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Membro da Orquestra Jovem do Estado vai estudar na Holanda

João Luiz Sampaio - ESPECIAL PARA O ESTADO - O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2014 | 03h 00

Aos 19 anos, Lucas Bernardo toca neste domingo na sala São Paulo

No intervalo do ensaio, Lucas desaparece. Alguém diz que foi comer alguma coisa. Mas ele não está na padaria. Quando reaparece, diz que precisa só passar no banheiro. Cadê? A próxima vez que ele é visto, já está sobre o palco, com o violino na mão. Dar entrevista? Só quando o maestro Claudio Cruz, antes do reinício do ensaio, o libera - ou convoca. Lucas vai ter que dar um jeito nessa timidez. Na semana que vem, embarca com os colegas da Orquestra Jovem do Estado para apresentações na Europa. Mas, ao final da turnê, não volta ao Brasil - fica na Holanda, onde nos próximos quatro anos será aluno do Conservatório de Amsterdã.

Lucas Bernardo da Silva, aos 19 anos, é o spalla da orquestra, que se apresenta neste domingo na Sala São Paulo, antes de partir em viagem, interpretando peças de Guarnieri, Debussy, Milhaud e Berlioz. Mas sua história começa dez anos atrás. Ainda moleque, conheceu a música na igreja. Seus pais frequentavam a Congregação Cristã do Brasil em Cangaíba, “próximo da Penha, é mais fácil dizer assim". Com 9 anos, ele começou a reparar na orquestra que participava dos cultos. O que mais lhe chamou atenção? “O violino, óbvio!” E nos dois anos seguintes, começou a aprender o instrumento.

Aos 11 anos, por sugestão de um professor, entrou para a Escola de Música do Estado de São Paulo. Se quisesse se aprofundar, o caminho era esse. E lá foi ele estudar com a violinista Inna Rakevich, da Osesp. "Foi bem diferente, o estudo do instrumento era muito mais detalhado", ele lembra. Mas, naquele instante, ainda não tinha certeza sobre o papel que a música teria na sua vida. "A coisa de ser profissional viria um pouco depois. Comecei a frequentar o Festival de Campos do Jordão. Lá toquei com alguns professores, com outros alunos e estar sobre o palco foi muito bom."

Nesse meio tempo, a Orquestra Jovem do Estado passou por um processo de reformulação encabeçado pela Santa Marcelina Cultura e o maestro Claudio Cruz. E Lucas, motivado por seus professores, resolveu fazer a prova. Não gostou de sua audição, diz não ter ideia de por que foi escolhido. Mas o fato é que, com 16 anos, virou spalla do grupo. Foi um momento grande de transformação - até porque ele se tornou o spalla de uma orquestra regida por Cruz, que durante décadas ocupou a mesma função na Osesp.

"Eu era mais tímido do que agora, mas tive que perder isso um pouco. Como spalla, você fica muito exposto, tem que perder o medo de tocar, e isso tudo foi positivo para mim. Mas ter o maestro Claudio Cruz ali do lado foi um pouco intimidante, por conta do violinista que ele também é. Mas, de certa forma, foi por este motivo também que quis estar ali."

Rafael Arbex/Estadão
Aos 19 anos. Spalla diz que se imagina em orquestra ou conjunto de Câmara

O grupo logo se tornaria uma das mais importantes orquestras jovens do país. Mas, mal teve tempo de se acostumar com a ideia, e outro objetivo se colocou perante Lucas - ir para fora do País. "Minha professora insistia nisso e quando conheci o Peter Brunt, professor em Amsterdã, aumentou a vontade." Uma campanha de crowdfunding e uma série de prêmios, como o Ernani de Almeida, concedido pela orquestra a seus principais músicos, lhe deram condições financeiras de montar o plano, que agora sai do papel.

