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Morre o maestro e compositor Gilberto Mendes, aos 93 anos

Músico morreu em Santos nesta sexta-feira, 1

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João Marcos Coelho,
ESPECIAL PARA O ESTADO

01 Janeiro 2016 | 20h21

(Atualizado às 21h32) Morreu nesta sexta-feira, 1, o compositor Gilberto Mendes, em Santos, às 18 horas. Encarnou como nenhum outro a persona do militante da música nova no Brasil e foi um dos maiores criadores e pensadores da música contemporânea no País. Ele estava internado em uma unidade de terapia intensiva na cidade desde a véspera do Natal, quando uma crise da asma que o acompanhou a vida inteira agravou-se com problemas coronarianos. O velório ocorre no Cemitério Vertical Memorial de Santos (entre o Estádio da Vila Belmiro e a Santa Casa). O corpo será cremado no sábado, 2, no mesmo local.

Gilberto estava com 93 anos, mas parecia imortal. Já no hospital, lamentou a morte do maestro Kurt Masur. Contabilizando apenas os últimos 30 dias, compôs a canção Saudade sobre poema de seu grande amigo, o poeta Flavio Viegas Amoreira; deu os últimos retoques nos originais de um novo livro, intitulado Adeus de um ex-camarada, sobre sua militância no Partido Comunista nas décadas de 40, 50 e 60; e colocou na pauta as primeiras notas de uma releitura do clássico popular Lábios que beijei, imortalizado por Orlando Silva. Fanático por cinema, participou de três filmes nos últimos dois anos; seu filho Carlos fez com ele 90 vezes 90, uma série de depoimentos disponíveis no YouTube que são a melhor porta de entrada para quem quiser saber por que Gilberto Mendes é tão decisivo e fundamental para a cultura brasileira quanto qualquer outro grande nome das artes plásticas, da literatura, do teatro e do cinema. 

Reler Orlando Silva foi só sua última ousadia cronológica. Uma das mais geniais foi Santos Futebol Music, estreada nos anos 1960 pelo maestro Eleazar de Carvalho num festival de música contemporânea em Varsóvia. Bem a seu estilo inclusivo, libertário. Provavelmente ninguém praticou mais o mote “é proibido proibir” do que Mendes ao longo de uma longa vida e uma arte igualmente longa, parafraseando o provérbio. Em seu caso, a vida e a música são igualmente decisivas para o nosso tempo. Ele alterou radicalmente a face da música nova, da música contemporânea, com seu provocativo Festival de Música Nova de Santos, cuja primeira edição ocorreu em 1962. No ano seguinte, foi um dos que conceberam e assinaram o Manifesto Música Nova, publicada na revista Invenção, ao lado de Willy Corrêa de Oliveira e Julio Medaglia, entre outros. Se durante a década de 60 conquistou prestígio internacional com composições nascidas do convívio com os poetas concretos paulistas (os irmãos Campos e Décio Pignatari), nas décadas de 70 e 80 praticou a chamada música politicamente engajada, com peças como Vila Socó, Meu Amor, favela de Cubatão destruída por um incêndio. 

É impossível sintetizar tudo que Gilberto Mendes produziu em seus mágicos 93 anos de vida. Além da USP, onde se aposentou como professor de composição, passou sua última década apaixonado pela literatura. Estreou como ficcionista em 2013, com o romance Danielle. 

Vão fazer falta reflexões como esta: “Não é a música que nascemorre, se desenvolve por si mesma. É o homem que conduz seu desenvolvimento. Muda o homem, muda a música. Homem novo, música nova, diria Gramsci. A música dominante será sempre aquela de quem tiver mais força para emplacá-la. A luta de sempre, com a vitória do mais forte. Com a morte de Stockhausen, Nono, Berio, o Boulez já bem velho, a ‘Neue Musik’ vai enfraquecendo, e novos compositores farão a música clássica futura. A que eles quiserem. Mas sempre a serviço de uma classe”.

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