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Leonard Cohen faz 80 anos, mas quem ganha presente somos nós

Cantor canadense liberou no seu site, para todos, sua nova obra-prima, 'Popular Problems', candidato a disco do ano; ouça

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 11h00

Dois anos após Old Ideas, está disponível para quem quiser ouvir, na internet, o novo disco de Leonard Cohen, Popular Problemas, no site do cantor canadense.

Tem uma mensagem lá: “Deseje a Leonard Cohen um feliz aniversário de 80 anos e ouça o novo álbum dele, Popular Problems”.

Ele completa 80 anos neste domingo, 21, mas quem ganhou um presentaço fomos nós.

Popular Problems é um disco magnífico, outra obra-prima do bardo. É produzido por Patrick Leonard, que também trabalhara com Cohen no álbum anterior (e produziu discos de Madonna, como True Blue e Ray of Light). Abre com um blues de primeira, Slow.

Na terceira música, Samsom in New Orleans, Cohen oferece sua prece de costume, com um violino doloridíssimo cortando a canção de alto a baixo. É sua ode à batalha pela sobrevivência em New Orleans nos momentos que marcaram a passagem do Furação Katrina, no qual ele canta: “E nós os que gritamos por piedade no olho do furacão/Era nossa oração tão ordinariamente indigna que o Sol a rejeitou?”.

Órgão e coro sustentam A Street. Corais fantasmagóricos e a voz gravíssima de Cohen (por vezes de uma rouquidão crepuscular) tingem as músicas de solenidade e poesia inefável.

Did I Ever Love You começa ao estilo puro Tom Waits, anunciando-se uma das mais bonitas canções que surgiram no horizonte desde muito tempo. Daí quebra para um country de roça, sem a voz de Leonard, apenas um coro feminino. E o violino de volta. É um toque meio modernizante, meio clássico ao mesmo tempo, que perpassa todo o álbum.

My Oh My tem um slide doloridíssimo de guitarra, um acento de soul sulista. Nevermind tem uma batida funk imponderável, que é bombada por piano elétrico e de novo os celestiais vocais femininos de apoio - dessa vez em árabe.

São nove canções, nenhuma com excessos ou lacunas. Tudo exato, perfeito. Born in Chains é mais falada do que cantada, e a percussão que a embala é também quebradiça, atravessada pelo órgão e os coros. Parece que uma aura meio espiritual banha cada verso, cada lamento do velho bardo.

You Got Me Singing, que fecha o álbum, também está embebida do mesmo tempero country, que é o elemento mais comum a todo o lote de canções. Nenhuma música é vulgar, nenhum acorde, nenhuma inflexão vocal. Só que, nesse final, o toque é mais acústico, mais violão.

Coisa linda. Leonard Cohen, no fio dos seus 80 anos, sustenta com grande leveza e presença de espírito o título de um dos grandes mestres da poesia cantada universal, como Lou Reed e Dylan, seus únicos equivalentes. Quase todo mundo relevante, de Johnny Cash a R.E.M., de Jeff Buckley a Nina Simone, de Nick Cave a Pixies, gravou alguma música sua ou sofreu sua influência. Embora nunca tenha se casado, ele viveu com mulheres famosas, como Joni Mitchell e a atriz Rebecca De Mornay. O relacionamento mais longo foi com Suzanne Elrod, mãe de seus dois filhos. Ele também foi alcoólatra e andou por diferentes drogas. Dedicou-se ao misticismo e religiões diversas, com uma queda mais acentuada pelo zen-budismo.

Leonard Cohen publicou 12 livros. Este é o 13º álbum da carreira de Cohen. Números exatos, quase como velhos relógios de cordão de carregar nos bolsos dos coletes em alguma época cavalheiresca.

Ouça o primeiro single do novo álbum, Almost Like The Blues:

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