'Meus Quintais', o novo CD de Maria Bethânia, chega às lojas

Disco é o primeiro trabalho depois da morte de Dona Canô, em dezembro de 2012

Flavia Guerra , O Estado de S.Paulo

10 Junho 2014 | 02h00

“Este disco, como brinco com os amigos, é para se ouvir quando se está estressado. Para acalmar e nos aproximar da terra.” Assim Maria Bethânia falou sobre Meus Quintais, seu novo disco, que chega nesta terça-feira, 10, às lojas. Produzido pela Biscoito Fino, é o primeiro inédito de Bethânia desde a morte de Dona Canô, em dezembro de 2012. “Mas ela está presente em tudo. Sempre esteve e estará. No meu afeto, na minha memória. Em tudo que aprendo, recordo ou associo algum ensinamento dela. Na dor, na alegria. Ela é muito presente.”

Em conversa com o Estado, Bethânia conversou sobre suas inspirações e comentou as faixas que compõem Meus Quintais

Lua Bonita, que fez parte da seresta de Dona Canô, e Mãe Maria são homenagens diretas à sua mãe? 

Lua Bonita (de Zé Martins e Zé do Norte) é uma homenagem a minhã mãe. Minha casa onde me criei é muito forte. É minha base. Eu sou como a menina em cima da árvore no quintal. Ali era cada um por si e Deus por todos. É disso que vem os detalhes do encarte, do meu quintal, do meu mundo. Sim. Mãe Maria sou eu já. O cabelo branco do encarte do CD é meu. Já posso ser a Mãe Maria. Este disco é bom porque eu posso ser tudo em todas as canções. Posso ser Uma Iara (composta por Adriana Calcanhotto, com trecho de texto Uma Perigosa Yara, de Clarice Lispector, adaptado por Bethânia e Fauzi Arap), posso ser a Onça, caboclo, mulato, a velha índia.

O encarte deste novo CD tem fotos de vários entalhes feitos por você, flagrados no seu quintal de casa. Sempre gostou de esculpir, entalhar? 

Sim. Sempre fui boa com trabalhos manuais. Na escola, adorava bordado, pintura. E eu tinha um tio que era dono de um alambique. Ele era calado, ficava sempre em seu escritório entalhando objetos. Um dia me deu um candeeiro lindo, de cobre. E eu pedi a ele que me ensinasse a fazer. Desde então, nunca mais parei de trabalhar com o cobre. O canto do meu quarto de menina, onde dormíamos em cinco, era um escândalo. Além de recortes de tudo na parede, ao pé da cama, coloquei um engradado de bebida e botei ao pé da minha cama. Lá tinha minhas ferramentas. Tudo pequenininho. Eu chamava aquilo de minha oficina. Meu pai não entendia porque eu guardava aquilo no meu quarto. Mas era porque ali era meu lugar. Eu fazia minhas roupas, meus sapatos, minhas pulseiras. Brinco que era muito esquisita e só estou piorando. Cada dia que passa, a onça ameaça passar a frente. 

Há esta brincadeira entre você e a onça, não? Se incomoda de ser chamada de Dona Onça?

Pelo contrário. Adoro. Na porta do meu quarto há onças de tudo quando é jeito e está escrito: 'Lá vem a onça!' Há uma onça no encarte também. É nova. Eu gosto da simbologia da força da onça! Não é nem a preta, mas a pintada.

Por falar em simbologia, Meus Quintais traz a Moda da Onça, que também homenageia o sertanejo, o homem da terra. 

Sim! Em homenagem também a Paulo Vanzolini, que a revelou. Uma canção folclórica, do povo. Esta música é o nosso chão. O Brasil é uma beleza. O brasileiro, quando deixa a sensibilidade absorver, vai ter sempre uma relação forte com a terra. Este disco, como brinco com os amigos, é para se ouvir quando se está estressado. Para acalmar e nos aproximar da terra. É apaixonante. Eu mesma, tenho uma vida corrida, vigiada. E Meus Quintais é o contrário. É para ficar com Deus. 

É por isso que a canção que  abre o CD é Alguma Voz (de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro)?

Sim. É a voz do vento, a voz do mar. A segunda é Xavante (de Chico César). O Chico está morando na terra dele. E isso tem influenciado de forma muito forte seu trabalho. É muito bonito. Arco da Velha Índia, que ele fez para mim, é uma das letras mais lindas que já me deram. E eu a dedico a Rita Lee. Porque acho que ela é uma velha índia sábia, de cabelos ruivos.

A propósito, é Dindi (de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira) que encerra, como faixa extra, Meus Quintais. Apesar de urbana, canta o vento? Por que logo uma canção urbana? 

Dindi é uma música mágica. Já foi tocada e cantada de todas as maneiras. Tão belas. E fala de tudo isso que falo em Meus Quintais. Só que de uma maneira urbana. E mesmo assim, a natureza está ali. As folhas, o rio que passa. Fora isso tem um desejo meu, pessoal, de cantar esta canção.

Em Uma Iara (de Adriana Calcanhotto) há a sua relação com a obra de Clarice Lispector. Mais uma vez, um grande autor influencia sua música. 

Sim. É uma letra linda da Adriana. E é também meu último trabalho de Fauzi Arap. Minha relação com Clarice Lispector é forte. Não me separo do último livro dela, As Palavras. Eu abro, como abro a Bíblia e Fernando Pessoa e Guimarães Rosa, abro também seus livros. São genais. Ela tem um humor incrível.

Há uma nova geração de músicos que tocou com você em Meus Quintais. Como foi a contribuição deles?

Foi incrível. Ano que vem eles estarão no palco comigo. Eu fiquei curiosa para ver como eles iam tocar a moda de viola. E eles têm isso em sua formação, mesmo que instintiva. Tocaram com uma naturalidade, como meninos brincando. Têm o universo de Inezita Barroso, Pena Branca e Xavantinho até de Villa-Lobos, Vanzolini, Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo. Eles criaram o disco comigo. Era um quintal, uma brincadeira mesmo. Fiquei muito feliz de ver os meninos tocando viola, fazendo graça para a onça. Isso é um bom sinal. A boa música salva. É educação...

Você acha que as novas gerações estão muito distantes da boa música?

Você não sabe o volume que tem de gente interessada em boa música. Basta que a gente ofereça. O brasileiro tem bom ouvido, tem a boa música em seu DNA. Eu não sei se os jovens que tocaram em Meus Quintais ouvem Inezita Barroso, mas eles têm em seu repertório criativo, na alma, os grandes mestres. E isso para eles era natural. 

Confira as faixas de Meus Quintais

1 - Alguma Voz (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro)

2 – Xavante (Chico César)

3 - Casa de Caboclo (Paulo Dafilim e Roque Ferreira)

4 - Lua Bonita (Zé Martins e Zé do Norte)

5 - Candeeiro Velho (Roque Ferreira e Paulo Cesar Pinheiro)

6 - Imbelezô Eu / Vento de Lá (Roque Ferreira)

7 - Mãe Maria (Custódio Mesquita e David Nasser) 

8 - Uma Iara (Adriana Calcanhotto)

9 - Moda da Onça (música folclórica recolhida por Paulo Vanzolini)

10 - Povos do Brasil (Leandro Fregonesi)

11 - Arco da Velha Índia (Chico César)

12 - Folia de Reis (Roque Ferreira)

13 - Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira)

 

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