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O bruxo de Andaluzia

Sem ler partituras, Paco de Lucia vem mostrar a revolução que fez na música espanhola

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2013 | 02h20

Foram dezesseis anos durante os quais seu nome era lembrado por quem não se esquecia da revolução que suas mãos fizeram na música espanhola pelos anos de 60 e 70. Uma pausa de quase duas décadas que Paco de Lucia explica hoje com argumentos mais geográficos do que filosóficos. “Não toquei mais na América do Sul porque é muito longe da minha casa. Acostumei-me a fazer shows na Europa, que tem muitos países, e todos um perto do outro.” Justificativa com zero de romantismo e dez de praticidade de um homem que não só sai pouco de casa como também grava apenas quando termina de confeccionar cada nota de seus discos. Um trabalho que também pode levar uma década. Seu novo disco, por sinal, também está pronto, mas não será mostrado nos concertos do Brasil. O nome, se não mudar até dezembro, mês previsto para o lançamento, é Canción Andaluzia. “É um sonho antigo, gravado com músicas de crianças do sul da Espanha.”

Paco volta ao País que o venerou como um deus, sobretudo nos anos 80, logo depois de se unir aos também violonistas Al Di Meola e John McLaughlin para gravar três discos e fazer shows memoráveis pelo mundo. A academia o adotou como uma referência obrigatória e a classe artística, descobrindo as forças da música espanhola, o queria como parceiro. Djavan, por exemplo, gravou em 1990 um de seus grandes sucessos, Oceano, com um solo de violão de Paco que quase roubava a canção. “Djavan, para mim, é um dos grandes músicos do mundo”, diz Paco, mesmo reconhecendo que não há laços de amizade entre eles. “Mas me lembro ainda de Raphael Rabello, de Tom Jobim e de uma cantora chamada Maria Creuza, nunca vou me esquecer.”

A marca de seu violão parece um tabu. “É um velho violão espanhol, mas um violão flamenco”, diz, lembrando das distinções entre as peças do flamenco e as de concerto. E engata a resposta em mais uma de suas reflexões favoritas quando o assunto é música. “Não é o que mais importa. Nem o violão, nem as cordas. Eles são apenas um veículo para expressarmos aquilo que sentimos.” Até parece, mas seu tom não é professoral. Paco acredita no que diz.

Os dedos do bruxo se encaixaram nas cordas como se estivessem sempre ali, e ninguém em Algeciras entendeu direito de onde vinha aquilo. Seu pai, Antonio, tocava pelas noites da Andaluzia havia anos e o flamenco, mesmo já sendo uma instituição espanhola de quase dois séculos, vivia entre reconhecimentos temporários e desprezos acadêmicos. Os velhos o veneravam, os jovens o toleravam e o mundo o ignorava. Se precisava de um bruxo para evitar sua extinção, ali estava ele: Paco, filho de Lucía, oito anos, pai violonista, quatro irmãos, um rosto que nunca sorria e um par de mãos que não era daquele mundo.

Quase 60 anos depois, Paco de Lucia, 66 anos, atende ao telefone em um hotel de Lima, no Peru. Acaba de deixar os dois filhos e a mulher na Espanha para uma raríssima turnê que inclui a América do Sul depois de começar em Havana, Cuba. Sua última aventura do tipo, que o obriga a andar por cidades grandes e ver muito mais gente do que gostaria, foi há 16 anos. "Eu fico horrorizado vendo a forma como sobrecarregamos o Planeta." Ironia de um homem que espalhou o flamenco pelo mundo sem gostar muito de andar por ele.

O mito ao seu redor permanece. Afinal, como um violonista que não estudou música, não lê partituras e não sabe diferenciar escalas por nomes pode produzir uma das expressões mais sofisticadas do mundo? Quando fala sobre isso, reforça mistérios, mesmo sem querer. "Guitarristas não precisam estudar", disse certa vez, respondendo a um jornalista entorpecido por sua técnica. Ao Estado, ele explicou melhor. "Guitarristas que estudam muito podem ficar com a imaginação limitada pela teoria." Sob a perplexidade do repórter, fica mais cauteloso. "Venho de uma tradição oral. É um gênero movido pela paixão, pela loucura, mas que traz também uma sofisticação. Então, eu recomendo que os músicos novos aprendam técnica e harmonia."

