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O resgate do soldado Dexter

Julio Maria - O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2012 | 07h 00

Ex-presidiário se solidifica entre os melhores rappers do País

As portas do último inferno se abriram para Dexter às 10 h da manhã do dia 1.º de abril de 1999. Enquanto descia do bonde e caminhava para a triagem com outros presos, sentiu que havia chegado ao limite. Homens de calças bege e camisetas brancas andavam tensos pelos pavilhões do Carandiru. Mais um deles seria assassinado depois do almoço, marcado por caguetar parceiros de cela. Olheiros andavam por ali procurando troféus recém-chegados, inimigos de criminosos que poderiam valer ouro. 

Dexter abriu sua trouxa e pegou um álbum de fotos. Dois homens se aproximaram e viram que ele aparecia em algumas delas ao lado de Mano Brown, no palco, de microfone em punho. “Você faz um rap, irmão?”, perguntaram. Eles também faziam. A amizade estreitou e Dexter foi parar em um barraco no Pavilhão 2. O rap o salvava pela primeira vez.

Antes de ser Dexter, seu nome é Marcos Fernandes de Omena, jovem de 39 anos que tentou construir seu castelo no crime até descobrir que usava tijolos de areia. Um assalto a mão armada lhe valeu cinco anos e oito meses de cárcere. Sem orientação jurídica, não soube que, como réu primário, teria grandes chances de começar a voltar à sociedade depois de cumprir um sexto da pena em regime fechado. Assim que ouviu a tranca da cela, se desesperou e decidiu se entregar ao crime. Fugiu de uma delegacia em Serra Negra e, em quatro dias, roubou um carro e assaltou um mercado e um posto de gasolina. Ao ser recapturado, viu sua pena aumentar em dez vezes e foi despachado para o Carandiru.

Seis meses depois de chegar à estação terminal do crime, Dexter se rendeu. Sentiu uma força tomar seus pensamentos e decidiu que seu negócio não seria mais aquele. O rap começou a ganhar a batalha e a cela 7.509-E, no 5.º andar do pavilhão 7, passou a abrigar uma das maiores transformações que aqueles muros testemunharam. Dexter lia tudo o que podia, ouvia a música de seus ídolos e, principalmente, criava montes de versos nas madrugadas que passava em claro. 

Com o companheiro de cela Afro-X, criou a dupla 509-E e começou a ter visibilidade. Mais tarde, transferido para o presídio de São Vicente, ganhou moral com a direção ao mostrar interesse em melhorar o mundo em que vivia, mesmo sendo ele uma prisão. Articulou a criação de uma biblioteca, angariou fundos para reformar duas salas de aula e passou a trabalhar em um programa na rádio interna. Conseguiu autorização para montar um estúdio de gravação e registrar seu primeiro disco solo. Exilado Sim, Preso Não se tornou um dos álbuns mais importantes do rap, vencedor de seis prêmios, dentre eles o cobiçado Hutus de melhor disco de rap de 2005.

Há três anos, fez seu primeiro grande show na quadra da escola de samba Unidos do Peruche para 5 mil pessoas. Dexter e Convidados reuniu os grandes nomes do hip-hop e ganhou ares de tributo a um sobrevivente. Hoje livre, depois de 13 anos de cárcere, prepara seu próximo disco, Flor de Lótus, faz shows em todo o País e visita presídios para reforçar a tese de que o crime, por maior que seja seu poder de sedução, continua sendo o melhor caminho para o cemitério.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse recentemente que prefere morrer a ter de passar uma temporada em uma cadeia no Brasil. A prisão pode recuperar alguém?

Não, de forma alguma. Se o sujeito não tiver uma força interior para sair dessa vida, ele está assaltado.

Mas você se regenerou somente por esforços pessoais?

A prisão era terra de ninguém, morria um por dia. Hoje não se mata mais por lá, o PCC acabou com isso. Mas quando percebi essa violência, a lei do quem pode mais chora menos, pensei: “Esse não é o mundo em que eu quero viver”.

O problema é você sair dessa ciranda uma vez em que já está lá dentro. Como conseguiu fazer isso?

O rap foi a minha salvação. Eu ficava de quebrada fazendo minhas músicas e os outros presos começaram a me respeitar. “Não, o mano aí é rapper”, diziam. E o que eu fazia? Colocava o nome dos caras nas músicas e cantava a realidade que a gente vivia lá dentro. “Aê moleque, você tem mó talento”, falavam. Então percebi que eu precisava só da minha música para ser respeitado, ter amizades e andar tranquilamente. Eu não precisava matar nem morrer. Criei um mundo para mim.

E quando foi que essa ficha caiu?

Quando recebi a notícia de minha primeira condenação, cinco anos e seis meses, disse: “Meu mundo acabou”. Não queria mais ser rapper. Falei: “Vou ser ladrão mesmo, vou fazer amizade com a quadrilha e vou para o crime”. Nesse momento, desisti do rap. Eu queria fazer sucesso de qualquer jeito. Comecei a ver parceiro chegar baleado com tiro no pescoço, amigo com tiro de fuzil na perna, fêmur quebrado. Havia um amigo meu, o Gordão, que não conseguia ficar um dia sem se drogar. Cocaína, baque, bagulho horrível. Um agredindo o outro, sacando faca. Decidi que não era o que eu queria.

