Livro e CD resgatam Paulo Coelho compositor

"A Canção do Mago", de Hérica Marmo, narra o período em que o escritor compôs com Raul Seixas, Rita Lee e outros artistas; CD reúne alguns dos hits do mago, que em breve terá uma biografia por Fernando Morais

Edmundo Leite, Estadao.com.br

05 Outubro 2007 | 03h59

Na sede de uma grande empresa em São Paulo, duas colegas conversam enquanto uma delas copia as músicas de um CD para o seu computador:   – Que CD é esse? pergunta uma delas.   – É um CD com músicas feitas pelo Paulo Coelho...   – Paulo Coelho!? Deix’eu ver...   Após alguns segundos de silêncio olhando a relação de músicas na contra-capa, a  segunda se surpreende:   – Então quer dizer que eu gosto do Paulo Coelho!?   Além das conhecidas parcerias com Raul Seixas ("Gita", "Al Capone", "Há Dez Mil anos Atrás"), o disco "Paulo Coelho - o compositor" (Universal) traz faixas com letras de composições do escritor com artistas dos mais variados estilos, como Rita Lee, Zé Rodrix e Rosana. E também duas das clássicas  versões que fez:  "Sou Rebelde" - que estourou no fim dos anos 70 na voz de Lilian – e "Me deixas Louca", última gravação de Elis Regina, em 1982. Só faltaram as divertidas "Arrombou a Festa I e II",  composições originais com Rita Lee, e "Abaixo a Cueca", com Zé Rodrix.   Veja também:  Ouça a cantora Lilian cantando "Sou Rebelde"  Ouça Sonia Santos cantando "Porque"  Ouça Elis Regina cantando "Me Deixas Louca"  Ouça Chitãozinho & Xororó cantando "Medo da Chuva"   Se o disco lançado pela Universal causa pequenos espantos como o descrito no diálogo real acima, um outro lançamento relacionado ao escritor está provocando abalos maiores, especialmente entre fãs mais exaltados do roqueiro baiano. Escrito pela jornalista carioca Hérica Marmo, o livro "A canção do Mago - a trajetória musical de Paulo Coelho", narra detalhes inéditos do período em que o mago e o "Maluco Beleza" eram "inimigos íntimos", como ambos definiam a parceria.   Palavras proibidas   Há anos Paulo Coelho vem dizendo que parte de seu sucesso como escritor se deve ao fato de que "aprendeu a escrever de maneira simples e direta fazendo música com Raul Seixas". Porém, pouca coisa além disso foi dita por ele sobre a dupla que causou barulho nos anos 70 com letras que iam do deboche ao afronte e cheias de odes esotérico-libertárias numa época marcada pela repressão.   O motivo da resistência do fenômeno da literarura em tocar no assunto seria a participação de ambos em entidades esotéricas nada ortodoxas. Algum tempo atrás, o escritor contou que havia escrito um livro sobre esse período, mas que se desfez dos originais após sua mulher receber um sinal de que a história evocava coisas ruins. E se há algo que Paulo Coelho realmente dá importância são a esses tipos de sinais, como mostra o capítulo do livro em que a autora aborda a superstição do mago e como os amigos se divertiam com isso, repetindo "palavras proibidas" perto dele: "bastava ouvir uma palavra perigosa para o ritual começar. Paulo Botava a mão no rosto, fazia careta e pedia, virando a mão em sentido anti-horário: - Desfaz, desfaz... Em seguida batia várias vezes no pedaço de madeira mais próximo, isolando o mau agouro." Roberto Carlos perde.    Cantor   A resistência do mago em falar sobre o assunto que desperta mais curiosidade de fãs foi quebrada pela autora do livro, que dissecou os dez anos em que o escritor trabalhou nos bastidores da indústria da música e traz revelações surpreendentes. Como o dia em que Roberto Menescal, então executivo da gravadora Phonogram (atual Universal), cansado do cada vez maior descontrole de Raul Seixas, vislumbrou a possibilidade de transformar o parceiro descoberto pelo artista baiano em cantor:   "- Você toparia se lançar como cantor? você cantando as suas músicas? Paulo, que não era de fugir de nenhuma novidade, topou na hora. Menescal pegou o violão e começaram a experimentar. Mas não demoraram muito para reconhecer que não daria certo. Fora a voz de pouco alcance, Paulo não tinha o carisma de Raul. Não funcionava como vitrine. Mesmo assim, o diretor artístico não desistiu da idéia de ter o letrista como seu funcionário..."   Maluco Beleza   Mas não é nenhum dos várias fatos narrados - as armações como a do falso encontro com John Lennon para se promover na imprensa, a prisão do letrista pelo Dops, o envolvimento com drogas estimulado por Paulo, a revelação de que algumas letras foram inteiramente escritas por Paulo Coelho e a aparente inversão de personaldidades de ambos - que mais está causando um gosto indigesto entre os fãs de Raul.   É do prefácio escrito por Menescal, que saiu a frase mais polêmica do livro até agora. "Aos poucos fui entendendo o jogo e vi que o maluco beleza era Paulo. E Raul, cada dia mais ‘maluco’ que ‘beleza’", escreveu o autor do clássico da bossa nova "O Barquinho" no início do texto sobre o amigo. E para não deixar dúvidas do que era isso mesmo que estava dizendo, reforçou no final: "Agora sei um pouco mais do que vivi naquela época que foi umas das melhores fases da história da MPB e de um dos seus mais importantes representantes, nosso querido, e o verdadeiro ‘maluco beleza’, Paulo Coelho", finaliza. (Para os não iniciados na vida e obra de Raul Seixas: a canção com cujo título o cantor é mais comumente designado é uma parceria com Claudio Roberto, justamente após o primeiro rompimento do mago e do magro).   Rap de bandido   Mas o livro não se restringe a narrar as peripécias da parceria com Raul Seixas. Estão lá, entre outras aventuras, a paixão por Rita Lee durante a breve parceria, a facilidade com que fazia letras e versões para quem quer que fosse - de Sidney Magal a Vanusa, de Fábio Júnior a Rosana - a frustrada temporada de alguns meses em Londres na tentativa se tornar escritor. E até a composição anônima de um inusitado e pioneiro rap de bandido, a "Melô do Mão Branca", de 1980, sobre um justiceiro que atuava na Baixada Fluminense e era sucesso nas capas dos jornais populares da época:    Ratatapá papá Zin cat pum São coisas que você tem que se acostumar Essa é a música Que toca a orquestra do Mão Branca Botando os bandidos para dançar   Com essa e outras histórias, a autora vai mostrando que Paulo Coelho era pop - e sucesso - muito antes de se tornar escritor. E termina com a sucessão de sinais - entre eles a morte de Elis Regina - que o levaram a abandonar a música para seguir o caminho que o levaria ao sucesso mundial. Mas o livro é sobre música e, focada, a autora encerra sua história por aí. Os fãs do mago que querem mais detalhes sobre esse caminhos posteriores terão que esperar a aguardada biografia que está sendo finalizada pelo escritor Fernando Morais, a sair pela Editora  Planeta nesse fim de ano. E os do Maluco Beleza,  pela merecida - e demorada - biografia que está por vir.

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