Mauricio Santana/Divulgação
Mauricio Santana/Divulgação

'Não queremos apelar para bandas cover ou baladas com DJs', diz dono do Hangar 110

Último reduto do hardcore em SP, lugar vai fechar as portas em 2017. Marco Alemão culpa o desinteresse dos jovens

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 07h00

18 de outubro de 1998. Naquela longínqua e abafada tarde de domingo, era inaugurada uma das casas de show mais famosas do circuito underground e alternativo de São Paulo, o Hangar 110. Soturno, o ambiente com capacidade para receber 650 pessoas tinha um bom público. A banda Gritando HC, principal atração do dia, fecharia o show. Imperpheitos, de Santos, e os então desconhecidos garotos do CPM 22 ficaram incumbidos de abrir os trabalhos do espaço recém-inaugurado na Rua Rodolfo Miranda, no bairro do Bom Retiro, na zona norte de São Paulo. Por motivos de logística e transporte, os Imperpheitos não chegaram a tempo de dar início ao espetáculo. Coube, portanto, ao CPM 22, banda que alcançaria o topo das paradas de sucesso poucos anos depois, fazer as honras da casa e colocar o som nas alturas. “Para ser sincero, não me lembro muito bem daquela tarde. A gente estava muito nervoso. Me recordo da energia vibrante, algo muito específico do Hangar”, conta Badauí, vocalista do CPM 22. Após esse estopim musical, o Hangar se tornaria o principal reduto punk/hardcore da cidade. Algo similar ao CBGB (famoso clube de country e bluegrass de Nova York). Inocentes, Replicantes, New York Dolls, Ratos de Porão, Cólera, Exploted, Dead Fish, NX Zero, Dance of Days, Garage Fuzz, Hateen, Street Bulldogs, Blind Pigs e The Toy Dolls foram algumas das bandas que passaram pelos palcos do famoso local.

No dia do aniversário de 18 anos da casa, entretanto, uma notícia chocou a todos: O Hangar 110 encerraria suas atividades em 2017. “Quando abrimos o Hangar, éramos únicos. A gente viu que tinha uma relevância na cena alternativa. Hoje a coisa está difícil e infelizmente a internet tem atrapalhado um pouco”, desabafou Marco Alemão, dono do Hangar, durante o show de comemoração da casa na semana passada. “Não há perspectiva de melhora. A garotada não quer mais vir aos shows para curtir um som, conhecer gente e falar sobre música. Eles querem, na verdade, é ouvir tudo pela internet. Isso vale para as bandas também. Tem muito grupo que não se preocupa com a sonoridade produzida, mas só com a fama. Eles contabilizam o número de curtidas no Facebook. Querem ser famosos acima de qualquer coisa”, afirma Marco Alemão em entrevista ao Estado.

Dono do estabelecimento há 18 anos, Alemão dedicou todos os seus fins de semana ao Hangar. Em 2008, durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab, o local ficou fechado por 30 dias para atender a algumas exigências de segurança. “Faltava banheiro para deficientes e porta de emergência, por exemplo. Foram algumas das raríssimas vezes que não estive aqui. No fim das contas, na verdade, acabou sendo bom para o Hangar. Depois disso, voltamos com força total e explodimos”, lembra ele. Se em 2004, melhor ano do Hangar, a casa conseguia atrair no mínimo 400 pessoas em praticamente todos os fins de semana, realizando, em média, 15 shows por mês, hoje, entretanto, o cenário é completamente diferente. Segundo Alemão, o Hangar promove ao todo seis apresentações mensais com 150 pessoas. A baixa de frequentadores da casa anda lado a lado com a decadência atual do rock, já que, analisando friamente, o último boom do gênero caminhou em paralelo à história do local. Foi justamente lá que bandas como Fresno e NX Zero – a chamada onda emocore – explodiram. “O problema também é financeiro. Antes, no auge do Hangar, conseguíamos manter uma regularidade. Hoje, vivemos uma montanha-russa. Têm meses muitos bons, mas há outros péssimos. Mas mais do que econômico, a coisa é geracional mesmo”, conclui.

Espaço paga o preço por não querer se reinventar

O Hangar 110 pretende se manter fiel ao modelo que o colocou entre as casas independentes mais famosas de São Paulo, pelo menos é o que garante o dono Marco Alemão. “O Hangar nunca teve patrocínio de ninguém. Nós sempre apostamos em bandas com repertório autoral na faixa matinê. Todas as apresentações terminam às 23h30 para que as pessoas possam usar o transporte público. Não queremos apelar para bandas cover ou baladas com DJs, como muitas casas fizeram nos últimos anos. Vamos nos manter fiel ao nosso estilo até o fim”, diz Alemão, que não sabe ainda quando o Hangar vai encerrar suas atividades. “Temos shows marcados até março do ano que vem. Não posso cravar uma data, mas a ideia é que funcione até o fim do ano”, conclui.

Casa vazia. A reportagem do Estado esteve no Hangar 110 no último domingo, 23, para assistir a um festival de bandas independentes. Vazio, cerca de 40 pessoas viram a performance das bandas Explain Away, Orgânico, Los Tres Acordes, Radiofônika e Rumo norte. “O sonho de qualquer banda de hardcore era tocar no Hangar 110. Essa é a primeira vez que nos apresentamos aqui. É muito difícil ser independente no Brasil. Sem o Hangar, vai ficar ainda mais complicado”, diz Antônio, baixista do grupo de hardcore Explain Away. “Não tem como falar sobre punk e hardcore sem citar o Hangar 110. Isso aqui é um verdadeiro santuário”, afirma Akira, vocalista do Los Tres Acordes.

O técnico de som holandês Tom Bicker, 61, trabalha no Hangar 110 desde a abertura da casa, em 1998. Com a confirmação do fechamento do local, ele ainda não sabe o que fará. “O Hangar é o meu segundo lar desde que vim para o Brasil. Já vi muita coisa acontecer aqui, desde pedidos de casamento a garotas que rasgaram as blusas e ficaram com os seios para fora. Também presenciei alguns shows históricos e monumentais. Vai ser impossível substituir esse vazio que o Hangar vai deixar. Todas as minhas lembranças no País estão atreladas a ele”, complementa o holandês.

CPM 22

Dead Fish

Fresno

NX Zero

Garage Fuzz

Dance Of Days

Hateen

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