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Daniel Teixeira/AE

O delírio teen de girl groups e boy bands coreanos em São Paulo

Grande momento da noite aconteceu quando Hiyuna juntou-se a Hyungseung, do Beast, para cantar 'Trouble Maker'

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Roberto Nascimento ,
O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2011 | 16h53

A meticulosa execução de um espetáculo de K Pop, febre teen coreana que se alastra pela internet e tem uma crescente base de fãs no Brasil, começa pelo horário. Às 19 h em ponto as luzes são apagadas, e uma produção hollywoodiana, enciclopédica em seu uso de macetes pop, enche os olhos adolescentes. Cinco dançarinos fazem pose de estátua, enquanto imagens dos ídolos passam ao fundo. Um sound system de alto nível desfere sons de sirenes e helicópteros, inflando a ansiedade, e um jogo de luzes que nada perde para um show de Rihanna ou Britney Spears, colore a cena.

Eis que surgem as cinco moças do girl group 4minute para reproduzir seus hits. São delicadas, executam coreografias com precisão milimétrica, e trazem ao show, mesmo nos momentos mais sensuais, sobretons de inocência que há tempos não se veem no palco pop internacional. Ao vivo, quando um hit como Huh pede ombros desdenhosos e olhares de soslaio, o porte mignon das cantoras retém uma linguagem corporal constantemente feminina: as mãos nas coxas, a ondulação de quadris, são despidas da ambiguidade que estamos acostumados a ver.

Se fosse Rihanna, na equivalente S&M, por exemplo, a sedução seria feita na marra, com o auxílio de correntes e chicotes, brincando com identidade sexual, alternando-se entre caça e caçadora em questão de compassos, como faz Lady Gaga. No outro extremo, Katy Perry ou Nicki Minaj, rapper de estética multicolorida, influenciada pelo pop oriental, enfeitariam o sonho adolescente com um cor de rosa cínico, com pirulitos e sorvetes que serviriam de analogias óbvias.

Talvez a herança cultural faça as garotas do 4minute e outros girl groups de K Pop como 2NE1, ou Girls Generation (donas do contagiante Gee, hit de mais visitas no YouTube do que Edge of Glory, de Gaga) serem mais recatadas do que as divas que emulam. Possivelmente, esta não é a estratégia de gravadoras como a Cube Entertainment, que investe pesado na produção do 4minute e realizou o evento de terça, na casa de shows Espaço das Américas, com outros nomes de seu time, como G.NA e a boy band Beast. Mas o não intencional vislumbre de naturalidade em um gênero que aspira ao glamour fotoshopado do pop americano garante boa parte do appeal do K Pop.

O resto vem das próprias músicas, produzidas com um apetite voraz pela estética contemporânea do pop made in USA. Trata-se da sonoridade encabeçada por produtores como Dr. Luke (Katy Perry, Britney Spears) e RedOne (Lady Gaga): pop de pista com sintetizadores dilacerantes e texturas em curto-circuito que substituem a energia um dia projetada pela distorção, nos idos em que a guitarra ainda fazia parte da paleta de hitmakers. Embora sejam cópias (em alguns casos são feitas por próprios produtores americanos, como Knock Out, do duo GD & Top, assinada por Diplo), as músicas reproduzem a essência das americanas.

Entre outras, I My Me Mine, do 4minute, por exemplo, é cantada em coreano mas desencadeia momentos de déjà vu, como se uma tecla sap oriental fosse apertada durante a execução de uma faixa de Ke$ha. Durante um show de duas horas e meia, o alto nível dessas produções garante uma energia constante que não se viu em nenhum show pop deste ano, de Justin Bieber, no Morumbi, a Britney, no Anhembi. A plateia de K Poppers, como são conhecidos os fãs do gênero, é formada tanto de descendentes coreanos quanto de brasileiros que cantam os hits na língua oriental e que, nesta terça, vieram de outros lugares do Brasil.

Depois do 4minute, subiu ao palco a cantora G.NA, seguida pela boy band Beast, provedores de R&B romântico na veia Backstreet Boys. A sequência do show foi espertamente programada pela Cube Entertainment e os grupos de meninas e meninos se alternaram com solos feitos por integrantes das duas bandas. Hiyuna, por exemplo, faz parte do 4minute mas tem carreira solo. Lançou neste ano o açucarado Bubble Pop, uma síntese da estética K Pop, com romances adolescentes sobre uma afiada produção de dubstep. O momento de Hiyuna apimenta o show com uma dança que estica, mas não ultrapassa os limites sensuais do 4minutes.

O grande momento da noite, no entanto, aconteceu quando Hiyuna juntou-se a Hyungseung, do Beast, para cantar Trouble Maker. A faixa traz uma espertíssima produção de disco pop com uma coreografia que não se intimidou ao copiar Thriller, de Michael Jackson.

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