É um passo importante para sua carreira. No futuro, ele se imagina em uma orquestra ou em um conjunto de câmara. "Ser solista não é algo que eu cobice, exige um esforço diferente que não tem a ver comigo." Ele tem tempo, de qualquer forma, para tomar essa decisão. Por enquanto, diz que espera poder se desenvolver tecnicamente e musicalmente ainda mais. "Mas não sei bem o que dizer sobre a expectativa”, diz, ansioso para voltar ao ensaio. É, Lucas vai ter que dar um jeito nessa timidez. Ou não, afinal, mesmo com ela, já percorreu um longo e promissor caminho.

Sinfônica tem como foco a formação de músicos

O maestro Claudio Cruz interrompe o ensaio e se dirige aos músicos. “Vocês gostaram? Ou faltou alguma coisa?”, pergunta. E, em seguida, ele mesmo responde. “Faltou concentração. Não dá para começar uma peça como essa sem foco. A música começa antes das primeiras notas. A música começa com o silêncio”, enfatiza.

A peça é a Sinfonia Fantástica, do francês Hector Berlioz, que a Orquestra Jovem do Estado vai apresentar em sua turnê europeia a partir da semana que vem. E, na conversa de Cruz com os músicos, fica claro um pouco daquilo que ele acredita ser o mais importante do trabalho: uma compreensão ampla do fazer musical.

"Estamos no nosso terceiro ano de trabalho", afirma o maestro no intervalo do ensaio. "Tecnicamente, eles oferecem aquilo de que você precisa para construir uma execução de nível, que se compara à das principais orquestras brasileiras que já regi. Mas há a fantasia musical, a percepção do que não está escrito e é isso que, durante o ensaio, tento mostrar a eles. E o fascinante é perceber a resposta rápida que eles oferecem."

Cruz é muito claro e objetivo com relação àquela que, para ele, é a função desse grupo: formar músicos. Todo o trabalho é feito nesse sentido, diz. “É uma função que vai além de mim, da direção, do agora. Estamos olhando lá para frente. O músico que hoje está nessa orquestra vai seguir, depois, para os principais grupos do País. É essa a lacuna a preencher. E isso tem que ser feito de modo responsável. A orquestra, para mim, é um quarteto de cordas aumentado, quer dizer, é composta de vários conjuntos de câmara que tocam ao mesmo tempo. Esses jovens, com isso, precisam aprender a se ouvir, a fazer música juntos. Esse é o espírito correto e prestar atenção nele agora é que vai mudar o panorama lá na frente."

A própria escolha de repertório está ligada a essa função pedagógica. "O nosso começo foi com obras da tradição romântica, que estão mais próximas da nossa sensibilidade. Agora, é hora de ir para o que está um pouco mais longe de nós, o repertório clássico e também a música contemporânea, que é distante por propor algo que ainda virá", acrescenta o maestro.

Dois programas para turnê europeia

Na viagem à Europa, a Orquestra Jovem do Estado vai se apresentar no Grachtenfestival, em Amsterdã, e fazer dois concertos no Festival Berlioz, em La Côte-Saint-André, na região de Lyon, na França, onde nasceu o compositor. Na bagagem, o grupo leva dois programas distintos, com obras de Camargo Guarnieri, Milhaud, Debussy, Villa-Lobos e, claro, Berlioz. Na Holanda, o saxofonista Arno Bornkamp se junta à orquestra como solista convidado. Para o maestro Claudio Cruz, poder viajar, se apresentar fora do País e entrar em contato com outras culturas e públicos, faz parte da formação do jovem instrumentista. Essa não é a primeira passagem da orquestra pela Europa. Em 2012, ela se apresentou no Festival MDR Musiksommer, na Alemanha, e, em 2013, no Festival Young Euro Classic, em Berlim. No Brasil, foi grupo residente do Festival de Música de Trancoso.

ORQUESTRA JOVEM DO ESTADO

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, s/nº, tel. 3223-3966. Domingo, 20 h. R$ 10.