Ney Matogrosso volta a se cobrir de brilhos em novo show

Cantor vi cantar Cazuza novamente com roupagem poo rock e com seu peculiar estilo teatral

Patrícia Villalba, do Estadão,

16 Outubro 2007 | 20h25

Ney Matogrosso diz que o "inclassificável" não é ele, mas o Brasil. Da letra de Inclassificáveis, de Arnaldo Antunes, ele tirou o nome e o tom do seu novo show pop rock, que estréia nesta quinta, 18,  no Citibank Hall, mas rejeita qualquer tentativa de aproximação do termo dele mesmo, de sua trajetória. Sabe que nestes mais de 30 anos de carreira, não foram poucas as tentativas de enquadrá-lo, classificá-lo, reduzi-lo, todas em vão. E que o povo brasileiro, esse inclassificável misto de "cafuzos, pardos, mamelucos, sararás, crilouros, guaranisseis e judárabes", desistiu de entendê-lo, porque quando Ney resolve subir no palco a surpresa é certa, a novidade é regra, embora o choque já seja coisa do passado.     Veja em vídeo a entrevista com Ney Matogrosso   "É como um relacionamento antigo, já nos conhecemos, já sabemos do que somos capazes. É claro que vira-e-mexe alguma pessoa pode ficar chocada, mas daí não é problema meu", provoca ele, que volta a se vestir de brilhos, meio cobra meio lagarto.   Na semana passada, Ney recebeu o Estado no seu apartamento, no Leblon. Entrevistado nada fácil, dá a impressão de que precisa ser conquistado aos poucos, o que fatalmente não acontece em uma hora de convívio. Mesmo assim, inconquistável, não deixa nenhum assunto sem resposta.   Canto em Qualquer Canto, seu último show, era você e quatro violões. Agora, em Inclassificáveis, você virá com banda e até DJ. Por que mudou tão radicalmente o formato?   Gosto de mudar, de mexer para que a coisa fique atraente para que eu possa fazer. Não é uma preocupação com o público, mas com o meu prazer de estar fazendo. E me aproximo de novo do pop rock, que é uma coisa que gosto de fazer. Surgi assim, e de vez em quando eu gosto de fazer. Daí muda tudo, banda, tudo. Montei uma banda em São Paulo, ensaiamos durante um mês e meio em São Paulo. É isso, um show pop rock, portanto com bastante liberdade de figurinos e ação.Apesar de estar me sentindo muito à vontade ali, o Canto em Qualquer Canto era um recital pop, mas me restringia. Esse, não, me dá uma maior liberdade.   Você começa uma turnê sem disco novo, que só será gravado em janeiro. Por quê?   Sim, eu não queria gravar um disco primeiro para depois fazer o show. Quando faço o contrário, tudo sempre fica melhor quando começa a turnê, mais maduro, redondo. Então, optei por isso: primeiro fazer o show algumas vezes e, depois, gravar.   Vai ser seu segundo disco ao vivo, seguido. Gosta mesmo do formato, não se incomoda com as palmas?   Não gosto nem desgosto. Por exemplo, eu gosto muito do Vivo (1999), que é um disco que gravei ao vivo. Não tenho nada contra o formato. Quando faço um disco, sempre chego numa hora em que penso "pô, não deveria ter gravado o disco antes, devia ter tido mais intimidade com o repertório". Desta vez, vou fazer São Paulo, Curitiba, Florianópolis. Depois, gravo no Rio. Até lá devo ter um entendimento melhor de tudo. Uma coisa é você ter tudo na sua cabeça, os figurinos, cenários, a banda. E outra é ter tudo funcionando. Daí é que você entende do que se trata.   Inclassificáveis, nome que vem da música composta por Arnaldo Antunes, é uma auto-referência? Inclassificável é você?   Não, é uma referência explícita a nós, brasileiros. Não é uma auto-referência a mim, mas a nós todos. Nós somos inclassificáveis.   Qual é a história dessa música inédita do Cazuza que você vai cantar neste show, de onde ela surgiu?   É Seda. Não é inédita não, porque o Lobão já gravou. Ele fez a música para um projeto que eu faria cantando só inéditas do Cazuza, mas não conseguimos o repertório inteiro e o projeto não aconteceu. Então só agora vou cantar essa música. E estou cantando outras músicas do Cazuza: abro com O Tempo não Pára, depois tem Por Que Que a Gente É assim?, Seda e encerra com Pro Dia Nascer Feliz.   Ainda há muito material inédito do Cazuza?   Sim, muitas letras. Eu achei uma agenda que ele esqueceu num sítio que eu tinha. Dei para a Lucinha (Araújo, mãe de Cazuza). Tem muita coisa escrita do Cazuza, não necessariamente letras prontas, mas muitas idéias.   