O poderoso legado de 'The Joshua Tree', do U2, 30 anos depois

O poderoso legado de 'The Joshua Tree', do U2, 30 anos depois

Três décadas depois, o mundo volta a ser um lugar estranho e de futuro incerto, mas entre suas certezas está a de que o U2 se tornou uma das maiores bandas de todos os tempos

Javier Aja, EFE

09 Março 2017 | 10h50

A busca da espiritualidade e as raízes de um mundo turbulento inspiraram o U2 a criar um dos álbuns mais importantes da história da música, The Joshua Tree, cujas influências ainda são sentidas 30 anos depois.

O quinto disco do quarteto formado por Bono (Paul Hewson), The Edge (David Evans), Larry Mullen e Adam Clayton chegou ao mercado em 9 de março de 1987 com o objetivo não apenas de superar o sucesso alcançado três anos antes com The Unforgetable Fire, mas de levar aqueles jovens dublinenses na faixa dos 20 anos ao ponto mais alto do pop e do rock mundial.

Três décadas depois, o mundo volta a ser um lugar estranho e de futuro incerto, mas entre suas certezas está a de que o U2 se tornou, como queria desde The Joshua Tree, uma das maiores bandas de todos os tempos.

Numa era de dirigentes populistas e autoritários, de conflitos armados que tomam o relevo dos sofridos pelo Ulster ou pela América Latina nos anos 1980, parece justo, ainda, que o U2 feche o círculo iniciado com esse álbum lendário com uma oportuna turnê mundial para comemorar neste ano esse aniversário.

Voltarão a ser ouvidos nos próximos meses nos grandes estádios os acordes de With or Without You, primeiro single do álbum, ou da contagiante I Still Haven’t Found What I’m Looking For, que Bono suspeitava que seria arrasadora antes mesmo de terminá-la.

“Há uma, em particular, que é incrível”, disse o cantor durante uma festa na casa de The Edge em 1986 ao jornalista Niall Stokes, fundador da revista de música dublinense Hot Press e testemunha do início da banda nos bares da capital irlandesa.

I Still Haven’t... foi o segundo single da banda e chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos logo que ganhou a rua após receber forma definitiva no álbum produzido por Daniel Lanois e Brian Eno, colaboradores habituais do U2.

Para alguns especialistas de visão curta, com The Joshua Tree o U2 tentou vender a alma ao diabo para entrar no mercado americano e no lucrativo circuito da música comercial – segundo eles, com canções perfeitamente empacotadas, piscadelas à cultura americana e atrativos fáceis para as rádios.

“Não é absolutamente o caso por dois motivos”, escreveu o falecido Bill Graham na primeira crítica do álbum, em Hot Press, na qual só falhou ao não prever a magnitude do êxito comercial alcançado em todo o mundo, com venda de 25 milhões de cópias.

“Primeiro” – disse Graham –, “porque Bono nunca cantou com tanta precisão emocional; segundo, porque esse é um álbum enganador que navega no convencional e, ao mesmo tempo, repudia seus valores mais repulsivos.”

De fato, os temas impregnados de blues, folk, pop, soul e gospel são acompanhados de textos que retratam As Duas Américas – um dos títulos em que a banda pensou para o disco – e a amargura dos que viram passar ao longe o sonho do país do dólar.

Bono também não se esqueceu dos americanos do centro e do sul do continente.

Os bombardeios americanos na guerra civil de El Salvador o levaram a escrever Bullet The Blue Sky. Já a repressão no Chile refletiu-se em Mothers of the Disappeared, um tema assustador que faz pensar nos horrores da ditadura do general Augusto Pinochet, apoiada por Washington.

Sob todos os aspectos, The Joshua Tree foi, além disso, um trabalho redondo, desde a música, obra principalmente do guitarrista The Edge, e do romantismo religioso das letras de Bono, até a famosa capa em branco e preto que mostra o quarteto ante uma simbólica árvore-de-josué captada pelo fotógrafo Anton Corbijn no onírico deserto californiano.

Três décadas depois, “as canções nos parecem relevantes e proféticas dos tempos em que vivemos”, disse o carismático vocalista Bono ao anunciar em janeiro o Tour 2017.

Em suma, The Joshua Tree é um álbum “de grande generosidade moral” e “cheio de qualidades muito humanas, como dúvida e ansiedade”, afirmou Nialls Stokes em seu livro U2: The Stories Behind Every Song. Por tudo isso, diz ele, seu legado do é “poderoso, duradouro e afirmativo”, como a trilha sonora de uma história de amor de um casal nascido no bairro dublinense de Fairview ou no Clarence Hotel do U2. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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