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LPs brasileiros dos anos 70 estão sumindo das lojas

- Atualizado: 16 Fevereiro 2016 | 02h 15

Para sebos, raridades que não forem relançadas devem desaparecer em um mercado de muita procura e quase nenhuma oferta

Cuban Soul 18 Kilates, Cassiano, 1976. Em extinção. Transa, Caetano Veloso, 1972. Em extinção. O Som Psicodélico de Luiz Carlos Vinhas, Luiz Carlos Vinhas, 1968. Em extinção. Big Ben, Jorge Ben, 1965. Em extinção. Tim Maia Disco Club, Tim Maia, 1978. Em extinção. As lojas de LPs podem estabelecer uma nova categoria em suas prateleiras: “Álbuns em extinção”. São muitos. E, mais do que raro, esse material produzido sobretudo no período do “sonho da indústria fonográfica”, entre meados das décadas de 1960 e 1970, evapora por uma série de razões que frustram clientes, indignam vendedores e desafiam o próprio tempo. Em um mundo que ouve música por streaming, como entender o que estão dizendo os lojistas? “Os bons LPs estão acabando”, fala Mauricio Rocha, da Lado C Discos, na Galeria Nova Barão.

Loja Patuá Discos, na Vila Madalena, especializada em discos dos anos 70

Loja Patuá Discos, na Vila Madalena, especializada em discos dos anos 70

Alguns fatores explicam o sumiço de álbuns sobretudo nos últimos cinco anos: 1. O interesse por LPs passa por sua maior alta desde que as prensas começaram a parar, no início dos anos 90. 2. Quem tem esses discos hoje sabe de seu valor artístico e, por isso, não os recoloca no mercado. 3. O definhamento do real diante das moedas estrangeiras faz o brasileiro assistir a uma cena comum: japoneses, americanos e europeus voltando para seus países com sacolas cheias de LPs. 4. As frequentes listas de “melhores álbuns de todos os tempos” criadas por publicações especializadas tornam a produção dos anos 1970 objeto de cobiça ainda maior. 5. A única fábrica de vinil da América do Sul, a Polysom, não dá conta de relançar discos em escala considerável.

Carlos Galdy Silveira, o Carlinhos da Disco Sete, tem saudades de um passado nem tão distante. “Existe procura, mas não tem oferta. Tudo o que eu queria era ter vinte cópias do Clube da Esquina pra vender”, diz sobre o memorial álbum que Milton Nascimento lançou com Lô Borges em 1972. “Há cinco anos, eu vendia esse disco aos montes, tinha até vergonha de pedir caro por ele.” Um LP em bom estado da edição original chega hoje a R$ 150.

A caça pelos históricos passa pela chegada da geração que reavaliou e revalorizou a música brasileira da década de 1970: os jovens de 2000 e 2010. “As pessoas passaram a entrar na loja atrás da discoteca inteira de alguns artistas. Queriam tudo de Cartola, Tim Maia, Jorge Ben”, diz Paulo Sakae Tahira, o DJ Paulão, sócio da Patuá Discos, na Vila Madalena. Resultado: “Quando esses discos aparecem, passam a custar dez vezes mais”. Seu sócio e também DJ, Ramiro Zwetsch, aponta para a enfim consagração do vinil como mídia física. Ao contrário do desmanche das coleções no final dos anos 80, quando as pessoas jogaram no lixo ou venderam suas preciosidades a preço de banana para comprarem CDs, os LPs receberam hoje o cetro dos imortais. “As pessoas se convenceram, sabem que nenhuma outra mídia vai substituí-los mais.”

A década de 1950 e início de 60, de estética sonora menos reverenciada pela criação atual, vivem o processo contrário. Por serem menos procurados em LPs, álbuns preciosos acabam custando menos. Marcelo Di Giácomo é proprietário de quatro sebos em São Paulo. “As redes sociais fizeram os anos 70 se tornarem clássicos. OK, mas existe um oceano de música genial que passou a não valer nada em vinil. Infelizmente, a música brasileira parece se resumir a 100 discos.” E dá exemplos: ele vende álbuns de Ray Charles a R$ 10 ou R$ 15 contra os R$ 100 que vale um Acabou Chorare, dos Novos Baianos. “Enquanto um Tim Maia sai por R$ 200, outro importado de Frank Sinatra, com arranjos de Nelson Riddle, custa R$ 40.”