Mas antes disso, houve uma fuga...

Sim. Quando me desesperei, resolvi fugir. E nos quatro dias em que fiquei na rua, roubei um carro, um mercado e um posto de gasolina. Saí bicho solto mesmo. Fui recapturado, minha pena aumentou e o diretor disse que não me queria mais por lá, que a delegacia já era pequena pra mim. Foi aí que me mandaram para o Carandiru. E foi lá que eu comecei a trocar o crime pelo rap.

E você tem amigos aqui fora que conseguiram se recuperar na prisão?

Conheço alguns, mas são bem minoria. Se o indivíduo não tiver força para sair do crime, ele volta. Conheço muita gente que entrou na prisão como um zé-ninguém e saiu doutorado, deu prosseguimento e hoje segue carreira no crime aqui fora. Antes usava drogas e tudo mais, até que seus parceiros o chamaram e disseram: “Mano, você vai morrer assim, vem com a gente”. O cara entra em uma quadrilha e diz: “Já que minha vida é o crime, vou estar na inteligência”. Você sabe disso. Assalto ao Banco Central. O cara que fez aquilo é um arquiteto. Eu tive várias ideias com lideranças, você tem que ver as ideias dos caras. Na cartilha, o bagulho é lindo, é uma revolução.

O fim das rebeliões em presídios tem a ver com o PCC?

A TV coloca a rebelião como uma cultura de presídio, o que é errado. Uma rebelião só é feita quando se chega ao extremo de uma situação. Quando por vezes já foi conversado com o diretor da cadeia e ele não deu um jeito na água. “Pô doutor, está saindo rato da caixa d’água!” E fica assim uma, duas, três semanas. E aí, explode coração, já era. A rebelião é para chamar a atenção e reivindicar os direitos. Eu recebi vários convites para entrar no PCC, mas sempre respondi: “Olha, prefiro ficar com um microfone na mão do que com um fuzil. Eu amo tanto o rap que vai chegar um dia em que vocês vão me dar uma missão e eu não vou porque vai ter um show para eu fazer. Aí, sabe o que vai acontecer? Vocês vão me cobrar. E vocês vão me matar. É isso o que vocês querem? Me matar?”. E eles responderam: “Está certo negão, é isso mesmo, sua causa é essa”. Minha vida é o rap, não é o crime.

Você não fica em uma saia-justa com os criminosos que conhece quando tem de compor um rap dizendo que o crime não compensa?

Irmão, nem os caras gostariam de estar na vida em que estão. Eles sabem que minha negativa em relação ao crime é legítima porque eles também são a favor disso. Quem cria tudo isso? O sistema, a televisão faz isso o tempo todo. É o iPod, é a Nike, é o melhor carro. É como se dissessem que para você ser uma pessoa bem-sucedida, você tem que ter aquilo ali. E isso só piora quando o cara que vê isso não tem educação, não teve incentivo para estudar, para ser alguém. Ele vai para o crime. Quantos deles já me disseram: “Pô negão, se eu tivesse a oportunidade de ser um rapper...”. Eles sabem que eu não posso sair por aí vangloriando o crime porque eu sei para onde o crime leva. Daqui a pouco o cara está morto na mão da polícia ou está em uma cadeira de rodas. Eles sabem disso.

Quem é o inimigo?

É necessário fazer uma crítica a um Estado que não investe em educação. Digo em uma música que enquanto uma escola é construída em algum lugar, já se tem 10 prisões a mais para inaugurar. O governo investe mais na repressão do que no ensino.

Em dias de guerra nas ruas, como os que estamos vivendo, o rap não ganha uma grande chance de se fortalecer como veículo de resistência e conscientização da juventude?

É por isso que eu ainda não posso mudar o meu discurso. Tem muita coisa ruim acontecendo nas ruas. O rap tem que continuar alertando as pessoas. Quando a gente pensa que melhorou, acontece tudo isso que está acontecendo. O rap serve para mostrar a realidade de uma quebrada, de um país, e serve para jogar isso no peito das pessoas e dizer: “Pensa aí o que você está vivendo. O que você quer para o seu mundo? Quer mudar? Quer ajudar?”.

E há um resultado prático?

O rap é a única música que reúne milhares de pessoas, milhares de jovens para falar sobre tudo isso. Fiz um show na quadra da Peruche para 5 mil pessoas. Isso para mim é o maior prêmio, naquele momento do show, conseguimos transmitir paz. Sinto que as pessoas estão ouvindo mais rap de novo e sinto muita alegria em estar com parceiros como Mano Brown, GOG, Rappin’ Hood, gente que está aí e que está viva. Isso é muito louco. Se você for olhar, o que nós tínhamos de chance? Se for olhar para os anos 80, da nossa geração, vai ver que a estatística dos jovens com as nossas origens naquela época indicava que o mais provável era morrermos cedo e sermos mais um corpo caído no asfalto. Mas conseguimos sair disso. Os caras da minha geração morreram com 28, 30 anos. Eu já estou com 39. Agradeço todo dia por isso. E agradeço ao rap.

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