesus e Dom Quixote”, brinca o diretor Jorge Takla. É ele quem assina uma nova produção da ópera que o francês Massenet escreveu a partir do texto de Miguel de Cervantes. 

A estreia é nesta quarta-feira, 2, no Teatro São Pedro e, em abril, a montagem segue para o Teatro Municipal do Rio, com um desafio nada modesto: apresentar ao público uma ópera pouco conhecida, e o que ela tem a dizer sobre um dos personagens mais comentados da cultura ocidental.

“Eu não conhecia a ópera quando fui convidado para assinar a direção. E então fiz como dizia Callas, quando lhe perguntavam de onde tirava suas interpretações. Escute a música, ela dizia. E descobri uma música sublime, linda, onde está toda a dramaturgia da história a ser contada”, explica Takla. “É fascinante ver o encontro entre Cervantes e Massenet. O autor do texto da ópera obviamente precisou adaptar o romance. E algo interessante acontece. Se você lê simplesmente o libreto, percebe claramente as diferenças com relação ao original. Mas, quando ouve a música, enxerga justamente as semelhanças entre o original e a adaptação”, completa.

A produção tem um elenco encabeçado pelo baixo americano Gregory Reinhart. Ele esteve no Brasil nos últimos anos, participando da produção da tetralogia O Anel do Nibelungo, de Wagner, iniciada no Teatro Municipal de São Paulo. Esta será a primeira vez que ele interpreta o papel e terá ao seu lado o barítono Eduardo Amir, como Sancho Pança, e a mezzo-soprano Luisa Francesconi, como Dulcineia. A regência é do maestro Luiz Fernando Malheiro, que também vai comandar a temporada carioca, trabalhando com o mesmo elenco de São Paulo.

Dom Quixote foi uma das últimas obras de Massenet. Estreou em 1910, em Monte Carlo. O texto original de Cervantes (em 2016, são 400 anos de sua morte) não foi sua única inspiração: ao escrever o libreto, Henri Cain se baseou também em Le Chevalier de La Longue Figure, peça do francês Jacques Le Lorrain. Entre as diferenças com relação ao original, uma em particular chama atenção: se, no romance, a jovem e bela Dulcineia nos chega apenas pelos relatos do protagonista, na ópera, ela ganha carne e osso. “Foi um processo interessante pensar de forma concreta uma personagem que, em essência, representa o ideal, o sonho”, diz Takla, para quem, de certa forma, ela se torna um espelho que nos faz enxergar o próprio Dom Quixote. “Massenet a retrata como uma mulher que tem tudo, mas não está satisfeita, busca algo que ela não sabe o que é, outro desejo, outra poesia, outra loucura. É isso que esse cavaleiro oferece a ela, mas ela não se sente à altura dele. Isso não existe no Cervantes, mas é interessante. No final, esse é um trabalho que viaja por diferentes registros: o que é sonho, o que é verdade, o que é Cervantes, o que é Massenet?”

Doré. Assinada por Nicolas Boni, a cenografia da produção se inspira nas gravuras que o pintor francês Gustave Doré criou para ilustrar a história de Cervantes, em 1863. “Ele me trouxe essa ideia e logo de cara eu fiquei encantado. Evocar o Doré é uma forma de permanecer em um universo próximo ao Dom Quixote, mas a partir de um corte diferente, feito de detalhes. As gravuras também acabaram inspirando os figurinos de Fabio Namatame, a não ser no caso dos três protagonistas, que foram tratados de maneira mais realista.”

De Charlie Chaplin a Lucille Ball como referências

Não é exagero dizer que o espectro de Dom Quixote rondou durante décadas o baixo americano Gregory Reinhart. “Eu esperei muito tempo antes de aceitar cantar o papel”, ele explica, em entrevista ao ‘Estado’. Não por falta de interesse - mas por respeito à partitura e ao personagem, com o qual ele manteve uma relação estreita.

“Na adolescência, eu adorei o musical The Man of la Mancha, que vi na Broadway. Na faculdade, quando minha turma montou a peça, eu quis muito cantar o papel principal. Mas eu tinha só 20 anos e eles preferiram escalar alguém mais velho, que tinha 27”, ele lembra. “Mais tarde, quando fui estudar em Boston, conheci as canções de Ravel, Don Quichotte à Dulcinée, que cantei várias vezes. Em 1978, depois de me mudar para Paris, encontrei as canções que Jacques Ibert escreveu para o filme de Pabst. Comprei também uma edição original da partitura, com uma dedicatória de Massenet, encontrada por um amigo que insistia que eu um dia cantaria a ópera”, conta.

Todos esses encontros com o personagem refinaram sua percepção do papel. Mas não só. “Além do prazer de ler o romance do Cervantes diversas vezes, minhas referências ao criar o papel incluem Charlie Chaplin, que consegue uma delicadeza ao mesmo tempo em que é cômico ou trágico, e Lucille Ball, um ícone da comédia que se mantinha humana e vulnerável”, ele explica. “A pantomima é uma arte essencial para o cantor de ópera, pois temos que expressar com todo o corpo o caráter essencial de um papel, enquanto atuamos com a nossa voz, deixando que a música escrita guie a nossa interpretação.” 

DOM QUIXOTE 

Theatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, tel. 3661-6600, metrô Marechal Deodoro. 4ª e 6ª, 20h; dom., 17h. R$ 30/ R$ 80. Até 13/3

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