OLIVER ECLIPSE
OLIVER ECLIPSE

Midnight Oil, depois de hiato de 15 anos, volta a lutar por um mundo melhor e toca em São Paulo

Banda se apresenta neste sábado, 29, no Espaço das Américas

Entrevista com

PETER GARRETT

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2017 | 03h00

 De 2004 a 2013, Peter Garrett tentou mudar o mundo de uma forma que não fosse pelas suas canções com o Midnight Oil, banda australiana de inclinações para discursos políticos e preocupações ambientais que desfrutou de sucesso durante as décadas de 1980 e 1990 – as rádios brasileiras não cansavam de tocar clássicos dos discos Diesel and Dust (1987) e Blue Sky Mining (1990). 

Deixou o posto de vocalista, tornou-se político em Sydney, na Austrália. Formado em direito, Garrett conheceu por dentro o ambiente que, por vezes, criticou quando roqueiro. Há quatro anos, não exerce mais nenhuma função política, mas tampouco se imaginava na música – pelo menos, não com o The Oils, como os fãs chamam a banda. Lançou-se como artista solo, com o álbum A Version of Now, no ano passado, e percebeu que ainda havia espaço para a antiga banda na sua vida. Ainda no ano passado, voltou a se encontrar com os companheiros de banda Rob Hirst (bateria), Jim Moginie (guitarra e teclado) Martin Rotsey (guitarra), Bones Hillman (baixo). 

Em um hiato desde 2002, a banda voltou à ativa com a promessa de relançamento de todos os discos remasterizados, mais de 150 horas de material inédito a ser lançado e, quem sabe, um álbum de inéditas. Ah, o grupo incluiu nos planos uma turnê mundial que tem o Brasil como uma de suas primeiras paradas. Garrett e companhia já estão no País e, neste sábado, 29, eles se apresentam no Espaço das Américas. 

Dos tempos de político, o roqueiro manteve alguns hábitos, como de acordar cedo. Eram 7h20, na Austrália, quando atendeu ao Estado para falar sobre os novos planos do retorno da banda, turnê brasileira e, principalmente, sobre o sentimento de perceber que suas canções criadas há mais de três décadas, como Beds Are Buring, de 1987, são dolorosamente atuais. 

Na música em questão, por exemplo, ele aponta o dedo para quem dorme tranquilo quando o mundo está em chamas: “Como dançamos se o mundo está mudando? Como dormimos se as camas estão em chamas?”, perguntava Garrett. Trinta anos depois, é hora de responder à pergunta com uma outra: Afinal, dormimos demais? Leia a seguir a entrevista: 

Pelo que eu vi, são pouco mais de 7h aí na Austrália. Acordar cedo é algo que você aprendeu na política ou você leva o trecho de Beds Are Burning literalmente a sério? 

(Risos). Sabe, estou vivendo essa mudança de rotina. Quando terminei meus mandatos, percebi que gosto de acordar cedo. Quando era ativista, comecei a levantar nas primeiras horas da manhã. No tempo em que estive no Parlamento, mantive isso. Agora, vivo assim. 

E como tem sido a vida de alguém que tem somente um emprego agora? 

Vou ser honesto com você. Quando saí da política, não me imaginava voltar diretamente para a música. Imaginei que faria outras coisas, um pouco de música, talvez. Percebi, depois, que o que eu sentia pela música era muito forte e não havia espaço para que isso pudesse sair de mim. Fiquei surpreso ao perceber que queria voltar a gravar canções. 

E como o Midnight Oil entrou nessa jogada?  

Vivemos todos em Sydney, na mesma cidade. O restante da banda continuou fazendo música. Nos encontramos com frequência. E as pessoas aqui sempre nos perguntavam quando iríamos voltar a fazer música. Um dia, a luz veio. Pensamos que era hora. 

Você, em compensação, estava afastado da música.  

Sempre tive muito para fazer. Mas o mais animador foi que chegamos ao estúdio para tocar. Foi surpreendente ouvir como estávamos soando. Era muito forte. Entendemos que a volta era necessária. Havia muita energia ali. 

Antes de voltar com o Oil, você lançou um projeto solo. Qual é a importância desse disco para o retorno da banda?  

Reuni algumas coisas antigas, outras que escrevia no meio da madrugada. Era um disco que não esperava fazer, mas as coisas foram acontecendo. Fiz uma turnê e isso me aqueceu. Foi uma ótima forma de aquecer para voltar ao Oil. 

Entendo. São 15 anos distante da banda. 

Sabe, eu não percebi o tempo passar. Ele simplesmente vai passando e você vai vivendo. 

Por falar em tempo, algumas das canções do Oil soam atuais. Para citar Beds Are Burning, eu pergunto: dormimos demais? 

É frustrante e nos deixa incomodados ver o mundo como é hoje. Algumas coisas melhoraram, outras pioraram. Mas nós vamos continuar falando dessas coisas. 

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