An Brignol/Divulgação
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Moacyr Luz lança álbum que eleva o Samba do Trabalhador à condição de celeiro

O lançamento será neste sábado, 9, a partir das 13h, em uma roda típica no bar Pirajá, com entrada franca

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2015 | 05h00

Há uma força nas rodas de Moacyr Luz que ele mesmo custa a entender. Elas começaram há dez anos no Rio de Janeiro, à sombra de uma caramboleira do Clube Renascença, em Andaraí. Uma mesa, poucas cadeiras e nenhuma estrutura de som para tudo ser feito na voz e na palma da mão. O dia era segunda-feira, quando os músicos em geral têm menos compromissos, e as expectativas eram alguma coisa perto de zero. Os amigos foram chegando, os sambas foram nascendo e uma história começou a ser escrita sem que ninguém soubesse que era personagem.

O Samba do Trabalhador, depois de chegar este ano a São Paulo, na casa Traço de União, lança o terceiro disco dos sambas cultivados na roda desde sua origem. Moacyr Luz & Samba do Trabalhador – 10 Anos & Outros Sambas eleva definitivamente o projeto liderado por Moacyr Luz ao departamento dos grandes celeiros. São 12 sambas, 9 deles inéditos e 11 tendo Moacyr como coautor. O lançamento será neste sábado, 9, a partir das 13h, em uma roda típica no bar Pirajá, com entrada franca.

São sambas de roda que não sugerem novas receitas e que, talvez por isso, soem como se já estivessem vivos há décadas. Muitos deles nasceram rápido, na velocidade da emoção que Moacyr e seus parceiros sentiam no momento da criação. Uma noite, Sereno, do Fundo de Quintal, ligou às lágrimas para Moacyr falando quanto de suas vidas esses homens deviam a Dona Ivone Lara. “Ele estava triste com a situação, com as ingratidões da idade de Dona Ivone. Eu quis então fazer um samba ali mesmo para não perder aquela energia”, diz ainda Moacyr.

E assim fez Joia Rara, declarando Dona Ivone como a primeira-dama e declarando-se “seu jardineiro”. Rildo Hora entrou com frases de sua gaita para reforçar as ideias do contracanto que a sambista tanto usa.

Há um ativismo em outro partido-alto de destaque, feito com as sempre frutíferas indignações de Ney Lopes, chamado Na Vaselina. Uma letra criada há anos que parece saída das páginas do jornal de ontem. “Pode reparar: hoje a brabeza ficou tanta que até Xangri-lá tem bala traçante e fuzil Agaká.”

Toninho Gerais, sócio de carteira do Samba do Trabalhador, comparece com Toda Hora, uma crônica do boêmio que lembra nunca ter feito amigos bebendo leite nem tomando chá. E o jovem acordeonista Bebê Kramer coloca seu instrumento incomum neste universo em Camarão Vegê.

“Mas tem um que me fez chorar”, conta Moacyr. Trata-se de A Reza do Samba, uma homenagem direta à própria roda. “Falar dos patuás do meu cordão, das minhas crenças, foi algo que me emocionou.”

Não havia crença alguma quando Moacyr Luz se sentou pela primeira vez na roda do Clube Renascença. Sem projeto nem estratégia para que aquele se tornasse em pouco tempo um dos territórios mais democráticos no samba, unindo turistas a cariocas das zonas norte e sul, ao contrário das casas com público-alvo específico, os caminhos foram se abrindo graças a uma divulgação feita exclusivamente no boca a boca.

“Já demos entrevistas para, seguramente, mais de 30 documentários”, afirma Moacyr. Das equipes de produtores que passaram para tentar entender o fenômeno que ocorre nas noites de segunda do Renascença, ele se lembra de já ter dado depoimentos para japoneses, italianos, franceses, norte-americanos e argentinos. “Especiais, documentários, teses de mestrado, tem de tudo.”

Mais do que um sintoma de comportamento, a roda é intrigante por ser artística e quase economicamente autossustentável. Ou seja: ela mesma produz boa parte das músicas que consome, no caminho contrário dos encontros que apostam no samba histórico dos anos 40, 50 ou nos clássicos mais atuais. Joia Rara e A Reza do Samba, por exemplo, são cantadas de igual para igual com os antigos.

Sem grande divulgação fora do circuito da própria roda, os músicos fazem a doutrinação de seu público. Mesmo em São Paulo, há sambas que só conhece quem frequenta. Moacyr, 57 anos, mais de 200 composições gravadas, toma uma vez por semana com seus músicos o caminho da ponte aérea por puro espírito de militância. “A gente banca tudo, viagem, hotel, comemos na rua. Só colocamos dinheiro do bolso uma única vez, mas está melhorando”, diz, sobre suas vindas ao Traço de União. Ele adianta que o dia do Samba do Trabalhador paulistano deve migrar, em junho, de terça para quinta-feira.

Discografia na roda

Ao chegar ao terceiro disco, o projeto se estabelece como marca. Em 2005, o primeiro trouxe nomes como Luiz Carlos da Vila e Toninho Gerais. Em 2012, o segundo veio com a inédita ‘Estranhou o Quê?’

MOACYR LUZ

Pirajá. Shopping Morumbi. Avenida Brigadeiro Faria Lima, 64, Pinheiros, tel. 3815-6881.

Hoje, às 13 h. Grátis. 

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