'Louca ocasional', Buika traz na voz ecos de tradições

Cantora cult espanhola volta a se apresentar em São Paulo

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

26 Setembro 2014 | 03h00

Dez meses após seu primeiro show no Brasil, a cantora e compositora espanhola Concha Buika volta a se apresentar neste sábado no País com um show de maior fôlego (no HSBC Brasil) e formação diferente - em vez de piano e cajón, agora ela canta acompanhada de violão, baixo e cajón. “O cajón está sempre porque eu acho que o segredo de todas as melodias está no ritmo. E o cajón tem um som muito mágico”, diz a cantora (que, curiosamente, começou na carreira como baterista, sob a batuta de um mestre, Jacob Sureda).

Buika é hoje um dos nomes mais cintilantes do chamado novo flamenco espanhol, mas é muito mais que isso. Também roteirista de cinema, poeta (acaba de lançar o livro A los que Amaron a Mujeres Dificiles y Acabaron por Soltarse), ela vive em Miami e está em turnê promovendo o disco do ano passado, La Noche Más Larga. Mas já está trabalhando no próximo, um álbum de música eletrônica.

Comparada às vezes a Nina Simone, ela diz que não há contradição entre sua voz orgânica e o flerte com as máquinas. “Creio nas catedrais de sons. As big bands do passado eram catedrais sonoras. Faziam coisas que não se pode fazer com um trio, com um quarteto. A música eletrônica nos dá a possibilidade de construir essas catedrais. Não substitui nada. Eu gosto da investigação de sons, fico encantada”, afirmou.

No filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar, Buika canta duas músicas, uma delas interpretando ela mesma numa festa. Também trabalhou com o grupo de teatro físico La Fura dels Baus. Sua reputação alcança hoje as mais elásticas fronteiras - em todos os continentes, ela é chamada apenas de Buika. Apenas a mãe a chama de Conchita. Ela só conheceu o pai há 8 meses, quando ele morreu. Vinda de Maiorca, ela e os 6 irmãos foram criados pela mãe, após o pai abandonar a família que imigrara da Guiné Equatorial (ela tinha 9 anos quando os deixou). 

“Desde que pude ouvir, eu canto. Sempre que se canta é para conseguir algo. Eu já cantei para conseguir companhia, por dinheiro, por aplausos. Aos 16 anos, subi pela primeira vez num palco e nunca mais desci.”

Ela sustenta que cantar é o contrário de fingir. “As pessoas têm muito medo do que os outros pensam delas. Mas viemos a este mundo para sermos o que queremos ou para sermos o que querem que sejamos?”, pergunta.

“Os seres humanos são muito básicos. Guardamos os mesmos segredos, e acontece a mesma coisa com os países. Por isso, quando colocamos os segredos em nossas canções, tanta gente se reconhece nelas. É por isso que não vejo diferença entre o público de Madri ou São Paulo ou Las Vegas. Porque sinto que passamos anos guardando os nossos segredos, é bom expô-los. Compor, para mim, é dizer a verdade sem medo.”

Buika não gosta de citar influências, nem evocar memórias de seus primeiros passos na música. “Sou ignorante, sou inculta, e sei que essa é a maior de todas as liberdades. Já me custa recordar do meu nome”, diz. “Não me lembro de cantoras em especial do meu passado. O que mais me recordo é o silêncio. No silêncio se concentra toda a música do mundo, todas as revelações. Sabia que a palavra silêncio não existe na maior parte dos países africanos? Porque o silêncio é uma mentira, é um sonho. O branco também é uma mentira, também é outro sonho.”

Ela traduz de forma muito pessoal os legados do jazz, do flamenco, da música afro-cubana e há até ecos dos sons dos tuaregues em seu som, “Tudo que podes ouvir através de mim são coisas que tu sabes. Na realidade eu não sei nada. A música é isso, ela serve para que te ouças através de outras pessoas. Não me sinto responsável pelo que tu sentes quando me escutas.”

Buika se define como uma “louca ocasional”, o que a coloca na posição de “não poder brincar” com as tristezas. “Há uma diferença entre ser louco e estar louco. Sou louca por vocação, por direito, é uma escolha pessoal. Os que são loucos por enfermidade são outros, pobrezinhos”, distingue. “Creio na rebeldia depois dos 40 anos. Quando você é rebelde com 40, 50 anos, você muda as coisas. Com 15 anos, não mudas nada. Porque não entendes porque és rebelde. Não tens discurso, não tens argumentos, te faltam conhecimentos.”

BUIKA

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio, tel. 4003-1212. Sáb., às 22 h. R$ 140/ R$ 300. 

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