A especulação dos fãs estrangeiros de MPB foi implacável. “Eles começaram a chegar há 20 anos e levaram quase tudo, sangraram o mercado”, diz Giácomo. Apenas para um comprador de San Diego, na Califórnia, lembra de ter vendido o equivalente hoje a R$ 80 mil em uma tarde. O japonês Willie Kenichi, de Tóquio, conta que comprou mais de 200 LPs em uma viagem que fez recentemente ao Brasil. “Vendo esses discos em meu bar por uma média de US$10 (equivalente a R$ 40). Tom Jobim, Nara Leão, Elis Regina”, diz. Ele conta que outro vendedor de Tóquio, do qual não diz o nome, faz verdadeiros voos de rapina no Brasil. “Ele traz discos a R$ 5, R$10 e vende aqui em Tóquio por US$ 300 (um pouco mais de R$ 1.200). Eu não gosto disso”.

E as gravadoras? Não seria a hora de reativarem suas prensas para uma produção que reabastecesse o mercado e saísse da dependência das exaustas prensas da Polysom? Alice Soares, gerente de marketing estratégico da Universal, diz que não. “Aqui no Brasil ainda há esta relativa baixa escala de fabricação versus consumo, o que não nos coloca em um ponto de equilíbrio para arcar com tantas despesas logísticas, estoque, impostos, distribuição.” Paulo Junqueiro, presidente da Sony, pensa igual. “Não temos previsão de termos fábrica própria neste momento.” A EMI também não tem projetos para lançamentos de LPs por conta própria. Quem agradece é João Augusto, que fala em nome da Polysom. Perguntado se alguém não está perdendo muito dinheiro com essa alta procura e oferta quase inexistente, ele diz: “Perdendo, não creio. Pode ser que estejam deixando de ganhar.”

Fábrica nova em São Paulo

É essa cratera aberta pela contramão do tempo que o DJ Michel Nath quer ocupar. Sua ambição é grande e já está em construção: ele está na reta final para ligar as máquinas de sua fábrica de LPs Brasil Vinil. Pelos seus cálculos, deve ultrapassar a capacidade de produção da Polysom, a única na América do Sul até hoje.

A Brasil Vinil vai funcionar em um galpão na Barra Funda e, segundo Nath, deve entregar por mês, quando todas as prensas estiverem a mil (algo esperado para o fim de 2016), 150 mil discos. A abertura está prevista para entre abril e julho.

Além de cuidar da memória impressa em LP, Nath pensa também na importância de se registrar nessa mídia a produção atual. “Não só lançar as raridades é importante, mas também publicar essa cena rica de hoje na música brasileira.” 

Ele diz que não precisa ir muito longe na história para detectar a carência de títulos no mercado do vinil. “Veja o disco Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs. Estamos falando do grupo mais popular de rap no País. Quando você acha esse LP, paga por ele R$ 600 em uma galeria de São Paulo. O disco tem de parar de ser esse fetiche que se tornou nos últimos tempos.”

O preço final das reedições ainda é um problema. “Depois que sair da minha mão, não tem jeito.” Os impostos pesam e os álbuns chegam às lojas sempre mais caros do que deveriam. “Só espero que o governo, se não puder me ajudar (não oferecendo incentivos fiscais), não me atrapalhe.”

João Araújo, dono da Polysom, não fala como um concorrente: “Já os visitamos (Nath e seu sócio, Luiz Bueno) e os recebemos na fábrica. Colaboramos com as informações que tínhamos e esperamos ter sido úteis”. Ele acredita que as gravadoras, suas maiores clientes para recolocar títulos no mercado, sabem bem o que fazem. “As pessoas que dirigem as empresas detentoras de catálogos têm plena capacidade para detectar o momento certo de entrarem no mercado de vinil.”

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