Lino Silva
Lino Silva

Mimo Festival chega a São Paulo e anuncia parceria com Gig Nova

Depois de 15 anos sendo realizada em várias cidades do País, mostra será em novembro; projeto do Estadão passa a fazer parte da programação em todas as temporadas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2018 | 06h00

Um dos maiores festivais de música no País, que desde 2003 percorre cinco cidades por ano – quatro no Brasil e uma ao norte de Portugal – chega a São Paulo. O Festival Mimo anuncia que procura seguir por aqui a marca que o diferencia dos demais, trazendo sons criados em cantos do mundo que raramente chegam ao Brasil, usando o patrimônio histórico religioso e procurando transformar-se em uma experiência não apenas musical.

Os shows em São Paulo serão em 19 e 20 de novembro. Vão apresentar-se em local ainda não definido nomes como o guitarrista de jazz britânico John McLaughlin com sua 4th Dimension; a cantora de voz singular e espírito rock and roll da Mauritânia, no oeste da África, Noura Mint Seymali; o grupo de hip-hop da Palestina 47 Soul, espetacular formação de palestinos e jordanianos que misturam eletrônico com a tradição árabe; e o grupo de blues do Mali Songhoy Blues, um hard blues arrebatador feito por homens que deixaram sua casas ao norte do país e migraram para a capital, Bamako, para não serem mortos em meio à guerra civil na região.

Uma das novidades que serão anunciadas em uma festa na noite desta terça, 10, na casa de shows Blue Note, no Rio, será a presença do Gig Nova, um projeto de valorização da música instrumental feito pelo Estadão, na programação da Mimo em todas as cidades (leia mais abaixo). As outras datas e cidades que vão sediar os shows são Amarante (norte de Portugal), de 20 a 22 de julho; Paraty (28 a 30 de setembro); Rio de Janeiro (15 a 17 de novembro) e Olinda (23 a 25 de novembro).

Quinze anos depois de sua criação em uma espécie de contramão do caminho convencional dos grandes festivais – parte de Olinda com o foco em música instrumental (Mimo, Mostra Instrumental de Música de Olinda, o nome ficaria para sempre) e vai conquistando mais tarde as cidades do sudeste – o festival apresenta seu histórico. Suas plateias em praças públicas, mosteiros e igrejas receberam 1,4 milhão de pessoas que viram 434 shows feitos por 3.340 músicos. Um festival de cinema paralelo, dirigido por Rejane Zilles, cresceu e ganhou relevância com os anos, apostando em uma programação de filmes, muitos inéditos, que soma 287 exibições. A chamada Etapa Educativa, com aulas e conversas entre os músicos e as plateias de estudantes e interessados, rendeu 355 workshops para 22 mil alunos. Um prêmio criado para apontar os melhores instrumentistas da nova geração atraiu 1.056 inscritos e consagrou 16 vencedores. 

A produtora carioca Lu Araújo, criadora do festival, que assume a curadoria identificando as atrações, responde sobre o fato de ter começado tudo fora do eixo tradicional. “A única coisa que eu tinha certeza é de que queria fazer um projeto diferente, em que pudesse expor as minhas ideias artísticas. Eu precisava fazer circular por outras terras aquelas novas ideias que surgiam na minha cabeça, com intuito de somar, acrescentar ao outro e criar novas experiências.”

Lu inverteu de novo a lógica dos festivais e, em 2015, levou a Mimo para terras portuguesas. Para surpresa dos próprios jornalistas e empresários lusitanos, ela apostou na pequena cidade de Amarante, ao norte do país, onde vivem 57 mil pessoas. No primeiro ano, o público foi estimado em 24 mil pessoas. Na segunda edição, em 2016, eram 60 mil. Em 2017, Amarante, sem histórico anterior de grandes projetos culturais, foi eleita pela Unesco a cidade criativa da música e a Mimo, premiada pela qualidade de sua infraestrutura. Lu Araújo diz que o conceito foi o que moveu o projeto. “Para compreender isso é preciso viver o que chamamos de ‘experiência Mimo’, frequentá-lo, ouvir as novidades...”

