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Morre o maestro italiano Claudio Abbado

Regente estava com 80 anos e era um dos grandes nomes da música clássica

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2014 | 08h04

O maestro italiano Claudio Abbado, que morreu nesta segunda-feira, 20, aos 80 anos, após anos de luta contra um câncer no estômago, foi o que mais perto o mundo da música clássica chegou, na última década, de uma unanimidade. Após dirigir alguns dos mais importantes grupos do circuito da música clássica - o Scala de Milão, a Ópera de Viena, a Filarmônica de Berlim -, passou os últimos anos à frente de conjuntos de jovens músicos e, em Lucerna, criou uma orquestra formada pelos principais solistas europeus e norte-americanos, um dream team da música clássica internacional. Com eles, correu a Europa em turnês e realizou gravações celebradas por público e crítica. Em especial, uma integral das sinfonias de Gustav Mahler que fez dele, acima de rivalidades e gostos pessoais, o maior maestro da atualidade.

Abbado nasceu em Milão, em 1933. Seu pai era violinista e professor do Conservatório Giuseppe Verdi. E ele iniciaria os estudos de música, aos 8 anos, justamente com o violino. Anos depois, afirmaria que, após assistir nos anos 40 a uma apresentação dos noturnos de Debussy com a orquestra do Scala, resolveria se dedicar à regência. Foi colega de Zubin Mehta e Daniel Barenboim na Academia Chigiana, em Siena, na Itália - e, com Mehta, partiria para aulas com Hans Swarowski, em Viena, e para os cursos de verão da Sinfônica de Boston em Tanglewood, nos EUA, onde os dois foram alunos do brasileiro Eleazar de Carvalho.

No início dos anos 60, a carreira deslancharia. Ganhou um concurso que lhe renderia um ano como assistente de Leonard Bernstein na Filarmônica de Nova York; dois anos depois, em 1965, chamaria atenção de Herbert Von Karajan durante um concerto em Berlim e receberia dele o convite para, em 1966, fazer sua estreia com a filarmônica na capital alemã e no Festival de Salzburgo.

Em 1968, assumiu o Scala de Milão, onde passou quase 20 anos como diretor musical e ampliou o repertório da casa - não apenas abriu espaço para obras do século 20, que em muitos casos subiam ali pela primeira vez ao palco italiano, como foi fundamental no processo de resgate de óperas de Rossini e Verdi deixadas de lado, como "Il Viaggio a Reims" ou "Don Carlo". Ele nunca se definiu com um comunista - sua ligação com o partido na Itália, disse em uma entrevista, era o caminho para que pudesse lutar contra o fascismo. Ainda assim, seu período no Scala foi marcado pela tentativa de aproximar o teatro de todas as camadas da sociedade italiana, em especial a classe operária.

Nos anos 80, acumulou o posto no Scala com o de diretor da Orquestra Sinfônica de Londres. Na Inglaterra, porém, ficaria apenas quatro temporadas, de 1983 a 1986, e de lá partiria para Viena, onde se tornou generealmusikdirektor. Na capital austríaca, criou o Wien Modern, festival dedicado à música contemporânea e, à frente da Staatsoper, continuou de certa forma o trabalho iniciado na Itália, fazendo conviver novas obras com leituras que ajudaram a redescobrir o grande repertório, completando uma lista de gravações de compositores como Verdi e Mozart que até hoje segue como referência incontornável. 

Em 1982, foi cotado para substituir Georg Solti à frente da Sinfônica de Chicago, mas acabaria por se tornar principal regente convidado. Em 1989, a imprensa americana o colocava como nome certo para assumir a Filarmônica de Nova York. Mas, com a morte de Herbert Von Karajan, ele receberia - e aceitaria - o convite para o posto de diretor da Filarmônica de Berlim.  Em certo sentido, foi a grande prova da carreira de Abbado. Como substituir Karajan, que reinara absoluto na cidade e na orquestra por mais de três décadas? Abbado ofereceu ao grupo algo que faltou a Karajan, em especial no fim da carreira: uma preocupação estilística atenta às recentes correntes de pesquisa. E, com isso, não apenas redefiniu a sonoridade do grupo no repertório francês e moderno, como fez de seu ciclo dedicado às sinfonias de Beethoven símbolo de sua contribuição à história da filarmônica e base para o que as sinfônicas tradicionais fariam com esse repertório dali em diante.

A saída de Berlim não se deu livre de incidentes. Em 2000, o grupo fez uma turnê latino-americana e, na bagagem, trouxe rumores de que a relação entre músicos e maestro havia se deteriorado, em especial porque Abbado tinha restrições com relação a escolhas de repertório do grupo e à decisão de participar de eventos como shows de rock, que a direção da orquestra via como caminho para buscar novas plateias. Na ocasião, em conversa com o Estado, em Buenos Aires, pouco antes de embarcar para o Brasil, Abbado não quis entrar em detalhes, dizendo apenas que saía da orquestra com a convicção de ter proposto um novo caminho para os músicos. "É como na vida: sempre há a sensação de que teria sido possível fazer mais, mas este não é um caminho que se faz sozinho."

A saída de Berlim também coincidiu com a descoberta de um câncer no estômago. Muitos previram o fim da carreira do maestro. Mas o mundo musical assistiria ao renascimento de Abbado. Ele nunca mais aceitaria um posto à frente de orquestras. No lugar, passou a se dedicar a grupos criados por ele ao longo da carreira. Viajou o mundo com a Mahler Chamber Orchestra, formada por músicos que, nos anos 70, haviam integrado a Orquestra Jovem Gustav Mahler, também criada por ele - e que até hoje reivindica o posto de um dos principais conjuntos de iniciantes do mundo. Mais: no Festival de Lucerna, criou uma sinfônica integrada pelos principais solistas europeus e norte-americanos. Em Bolonha, criou a Orquestra Mozart e com ela se dedicou a gravações de obras do compositor. Há alguns anos, a pianista Maria João Pires contou ao Estado que havia sido procurada por Abbado para uma nova gravação. Queria registrar Chopin, talvez Beethoven. Mas o maestro lhe pediu que preparasse dois concertos para piano de Mozart. "Não era o que eu tinha em mente, de forma alguma. Mas Abbado pede algo a você e não há como recusar. Se ele acha que é hora de eu gravar esses concertos, é porque talvez veja algo que eu ainda não vejo. Então, não há o que pensar: você simplesmente diz sim."

O comentário da pianista serve de testemunho do respeito conquistado pelo maestro no meio musical. Mesmo em Berlim, os poucos concertos que fez com a filarmônica após deixar a direção da orquestra, seriam concorridíssimos, com ingressos esgotados com mais de um ano de antecedência e enormes listas de espera. A fama e as condecorações - ele se tornou senador vitalício na Itália em agosto do ano passado -, no entanto, não foram suficientes para que se evitasse, há duas semanas, que a falta de verbas levasse à interrupção das atividades da Orquestra Mozart. Deve ter sido um golpe duro para seu maestro e criador.

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