Gabriela Bilo/Estadão
Gabriela Bilo/Estadão

Novo disco de Johnny Hooker fala sobre ex-amores, superação e luta contra a depressão

Em entrevista ao 'Estado', músico também falou sobre a polêmica com Ney Matogrosso: 'Ele não é incriticável'

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 06h01

Firme e forte feito um touro. A frase tatuada em letras garrafais no punho direito de Johnny Hooker traduz uma força interior do tamanho do universo. Após terminar um longo relacionamento, o pernambucano viu seu mundo desabar. Mudou-se do Rio para São Paulo para ficar mais perto dos amigos e dar início às gravações de seu segundo disco de estúdio. As coisas, entretanto, não foram fáceis. Uma depressão fortíssima abalou uma das maiores apostas da música popular brasileira dos últimos anos. 

“Quando percebi que não ia conseguir segurar a onda sozinho, me agarrei nos meus amigos. Ao mesmo tempo, veio a expressão ‘firme e forte feito um touro’, que era usada pela vovó, nascida no interior do Rio Grande do Norte. Fiz essa tatuagem com a minha própria letra. Escrevi em um papel e pedi para o tatuador fazer igualzinho. Gravei as canções em um processo muito doloroso. Não entendia direito o que estava acontecendo na minha vida. Esse novo álbum foi a salvação. A cada passo que dava para finalizar o disco, percebia que caminhava em direção à minha recuperação. Quando olhei para a foto da capa, percebi que aquele era o meu novo eu”, diz Johnny em entrevista ao Estado.

Coração, lançado no começo do mês, fala abertamente sobre a superação de Johnny Hooker. As 11 faixas do álbum mostram um músico versátil e capaz de transitar por diversos gêneros musicais. Johnny fala de relacionamentos abusivos, resistência política, preconceito sexual e sua vitória contra a depressão, uma doença feroz e aterrorizante. A morte também é pauta das músicas. A faixa Poeira de Estrelas é dedicada a David Bowie, seu maior ídolo e influência. Parte do repertório do novo trabalho de Hooker poderá ser ouvido no sábado, 26, em show na Casa Natura Musical. Os ingressos para a apresentação na zona oeste de São Paulo estão esgotados. Tanto o disco quanto o show na capital paulista saem pelo edital Natura Musical.

Uma das composições mais interessantes de Coração é sua parceria com a cantora Liniker. Em Flutua, os dois artistas fazem um dueto interessante. Inspirada em uma história de amor abertamente gay, a canção cria uma atmosfera grandiosa para falar de resistência e de um afeto que ultrapassa obstáculos. “Quando ouvi a Liniker soltando a voz pela primeira vez, sabia que tínhamos de gravar alguma coisa juntas. Aquela potência vocal me hipnotizou. Fiz o convite, ela topou e o resultado foi ótimo”, diz. A capa do single, que mostra Hooker e Liniker se beijando, gerou polêmica nas redes sociais. “Ainda vivemos num país onde dois homens se beijando ainda fazem muito barulho. Quem sabe daqui a alguns anos as pessoas possam enxergar isso com alguma normalidade. Espero bastante por isso, de verdade”, complementa Hooker.

Ney. Uma semana antes do lançamento de Coração, Hooker se envolveu em uma polêmica com o cantor Ney Matogrosso. Em sua conta oficial no Facebook, Hooker rebateu a frase de Ney em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. “É inconcebível ler a frase ‘Que gay o c***, eu sou um ser humano’ no país que mais mata LGBTs do MUNDO(!!)”. Questionado sobre a frase, Hooker minimizou a polêmica: “São só opiniões distintas. Não há uma rixa entre artistas. A frase dele me incomodou. A sociedade não vê os homossexuais como seres humanos. O Ney é genial, libertário e revolucionou o Brasil. Ele, no entanto, não é incriticável”, conclui.

 

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