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Morrissey lança 'World Peace is None of Your Business'

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

09 Julho 2014 | 20h 00

Este é o décimo disco solo da carreira do ex-vocal do The Smiths

Desde a última quinta-feira à disposição na internet para download (o disco físico chega no dia 15 às lojas, pela Universal), o álbum World Peace Is None of Your Business (A paz mundial não é da sua conta) é o novo trabalho do cantor britânico Morrissey, de 55 anos. Um dos grandes poetas do rock, Morrissey também tem marcado sua trajetória por ser um ativista de acentuadas contradições. Mas, em World Peace, suas contradições estão tão bem engatadas que parece manifesto de uma nova (e melodramática) contracultura.

É o 10.º disco de Morrissey - o mais recente fora Years of Refusal, de 2009. Chega justamente um ano após ele lançar suas memórias, o livro Autobiography, que se tornou um best-seller mundial. Nas 11 faixas, algumas com mais de 5 minutos de duração, ele trata de política, vegetarianismo, violência, sexualidade e ambientalismo.

Seu protesto muitas vezes é daquele tipo inocente, mas é na forma que ele é mais efetivo. "Each time you vote, you support the process/Brazil, Bahrain, Egypt, Ukraine/So many people in pain" (Cada vez que você vota, você apoia o processo/Brasil/Barein/Egito/Ucrânia/Tanta gente em agonia", brada Morrissey, na faixa-título. A canção é uma clássica peça ao estilo dos Smiths (banda na qual Morrissey fez sua lenda, entre 1982 e 1987).

New York Times
Morrissey

Há ôuôuuuuuus em toda a extensão da música. Os vocais de Morrissey estão cristalinos, e o estilo discursivo e político parece desprovido de senso poético - o que é a mais famosa armadilha de Morrissey. Trata-se, no todo, de um dos mais elaborados trabalhos literários dos últimos anos no pop rock, e cada encaixe é feito de uma construção poética em simbiose com um suporte musical.

Neal Cassady Drops Dead, a faixa mais bonita, parte de antissolos de guitarra para apoiar versos que vêm como declamações, tipo spoken words de um beatnik temporão. O tema central é o luto do poeta Allen Ginsberg ao saber da morte do também poeta Neal Cassady, seu ex-companheiro. "Neal Cassady caiu morto/E o uivo de Allen Ginsberg se tornou um grunhido." Uivo é o nome do poema mais importante da beat generation. A canção vai se "aflamencando" no final, com ênfase nas cordas de aço de um violão. Fosse só essa e Morrissey já teria batido o cartão com êxito em 2014.

Istanbul tem um som mais clássico de guitarras, e até mesmo um clima de rock setentista. I’m Not A Man tem 1min38 de introdução, iniciando com o som de um portão de ferro na sonoplastia inicial. Daí vem uma percussãozinha lânguida. A canção sugere uma paródia de Harold Arlen, uma Judy Garland às avessas. É o manifesto da própria liberação pessoal do artista. “I’m not a man/I’m something much bigger and better than/A man” (Não sou um homem/Sou algo muito maior e melhor que um homem).

Earth Is The Loneliest Planet tem um scratch bizarro, além de violão e guitarra. É um som circular, com um corinho gospel no meio, e brinca com a ambiguidade entre o protesto ambiental e a conclusão de que nasceu com o sexo errado. Staircase At The University é a que mais dignifica o estilo Smiths. Smiler With Knife teatraliza um estupro. Kick The Bride Down the Aisle tem pinta de oração pop, com teclado de catedral.

The Bullfighter Dies é daquelas contradições mencionadas. Por conta de sua militância vegetariana, ele faz uma canção que, entre outras coisas, celebra o sacrifício do toureiro. O som principia com um clarim, depois evoca um acordeão, em um tipo de folk ibérico, ligeiramente brega (nível Woody Allen de compreensão da Espanha). “Gaga in Málaga/ No mercy in Murcia/Mental in Valencia/Then someone tells you and you cheer/Hooray, hooray. The bullfighter dies” (Gaga em Málaga/Sem dó em Múrcia/Mental em Valência/Então alguém te conta e você celebra/Urra/Urra/O toureiro morre).

O disco foi produzido por Joe Chiccarelli no La Fabrique Studios em Saint-Rémy-de-Provence, França. Morrissey se faz acompanhar por um pequeno arsenal de sintetizadores, manuseado por Gustavo Manzur (teclados e percussão), colombiano de Cartagena, responsável por muito da sonoridade do disco, e pelo seu tradicional colaborador, o guitarrista Boz Boorer.

O cantor demonstra grande forma artística justo no momento em que vive um rosário de cancelamentos de shows, por conta de problemas de saúde. A turnê norte-americana de 2013 teve mais de 40 cancelamentos. Cancelou ainda shows em São Paulo, Rio e Brasília, em julho de 2013.