Paco parece querer alertar sobre os perigos do mecanismo acadêmico na linguagem das novas gerações. "É difícil encontrar um jovem pianista cubano com o mesmo tumbao (acento rítmico) dos velhos. Fica muito perigoso quando começamos a fazer música para agradar apenas a outros músicos." E o jazz? Em sua linha de raciocínio, teria ele passado a frequentar muitas aulas de teoria musical e se distanciado do grande público? "O jazz vem do blues, o sentimento está em sua alma. É como vocês brasileiros, que têm João Gilberto, Tom Jobim. Isso fica na música para sempre."

É um sentimento que pode explicar a decisão de Paco de usar, desta vez, não o modelo de concerto, mas de festa. A formação que traz vem criar uma sonoridade cheia e reproduzir, mais do que em música, uma cultura que inclui dança e canto influenciados por ciganos e mouros, árabes e judeus. "Quis mostrar todas as facetas do flamenco tradicional." Seus shows começam pelo Rio de Janeiro (dias 2 e 8 de novembro, no Teatro Municipal), passam por Porto Alegre (dia 10, no Teatro Araújo Vianna) e chegam a São Paulo no dia 11 (Teatro Renault). Paco monta a roda clássica de flamenco trazendo para acompanhá-lo um segundo violonista, além de percussionista, baixista, gaitista, dois cantores e o bailarino Antonio Fernandez, descrito por jornalistas cubanos que viram a estreia de Havana como "protagonista de um dos melhores momentos da noite".

A plateia do teatro não vai se levantar para dançar porque a aura de Paco, por mais que a evite, ainda é a de um concertista. O flamenco tem tempos rítmicos difíceis e uma liberdade para improvisos sem limite. Músicas muitas vezes são criadas ali mesmo, em um estilo que Paco aprendeu com a velha guarda de guitarristas espanhóis. Quando quer compor, ele liga o gravador e se põe a tocar. Ouve depois o que tocou e tenta identificar em suas subidas e descidas bons temas em potencial. Ao menos por uma vez, este seu charme o colocou em apuros.

Quando o convidaram para tocar o Concierto de Aranjuez no Japão, uma difícil obra de 1939, de Joaquím Rodrigo, Paco disse sim, mas se esqueceu de colocar a data na agenda. "Quando me dei conta, só faltava um mês para o concerto." Então, para estudar, se autoexilou em uma casa de praia no litoral do México com um pentagrama com o nome das notas para saber do que se tratava aquilo, um quimono japonês e várias fitas com versões do concerto gravado. "Com a partitura, localizava as notas e, com as gravações, entendia os tempos." Os concertos saíram em LP e se tornaram mais uma prova de que o bruxo era real.

A TRAJETÓRIA DE PACO

1958

Aos 11 anos, faz sua primeira aparição pública na Rádio

Algeciras. Um ano depois, recebe com o irmão Pepe

um prêmio em uma competição de flamenco.

De 1968 a 1977

Une-se ao cantor Camarón de la Isla para uma série de LPs e shows.

Camarón passa a ser seu ídolo, a quem se refere com “um dos maiores

artistas da atualidade.” Gravam juntos nove álbuns.

1981

Junta-se aos violonistas Al Di Meola e John McLaughlin para gravar

três álbuns que se tornariam antológicos: Friday Night in San Francisco,

The Guitar Trio Passion e Grace and Fire.

2013

Volta ao Brasil 16 anos depois de sua última turnê mundial

 

PACO DE LUCIA

Teatro Renault. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista.

Dia 11, às 21 h. R$ 100/ R$ 180. www.ticketsforfun.com.br

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