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Cultura

Ney Matogrosso

Ney Matogrosso relança seus primeiros álbuns em caixa especial

Cantor relembra os bastidores das gravações dos álbuns, lançados entre 1975 e 1980

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Renato Vieira,
O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2016 | 05h00

Ney Matogrosso sempre procurou a renovação em sua trajetória solo. De 1975 até agora, o cantor se alterna entre shows e discos ousados e sóbrios, procurando revelar novos talentos e tirando a poeira de clássicos do cancioneiro nacional. A base desse caminhar forma a caixa Ney Matogrosso - Anos 70, produzida pelo pesquisador Rodrigo Faour, incluindo seus seis primeiros álbuns, alguns deles com faixas-bônus. 

Lançados pelas gravadoras Continental e Warner, hoje fundidas, eles haviam sido reeditados no box Camaleão (2008), composta por sua discografia registrada até 1991. As matrizes originais desses discos eram dadas como perdidas, e a solução para aquela compilação foi extrair o som do vinil - caso dos três primeiros - e de edições anteriores em CD. Encontradas no ano passado, as fitas foram remasterizadas e o ganho de som é nítido, especialmente em Bandido (1976).

O cantor, que, até a conversa por telefone com o Estado, não havia escutado os álbuns da caixa, se animou com o trabalho atual. “Eu me lembro que ouvi Bandido na época e achei o som do vinil muito ruim, minha voz parecia distorcida. Espero que agora o disco esteja do jeito que tem que ser.” Cada álbum tem um texto de Faour contando bastidores das gravações e repercussão do trabalho, semelhantes aos que ele havia escrito para Camaleão.

Após a briga que dissolveu o fenômeno Secos e Molhados em agosto de 1974, Ney começou a conceber Água do Céu-Pássaro. Sua intenção era fazer um álbum repleto de conexões com a natureza, da capa concebida pelo artista plástico Rubens Gerchman às músicas ligadas por sons de rios correndo e bichos gritando. América do Sul foi o hit, gerando um clipe histórico para o Fantástico. 

Mas Água foi desprezado pela crítica. “O fato de eu ter feito um primeiro disco conceitual incomodou. Gente na imprensa que eu considerava inteligente não entendeu. O (José Ramos) Tinhorão, sempre careta, foi o que mais esculachou, dizendo que eu chorava que nem uma rameira.” Ney também teve problemas com o empresário George Ellis, que bancou o bem-sucedido show Homem de Neanderthal. Desfeita a parceria entre ambos, o cantor se juntou a Guilherme Araújo, produtor dos Doces Bárbaros para fazer Bandido. 

“Nunca tive problema em ser chamado de ex-Secos e Molhados. Mas, depois da repercussão do disco e do show, isso acabou”, diz Ney. É um álbum mais pop que o anterior, puxado por Bandido Corazón de Rita Lee. E, ao mesmo tempo, a confirmação do caminho aberto por Água. A intimidade com a língua espanhola e o continente americano (Pa-ran-pan-pan, Airecillos), saudação a ídolos da era do rádio - no caso, Carmélia Alves, com a regravação de Trepa no Coqueiro - e a coragem de gravar um nome fora dos cânones da MPB, Odair José (Cante uma Canção de Amor), são elementos que continuam a fazer parte de seu trabalho.

Depois de Pecado (1977), em que registrou músicas do show Bandido, Ney se transferiu para a Warner e foi trabalhar com o produtor Marco Mazzola, iniciando uma parceria que durou 18 anos. Feitiço (1978) fez grande sucesso e representou uma evolução estética não só para o cantor, mas também para a música brasileira. Era o início de um período em que, buscando status, a indústria fonográfica nacional começou a marcar gravações de seu elenco fora do País. Não Existe Pecado ao Sul do Equador, escrita originalmente por Chico Buarque e Ruy Guerra para o musical Calabar: o Elogio da Traição, foi registrada em Los Angeles com arranjo em ritmo de discoteca.

