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Entrevista. Maria Bethânia

'Eu trabalho porque gosto de brincar', diz cantora ao falar de seu novo CD, 'Meus Quintais', no qual ela faz um mergulho pelo interior; álbum chega às lojas no dia 10 de junho

Maria Bethânia fala sobre o novo disco

Flavia Guerra

04 Junho 2014 | 02h 00

RIO - Depois de perder a mãe, em dezembro de 2012, Maria Bethânia passou um ano de luto, vestindo só branco. A única cor que usou foi vermelho, nos pés. Um ano e meio depois, ela já usa novas cores e lança seu primeiro trabalho depois da morte de Dona Canô. "Ela viu o show de Carta de Amor, mas este não. Este é o primeiro CD sem ela aqui. Encarnada, digo. Porque para mim, ela está mais viva do que nunca. A presença dela é muito forte. Os ensinamentos. Tudo. Ela sempre emanou coisas muito positivas. E isso permanece”, disse a cantora em conversa com o Estado na tarde desta terça, no Rio.

As roupas mudaram, Bethânia vestia rosa e azul, mas os sapatos vermelhos permanecem. E permanece também a vontade de criar algo novo, livre, que evoque a força suave de Dona Canô e a liberdade de criar. “Eu trabalho porque gosto de brincar”, diz Bethânia ao falar de seu novo trabalho, o CD Meus Quintais. “É a minha vontade de criar algo mais. A gente tem cada vez mais jardim e menos quintal."

Produzido pela Biscoito Fino, Meus Quintais, que chega às lojas no próximo dia 10, traz um mergulho de Bethânia pelo interior. Tanto o interior de seu universo criativo, da música brasileira e de seu próprio quintal. No encarte do CD, cuja arte ficou a cargo de Gringo Cardia, há imagens de entalhes feitos pela própria cantora. Na capa, um candeeiro de cobre ilumina este universo criativo. Na contracapa, um retrato. “De cara lavada mesmo. Pedi ao Gringo que fosse natural. Já os trabalhos manuais são uma paixão antiga minha. Sempre fui boa de bordado. Ainda pequena, um tio meu, que tinha um alambique lindo, me ensinou a esculpir o cobre. E não parei mais. Eu pedia a Caetano, que sempre desenhou muito bem, desenhar figuras para mim. E eu entalhava."

São estes e outros pequenos grandes detalhes de seu quintal que Bethânia abre neste novo trabalho. Sobre o processo de entalhe de Meus Quintais, ela falou ao Estado.

Alexandre Durao/ Estadão
A cantora Maria Bethânia lança o CD "Meus Quintais", o primeiro depois de perder a mãe

Este é seu primeiro CD desde a partida de Dona Canô. Sente que, de certa forma, a presença dela ficou até mais forte?

Não sei dizer. Ela era tão luminosa, tão além, acima. Uma pessoa com 105 anos já subiu alguns degraus. E, além de tudo, com aquela natureza tão firme, mas muito suave. Mas, como sinto muita saudade, muita falta, não sei se consigo avaliar. Ainda estou muito dentro para avaliar. Não muda nada aqui dentro. O sentimento é muito grande. E cristalizou.

Como foi este primeiro trabalho após a partida dela?

Foi natural. Eu não pensei nisso, a ideia me veio. Não estava pensando em gravar porque, como no ano que vem faço 50 anos de carreira, estava pensando em algo para mais para frente. Mas me veio uma vontade de falar com o homem da terra, o caboclo, o índio, o dono do Brasil. Falar de sua atmosfera. Do interior. O caboclo, mesmo de dentro da mata, até usa internet, mas ainda se pinta e tem fé. Pensei: “Vou cantá-los!".

E surgiram, então, as parcerias.

Sim. Logo falei com Chico César. E ele adorou a ideia. E assim começou. Depois entrou o Roque Ferreira, Mãe Maria, Paulo Vanzolini com Moda da Onça, Adriana Calcanhoto, que compôs a Iara.

Você sente que os fãs estãO te pedindo um novo CD e um novo show?

Sim. Mas eu ainda estou viajando com o disco anterior. Meus Quintais vai para o ano que vem, um novo show de aniversário.

Oásis e agora os quintais. É seu momento de refúgio, universo particular?

Sim. Oásis era um disco guerreiro. Já Meus Quintais é suave, é doçura. O quintal para mim é liberdade, quando você realmente é livre. Não é estar em casa. A casa serve de alicerce, segurança se fizer chuva, sol, é comida, roupa, água, mãe, pai, irmãos, amigos. Já o quintal é você sozinho. Você fica solto. Lidando com o que a natureza te traz. Atmosfera mesmo. Vento, folha... Trago isso da roça, e dos índios principalmente.

