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Daniel Teixeira| Estadão

O memorável encontro entre Bethânia e Chico Buarque

Festa da Mangueira reúne, em São Paulo, músicos que não se apresentavam juntos desde 2001; veja galeria de imagens do show

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Julio Maria,
O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2016 | 10h41

A festa da Mangueira em São Paulo começou com uma promessa: “Tenham certeza de que vocês vão ver um dos maiores shows que já passou por esta casa”, anunciou o apresentador. Chico Buarque era o maior esperado, ao lado da homenageada da escola na avenida em 2016, Maria Bethânia. 

Seguindo a mesma forma mostrada na noite anterior, no Rio, a apresentação no Tom Brasil teve uma série de convidados. Se antes a noite batizada pela agremiação carioca como Show de Verão da Mangueira era fechada, com ingressos vendidos apenas para convidados, a estratégia deste ano em São Paulo foi abrir para venda. Deu certo. Em uma tarde, eles já estavam esgotados. 

Os convidados chegavam, cantavam e apresentavam o próximo convidado. O formato clássico deu ritmo à noite. Mariene de Castro veio primeiro, cantou Mel com Toque de Iansã e A Dona do Raio e do Vento. Mas fez sua melhor entrega com Oração da Mãe Menininha e passou o palco para Tantinho da Mangueira, que deixou clara sua homenagem cantando a canção Maria Bethânia, seguida por Mora na Filosofia. Mais aplaudida foi a próxima, Mart'nália, que chegou lembrando Rita Lee com Baila Comigo. 

Com licença da Mangueira, a filha de Martinho da Vila (Isabel) lembrou Noel Rosa, mais ilustre representante da comunidade, e cantou Último Desejo. Depois, apanhou o pandeiro para fazer Sonho Meu, de Dona Ivone Lara. 

Pretinho da Serrinha subiu a temperatura com Alguém me Avisou e Maricotinha. Deixou o palco então nas mãos de Sombrinha, ex-Fundo de Quintal, que tentou levantar a plateia com Gota D’Água e Apesar de Você. 

Angela Ro Ro veio mudando o clima, falando de Maria Bethânia e cantando Gota de Sangue e Fogueira, lembrando de como Bethânia fez bem à sua carreira quando gravou está sua canção, lançada em 1984. 

Angela saiu do palco apresentando a cantora Rosemary. Aí já não era mais um show de escola de samba, e talvez não fosse essa a intenção da produção. Sua parte incluiu as românticas Eu Preciso de Você, As Canções que Você Fez Pra Mim e Fera Ferida, lembrando gravações bem radiofônicas de Bethânia. 

A portuguesa Carminho, apresentada com entusiasmo por Rosemary, cantou primeiro Andaluzia e quase emendou com Teresinha. Esta foi uma parte comovente. Ao final, a plateia se levantou para aplaudi la e fez isso por um bom tempo. Sua saída foi com Sangrando, ao lado de Alcione, a próxima convidada.

Alcione é um susto, um espanto. Pobre das cantoras que dividiram palcos com ela. Em Sangrando, apareceu no meio da música para arrebentar e engolir o canto da portuguesa. Fez depois, sozinha, Lama e Explode Coração. E, enfim, chamou Chico Buarque.

Havia numa certa expectativa pela forma como Chico seria recebido. Seria hostilizado por suas posturas políticas, como tem acontecido nas redes sociais? Não. O público de Chico não o condena por nada, apenas o reverencia. Até homens foram vistos gritando “lindo” quando Alcione o anunciou como o “guri da Mangueira”. 

De branco, cantou Anos Dourados reclamando do retorno no início. Windows de microfone baixo, ou de voz pouco segura, seguiu com Olhos nos Olhos, que não faria sentido se não fosse cantada, ali, com Maria Bethânia. E foi assim. Uma mudança de tom e Bethânia assumiu a segunda parte da canção. Um encontro memorável. 

Chico e Bethânia cantaram ainda Noite dos Mascarados. E então, Bethânia ficou só para agradecer a escola que vai cantá-la na avenida neste ano, com o enredo A Menina dos Olhos de Oyá, e encerrar com Carcará, Vento de Lá, Reconvexo e O Que é Que é. O samba de enredo da escola Mangueira fechou a noite com a bateria da escola de samba. 

Uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio, fundada em 1928, a Mangueira realiza esse show há 14 edições, para levantar recursos para seu desfile (estima-se que, com os shows, tenham entrado R$ 250 mil nos cofres verde-e-rosa). Este ano, deixou de lado exaltações à própria história e se voltou à de Bethânia. 

 

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