Ney diz que não viu necessidade de gravar nos Estados Unidos. “Sempre achei uma chatice ir para fora gravar e mixar disco. Já havia uma evolução técnica nos estúdios daqui no fim dos anos 1970. Mas Mazzola queria que eu fosse porque ele ficava inseguro de fazer algo que eu não gostasse.” O álbum termina com a regravação de Tic Tac do Meu Coração, lançada por Carmen Miranda em 1935. Foi a primeira vez que o cantor recorreu ao repertório da Pequena Notável, a quem dedicou o show e disco Batuque (2001).

Os anos 1970 iam chegando ao final e Ney adotou um estilo cool em Seu Tipo (1979). Um disco amoroso, sem deixar a sensualidade que caracteriza seu trabalho de lado. Com participações de Caetano Veloso, Dori Caymmi, Joyce e Sérgio Dias, o álbum fez o cantor ganhar seu primeiro prêmio, dado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). “Não me considero um cantor romântico, mas o disco foi para esse lado. E ganhar esse prêmio foi uma surpresa, na época eu nem me interessava por isso.” 

Para terminar a década, Ney gravou Sujeito Estranho (1980), com músicas do show Seu Tipo e produção de Guti Carvalho. Na prática, um álbum para cumprir o contrato com a Warner. Ele já estava de saída para a gravadora Ariola, da qual Mazzola era diretor artístico. 

Censura. Por sua ousadia comportamental, Ney foi alvo da censura, que interferiu no conceito gráfico dos álbuns. Bandido e Pecado tiveram as fotos de capa modificadas. A primeira mostraria o cantor segurando uma faca e foi para a parte interna. Na outra, que virou imagem da contracapa, há uma simulação de orgasmo. Escândalo maior foi o encarte de Feitiço, em que aparece nu, apenas com a genitália encoberta. “Falei com a (fotógrafa) Mariza Alvares Lima para fazermos uma brincadeira inspirada em calendários de borracharia. O disco chegou às lojas e a Mesbla, grande magazine da época, colocou a foto nas vitrines. A censura mandou lacrar o disco e as pessoas iam comprá-lo porque ficavam curiosas.”

Ney gostaria de ter registrado músicas nesse período que acabaram ficando para trás. Tristeza Militar e Vou-me Embora Pra Pasárgada, ambas de João Ricardo, compositor dos Secos e Molhados, foram proibidas. Ele não se lembra da primeira, mas a segunda era uma canção sobre o poema de Manoel Bandeira. O cantor afirma que censores não gostaram da parte que falava de “alcaloide à vontade”. “Alegaram que isso era apologia ao uso de drogas. Imagine se eu queria falar de droga, eu só queria cantar um poema de Bandeira.” 

Melhor sorte teve Tem Gente Com Fome. Desde o primeiro disco dos Secos, a música de Ricardo sob poema de Solano Trindade era submetida à avaliação e barrada. No ano da Anistia, 1979, foi liberada para gravação em Seu Tipo. Também ficou sem registro em disco Marina Marinheira, de Geraldo Vandré. Incluída no show Seu Tipo, poderia ter entrado em Sujeito Estranho. Aqui, a proibição foi do próprio autor. Ele não queria nenhum tipo de contato com gravadoras. Mas Ney aparece cantando alguns trechos no documentário Olho Nu (2012).

Projetos. Para 2016, Ney havia confirmado participação em espetáculo dirigido pela cineasta Ana Carolina. Ao lado do ator Jesuíta Barbosa, ele iria interpretar poemas de Gonçalves Dias com músicas de Carlos Gomes e Heitor Villa-Lobos. Ele decidiu parar os trabalhos. “Estou há 42 anos trabalhando sem descanso. Estou cansado, preciso ficar no vácuo para ver o que vai chegar. O projeto é lindo, mas vi que ia ser muita loucura para mim. Ele exige da minha voz uma perfeição e ela não é mais a mesma. O interesse já estava geral, havia temporadas de meses marcadas, algo que não faço há anos. Com isso e o fato de ter que cantar aquelas músicas dificílimas por todo esse tempo, achei que não iria ter condição.”

Mas ele continua com ideias. Uma delas é a de um show e disco com músicas dos chamados “malditos” da MPB. Composições de Jards Macalé, Jorge Mautner, Itamar Assumpção, entre outros, fariam parte do trabalho.

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