Os figurinos do show são do Ocimar Versolato. O que podemos esperar, você vai voltar aos figurinos que usava nos anos 70?   Não, é hiper extravagante, mas é agora. Não é uma referência a nada que se passou. É um figurino todo novo, feito para agora.   É conhecida a maneira como as mulheres reagem ao seu nome, é sempre "ah, o Ney...". Por que acha que faz tanto sucesso entre elas?   Não sei, talvez por eu ser um homem que expressa abertamente sua sexualidade. Deve ser por isso. Não se esqueça que quando eu cheguei em 1976, isso era vetado aos homens, e eu não tenho nenhum problema com relação a isso. Acho que isso toca de alguma maneira. Mas eu nunca fiz isso voltado para ninguém, eu faço pra todo mundo. Eu me libero, apenas, não faço para homens ou mulheres. Libero pra quem queira.   Falando nos anos 70, você lembra do momento em que decidiu subir no palco de uma maneira tão extravagante? Foi um posicionamento totalmente consciente ou instinto?   Não, coisa de dentro. A primeira vez que pisei num palco foi com uma calça de cetim branca, uma grinalda de noiva, e o corpo todo pintado de purpurina. Dourada. Não se esqueça de que eu vim do teatro, fiz algumas peças que eram musicais, onde eu tinha de atuar, cantar, dançar, me caracterizar, ser vários personagens. Foi isso que eu levei para o Secos & Molhados porque eu tinha medo de perder a privacidade. Tinha ouvido dizer que artista não podia andar na rua. Então, usei um recurso teatral, inspirado do teatro cabúqui. E na medida em que eu não tinha um rosto, fui adquirindo uma liberdade física que nem eu imaginava que poderia chegar a esse ponto.   Não teve medo?   Não, senão estava frito. Tive que encarar platéias. E também os militares. Ah, sim, eles mandavam recado o tempo todo. Um dia desses me contaram de uma entrevista de um compositor que foi chamado à censura, em Brasília, e ouviu um comentário de que eu não tinha jeito, só me matando. Até essa opção existia na cabeça deles.   Naquela época você não chegou a ser ativista político, chegou?   Não, nunca fui e jamais serei. Tenho horror da política. O que eu fazia era uma política comportamental, que era diferente. E como eu não gritava "abaixo à ditadura", eles me deixaram passar.   Hoje em dia, depois de tudo, é possível um artista chocar?   Não sei. Eu não tenho mais a intenção de chocar ninguém. Mas certamente sempre haverá um desavisado. Porque só mesmo um desavisado para me ver e se chocar, né? Já é como um relacionamento antigo, já nos conhecemos, já sabemos de ambas as partes o que somos capazes. É claro que vira-e-mexe alguma pessoa pode ficar chocada, mas daí não é problema meu.   Ícone gay você nunca se sentiu? Por que nunca participou da causa de maneira mais direta?   De jeito nenhum. Seria muito conveniente para o sistema me colocar como estandarte gay, porque isso me reduziria a um estandarte gay e só. E eu não sou isso, não aceito. Inclusive o próprio movimento fica assim, diz que eu não assumo.Como eu não assumo? Eu fui a pessoa que mais deu a cara pra bater, fui a pessoa que escancarou as portas para que hoje possam viver tranqüilamente suas sexualidades. Como não? Agora, não vou pegar um estandarte e ficar com ele na minha mão.   Em geral, você acha que a imagem que a sociedade faz do homossexual é boa, melhorou?   Indiscutivelmente melhorou. Não vamos nos esquecer que São Paulo - eu jamais fui numa - tem uma... como se chama?   Parada?   É, a maior parada gay do mundo. Isso deve ter um significado no contexto. Mas quem deu a carinha pro tapa fui eu. E aí? Vão fingir que isso não aconteceu? Não tem como. Embora eu não precise ficar restrito a isso, tenho horror de gueto. Não quero viver como nos Estados Unidos. Lá você pode tudo, desde que cada um no seu cada qual. Deus me livre! Deus me livre de ir num cruzeiro gay. O que eu vou fazer num cruzeiro gay? Eu gosto da mistura, acho que a revolução é todas as diferenças convivendo em harmonia. Eu acredito nisso, não num cruzeiro gay.       Ney Matogrosso. Citibank Hall (1.450 lug.). Alameda Jamaris, 213, Moema, 6846-6040. Quinta, 18, 21h30; 6.ª e sáb., 22 h; dom., 20 h. R$ 50 a R$ 100

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