O Estado cobriu algumas das edições da Mimo durante esses 15 anos. Em 2012, na Igreja do Seminário, em Olinda, o pianista Chucho Valdés e a cantora portuguesa Maria João promoveram uma santería (o candomblé dos cubanos) diante de uma plateia com muitas freiras que aplaudiam efusivas em seus bancos de igreja sem saber que estavam diante de um comovente sincretismo religioso contrabandeado pela música. Em 2014, em outro espaço sagrado, o gaitista de fole escocês James Duncan Mackenzie fez soar pela igreja um som hipnotizante do novo folk europeu. Em 2017, o lendário violinista francês Didier Lockwood realizou um de seus últimos shows na catedral de Paraty (ele morreu poucos meses depois, em fevereiro de 2018). 

Gig Nova passa a fazer parte da programação do festival

O projeto Gig Nova, criado pelo Estado, foi convidado pelo Festival Mimo para fazer parte de sua programação de 2018. Em cada uma das cidades, Amarante, em Portugal; Olinda; Paraty (RJ), Rio e São Paulo, a mostra estará presente, levando o espírito das gigs que já acontecem de dois em dois meses na casa de shows Tupi or Not Tupi, na Vila Madalena, em São Paulo.

Em quatro edições, o Gig Nova atraiu as atenções para mais de 60 músicos atuantes em São Paulo, dando a eles espaço de mídia e os levando para o palco. O jornal identifica os destaques da nova geração e forma os grupos, investindo no ineditismo. O acordeonista Mestrinho, o trompetista Rubinho Antunes, a baixista Ana Karina Sebastião, o pianista Hércules Gomes e o baixista Thiago Espírito Santo foram alguns dos nomes que passaram pelo projeto.

A Mimo terá então uma formação de “time dos sonhos” em suas temporadas, com os melhores dos melhores que passaram pelo palco do Tupi. Além de levar a chamada Super Gig para o festival, o jornal fará ainda uma ou duas gigs locais, com músicos que trabalham na cidade e na região.

A noite desta terça, 10, terá o anúncio oficial da parceria Mimo/Gig Nova feita pela produtora Lu Araújo. A seu pedido, o jornalista Julio Maria, do Estado, com produção executiva de Debora Venturini, criou duas gigs para se apresentarem na casa de shows Blue Note, na Lagoa. Será a primeira gig misturando músicos do Rio e de São Paulo.

A noite, que será fechada para convidados, vai ter na abertura o pianista pernambucano Amaro Freitas, vencedor do mais recente prêmio Mimo Instrumental e uma revelação em seu instrumento. A seguir, a primeira gig sobe assim ao palco: o pianista Salomão Soares, o gaitista Gabriel Grossi; o baterista Serginho Machado e a baixista russa, que vive no Rio, Marfa Kourakina.

A expectativa é grande para saber o que sairá dessas mãos. Marfa tem pegada groveada, cheia de suingue. Machado e Gabriel são curingas especialistas em potencializar o que o grupo trouxer de peculiaridades. Machado é um dos cinco melhores bateristas de seu tempo. Gabriel, o melhor gaitista em atividade. Salomão é um incendiário.

A gig 2, em seguida, terá, de São Paulo, o pianista Leandro Cabral e o baixista Glécio Nascimento. Do Rio, o guitarrista André Siqueira e o baterista Rafael Barata. Mais conteúdo explosivo. Siqueira pode puxar para a linguagem do fusion quando Cabral, mais jazz, lhe entregar os solos. Barata, um dos maiores do Rio, vai ter a seu lado o baixo poderoso do santista Glécio, cheio de vigor e mais suingue. 

A espécie de degustação servirá como um esquenta para as edições da Mimo. Em São Paulo, o projeto Gig Nova volta aos palcos da casa Tupi or not Tupi no dia 25 de maio. 

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