Esta inspiração surgiu por algum motivo em especial?

Foi espontânea. Muito talvez porque eu esteja exaurida. São 50 anos de metrópole, em um ambiente apertado, barulhento. Minha profissão é mágica. Sou imensamente grata, mas ela exige que eu fique longe do que eu mais amo, os quintais. Mas não posso silenciar. Esta é a minha missão na Terra, nesta encarnação.

Um artista é um pouco um mensageiro, não?

Sim. Acho que Deus, quando escolhe um artista, ele tem uma missão. Lembro de uma frase do Picasso que dizia: “Meu Deus, não posso morrer porque tenho ainda muita coisa para fazer”. Ele sabia que ele ainda tinha um trabalho que não acabava nunca. Mas a nossa matéria acaba.

Este talvez seja nosso grande embate.

Sim. Mas temos de aceitar isso. E é duríssimo. Dificílimo. Não há hora em que eu não me lembro disso e tente compreender. Mas, mesmo para os mais bem preparados e sábios, isso é complicado. É uma mudança radical demais. Como será? Quando a gente nasce, já tem um acolhimento aqui. Tem colinho, cheirinho, mãezinha. É por isso que a gente tem que cuidar, aprender e compreender nossa responsabilidade. Ao mesmo tempo, o processo todo é bonito. Paulo Autran, nosso grande ator, já dizia que a vida não teria graça nenhuma sem a morte. É como se alguém nos dissesse: “Abre o olho!".

Você sente que ainda tem muito a fazer como artista?

Acho bonito eu compreender que o que eu intuo até um certo ponto é meu. E a partir daí, isso tem que sair de mim. Tenho de passar adiante. Não posso me apropriar disso. Por isso eu trabalho, por isso subo no palco, faço discos, leio. Faço coisas.

Seu trabalho é também parte da sua espiritualidade, não?

Sim. É quase como um impulso infantil. Não estava, por exemplo, agora, pensando em fazer discos. Estava trabalhando em outros projetos. Mas a vontade de cantar o caboclo veio forte. E disse isso ao Chico César. “Lá vou eu com as loucuras” E ele disse na hora: “Vamos! É um assunto ótimo. Eu sou tapuia”. E assim se abriu. A partir daí é uma enxurrada. Eu não consigo controlar. Enquanto não faço, não sossego.

Você sente que muito disso veio como uma homenagem específica a Dona Canô? Em Meus Quintais há Mãe Maria e Lua Bonita, que fez parte da seresta dela.

Sim. Mãe Maria sou eu já. O cabelo branco do encarte do CD é meu. Já posso ser a Mãe Maria. Este disco é bom porque eu posso ser tudo em todas as canções. Posso ser a Iara (composta por Adriana Calcanhoto, com trecho do texto 'Uma Perigosa Yara', de Clarice Lispector, adaptado por Bethânia e Fauzi Arap), posso ser a Onça, cabocla, mulato, a velha índia.

Você citou o seu cabelo, que está no encarte. E é algo tão simbólico seu.

Sim. Mas é algo muito natural. Nunca tingi. Nunca quis. Eu mesma que corto. Se é algo simbólico é porque significa o que penso, que todos têm de estar felizes consigo. Já sobre Lua Bonita, sim, é uma homenagem a minha mãe. Mas ela está presente em tudo. Sempre esteve e estará. No meu afeto, na minha memória. 

Há uma nova geração tocando com você em Meus Quintais. Como foi a contribuição deles?

Foi incrível. Eu fiquei curiosa para ver como eles iam tocar a moda de viola. E eles têm isso em sua formação, mesmo que instintiva. Tocaram com uma naturalidade, como meninos brincando. Têm o universo de Inezita Barroso, Pena Branca e Xavantinho e até de Villa Lobos, Vanzolini, Caymmi. Fiquei muito feliz. Ano que vem eles estarão no palco comigo.

Repertório

Alguma voz - Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Xavante - Chico César

Casa de Caboclo - Paulo Dafilim e Roque Ferreira

Lua Bonita - Zé Martins e Zé do Norte)

Candeeiro Velho - Roque Ferreira e Paulo Cesar Pinheiro

Imbelezô Eu / Vento de Lá - Roque Ferreira

Mãe Maria - Custódio Mesquita e David Nasser

Uma Iara - Adriana Calcanhotto

Moda da Onça - música folclórica recolhida por Paulo Vanzolini

Povos do Brasil - Leandro Fregonesi

Arco da Velha Índia - Chico César

Folia de Reis - Roque Ferreira

Dindi - Tom Jobim e Aloysio de Oliveira