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Lollapalooza 2016: com shows e plateias despolitizados, evento faz sua ‘edição do refúgio'

Enquanto multidões protestavam pelo País, mais de 100 mil pessoas preferiram bater cabeça no festival

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Julio Maria,
O Estado de S. Paulo

13 Março 2016 | 21h28

Os muros do Autódromo de Interlagos separavam uma ilha do mundo. Gritos inclementes pediam que Marcus Mumford voltasse ao palco para fazer mais um hard folk com o arrebatador Mumford and Sons ou que Noel Gallagher não se esquecesse de mais uma do Oasis antes de deixar o palco. Aglomerações se formavam por pessoas com 16 anos que saltavam juntas diante de Marina and The Diamonds e por seus pais e irmãos mais velhos que escolhiam o Bad Religion ou os eternos anos 1970 do Alabama Shakes para manifestar resistências geracionais.

Gigantescas passeatas, sem faixas ou bandeiras, tomaram as pistas que ligam os palcos durante as 24 horas dos últimos dois dias. Enquanto multidões saíam pelo País para pedir cabeças, mais de 100 mil pessoas preferiram bater cabeças no ano em que o Lollapalooza pareceu mais um refúgio.

A genética do festival ajuda a produção em tempos de agonia. Ao contrário de outros investimentos, o Lolla não sobrevive de estrelas isoladas, mas de uma proposta.

Muitas plateias se formam pela surpresa de fãs que estão de passagem, à espera de seus ídolos, quando descobrem o reggae incendiário dos alemães do Seeed, o rock ungido de James Brown dos californianos do Vintage Trouble, a força de Porto Velho trazida pelo Versalles e o hip-hop indie do Twenty One Pilots.

Os ‘grandes’, por sua vez, tentam garantir a procura das massas pelos ingressos e viabilizar a sobrevivência do ‘festival dos pequenos’. Ainda que ninguém pareça fazer nada pensando nisso, este é o resultado. E, falando assim, fica tudo bonito. Afinal, Gallagher, Eminem, Mumford e Florence também já foram pequenos.

A aposta de Fernando Alterio, diretor-presidente da Time For Fun, responsável pelo festival, parece funcionar. “Este está sendo um bom ano para se fazer shows internacionais”, disse, em entrevista recente ao Estado. Por sua lógica, as pessoas que deixaram de viajar para fugir do dólar estão redirecionando seus gastos com diversão indo a mais shows.

Segundo a assessoria de imprensa do Lolla, havia 85 mil pessoas no primeiro dia. A previsão para os dois era de 150 mil. Os números oficiais nem sempre pareciam refletidos nas pistas. Enquanto Noel Gallagher fervia o palco Skol, o metal do Marrero era percebido por dezenas concentradas em uma pequena faixa.

Algo a se pensar: a exposição de boas bandas como Versalle e Dingo Bells sem uma base de fãs garantida ajuda ou atrapalha? Eleva o brilho ou queima o filme? Não seria o momento de a produção medir o potencial de público desses grupos pelas mobilizações das redes que suscitam, ou mesmo ajudar promocionalmente no acesso deste público, para garantir uma recepção mais justa?

A estrutura na ilha do Lolla já funciona sem grandes esforços depois de cinco anos de festival. Os vazamentos de som pareceram contornados e as longas estradas reduziram pontos confusos e sem informação das primeiras edições em Interlagos. Mas, se o diabo habita os detalhes, lá estava ele: as caixas da área de alimentação não têm cardápios nem tabelas de preço.

O cliente que chega sem saber quanto custa aquilo que quer é alvejado pelo olhar impaciente das atendentes. O som do palco Onix foi insuficiente e não subiu a ladeira sobretudo no show do Of Monsters and Men. Um intervalo maior entre um show e outro evitaria que o público que caminha léguas para chegar ao destino perdesse as primeiras músicas da atração vizinha.

Algumas almas foram lavadas pelo Alabama Shakes. A garganta larga de Brittany funciona como uma caixa acústica para as suas cordas vocais. A voz sai grave, poderosa. Não é límpida, pelo contrário. Brittany canta do fundo, de voz rasgada, como se o som viesse de um canto obscuro, no qual o desespero fica alojado e, quando abre a boca, solta essas angústias aprisionadas para um voo livre.

O duo americano Twenty One Pilots contagiou mesmo quem não o conhecia. O sucesso Heavydirtysoul foi o sinal para esquentar o público que cantou e bateu palmas durante toda a apresentação de Josh Dun e Tyler Joseph, o homem que comanda o espetáculo. Ele movimenta-se com um pouco de inconsequência, usando máscaras e figurinos customizados, e agradece em português com uma bandeira brasileira enrolada ao pescoço.

A mesma bandeira brasileira que esteve nas costas de Ty Taylor, vocalista do Vintage Trouble, que foi carinhosamente estendida sobre um dos amplificadores do Mumford and Sons por Marcus Mumford e que ficou delicadamente posicionada ao lado do palco Axe. Sua presença manifestava outros sentimentos. Quem estava no palco a respeitava e quem estava na plateia, ao menos por alguns minutos, transbordava de orgulho. / COLABORARAM JOÃO PAULO CARVALHO, PEDRO ANTUNES E RENATO VIEIRA

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