Annabel Mehran / Divulgação
Annabel Mehran / Divulgação

Kim Gordon volta a São Paulo pela primeira vez sem o Sonic Youth

Cantora apresenta seu projeto Body/Head em duas noites no Sesc Pinheiros, em 21 e 22 de outubro

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2016 | 08h00

“Não fazia mais sentido morar em Massachusetts.” Kim Gordon está de volta às raízes, ao sol californiano e à vida no asfalto. Desde agosto do ano passado, a ex-Sonic Youth deixou a casa onde morava na cidade de Northampton, em Massachusetts. Ali, dividiu os anos com o ex-marido Thurston Moore e a filha do casal, Coco. Com o fim do casamento, em 2011, veio o esfacelamento da banda que transformou Kim na dama do rock alternativo. Quando Coco deixou a casa que dividia com a mãe para a faculdade – como de costume nos Estados Unidos –, Kim se viu sozinha em uma casa de mais de 500 m², nove quartos e seis banheiros. “Morar em Nova York também não me parecia uma boa ideia. Lá é tudo muito caro. Los Angeles me pareceu ser uma boa ideia.” 

Nascida em Rochester, no estado de Nova York, Kim foi criada em Los Angeles. Filha de um professor da Universidade de Los Angeles (famosa pela sigla UCLA), ela se construiu artisticamente na cidade antes de se mudar para Nova York, onde se fascinou pelo movimento de rock autodenominado no wave (ou “sem onda”, em tradução literal, numa resposta à brilhosa new wave que coloria o início dos anos 1980) e fundou o Sonic Youth, como baixista e vocalista, ao lado dos guitarristas Moore e Lee Ranaldo – Steve Shelley entrou para comandar as baquetas em 1985. 

Há dois anos, Kim Gordon decidiu passar a sua vida até ali a limpo. Escreveu o livro A Garota da Banda, uma autobiografia na qual detalhava grandes momentos ao lado do Sonic Youth até o fim da banda, com um melancólico show realizado em Paulínia, no interior de São Paulo. A banda foi uma das atrações da segunda edição do festival SWU realizada em 2011 e, debaixo de uma garoa insistente, deixou de existir. “Sabíamos que seria o último show da banda, de uma forma ou de outra”, ela relembra. “Aquilo tudo foi algo pesado para ter que carregar. Despedir da banda, dos fãs, das pessoas que trabalhavam a tanto tempo conosco.” 

Agora, ex-garota da banda, Kim está mais livre do que nunca. Desde 2012, ela mantém o projeto Body/Head, um duo experimental no qual ela divide as guitarras com Bill Nace, e canta com vocais espaçados questões ligadas à sexualidade e busca por identidade. É com esse projeto – que não é o único dela atualmente –, que Kim Gordon volta ao Brasil pela primeira vez desde aquela despedida melancólica do Sonic Youth. O Body/Head se apresenta em duas noites seguidas no Sesc Pinheiros, nesta sexta e sábado, dias 21 e 22, às 21h. 

A banda representa uma parte da nova fase da vida da multi-instrumentista, iniciada após o lançamento da biografia. Aos 63 anos, Kim tem sua vida já documentada em um livro, mesmo que ainda exista muito tempo para se viver. “Jamais imaginava escrever aquele livro”, ela conta. “Mas foi bom. Precisava passar minha vida a limpo.” 

Body/Head nasceu com uma Kim Gordon em frangalhos após o fim do Sonic Youth, banda com a qual passou 30 dos seus 63 anos de idade. Ao lado do também multi-instrumentista Bill Nace, Kim toca guitarra e canta versos espaçados, tensos, que ecoam em um abismo ora ruidoso, ora vazio. Kim e Nace dialogam com seus instrumentos enquanto, no fundo do palco, imagens registradas em câmera lenta são projetadas. “A nossa ideia é que o público crie uma narrativa por conta própria”, explica Kim Gordon sobre a apresentação que será mostrada pela primeira vez em São Paulo, em duas noites de experimentalismo sonoro no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, sexta e sábado, dias 21 e 22 de outubro, sempre às 21h. 

“Me apresentar com o Body/Head é sempre algo bastante divertido. Somos uma banda criada para se apresentar ao vivo. Canto com um modulador de voz e brincamos um pouco com o improviso. Nós criamos fragmentos de canções e vamos juntando-as. É uma espécie de trilha sonora para algo que o público quiser imaginar. É bastante abstrato. Tem um pouco de mistério ali.” 

A sonoridade do duo foi diretamente inspirada pela filmografia de Catherine Breillat, cineasta e escritora francesa, de forma indireta. “Eu e Bill sempre conversamos muito sobre os filmes dela”, explica Kim. Uma das canções do primeiro – e até agora único –, álbum do Body/Head, chamado Coming Apart, leva o mesmo nome de um filme de Catherine de 2007. Last Mistress, a canção, registra uivos de Kim Gordon sobre essa amante – se é endereçada a mulher com quem o ex-marido dela teve um caso, provavelmente ninguém saberá. “Nos identificamos com os temas que essa cineasta debate nos filmes dela. Sexualidade, amor e sexo, autocontrole”, ela explica. “No fundo, o nome da nossa banda é uma brincadeira com a ideia de que a cabeça quer uma coisa e o corpo quer outra.” 

Body/Head desafia um público já acostumado ao experimentalismo ruidoso do Sonic Youth. Como Kim mesma diz, contudo, a banda não se concentra em registrar suas canções em discos. Com cinco anos de existência, apenas Coming Apart pode ser considerado um álbum cheio. O duo lançou ainda um EP que levava o nome da banda, em 2013, mesmo ano de lançamento do álbum de estreia, e The Show Is Over, que reúne duas canções, em 2014. “Vamos preparar um novo álbum de estúdio”, garante Kim. “Mas percebemos que somos uma banda que se desenvolve ao vivo. A performance ao vivo é muito importante para a gente. Pensamos em registrar um disco ao vivo, mas ainda vamos preparar mais uma porção de novas canções e colocar em um novo álbum.” 

A vida pós-Sonic Youth, iniciada em 2011, tem sido produtiva para Kim. Especialmente após a mudança dela de volta para Los Angeles, onde cresceu. Depois de colaborar com o electropunk de Peaches e com J Mascis, guitarra principal e voz do Dinosaur Jr., Kim deu início a dois novos projetos. O primeiro deles é o interessante e mais roqueiro Glitterbust. Novamente em dupla, dessa vez fazendo par com Alex Knost, do Tomorrows Tulips, ela lançou um álbum em vinil duplo. 

Em setembro, ela colocou nas redes aquilo que pode ser o início de uma carreira solo. A música Murdered Out foi produzida por Justin Raisen, especializado em pop esquisito, com trabalhos ao lado de Sky Ferreira, Santigold, MS MR e Charli XCX. “Definitivamente, é alguém com quem quero continuar a trabalhar”, explica Kim sobre a canção registrada com Raisen. “De repente, isso pode se tornar um disco.” 

Gravada em Los Angeles, a canção foge justamente de uma visão mais solar de mundo, mesmo que a artista esteja vivendo seus novos dias ensolarados na costa oeste. Pelo contrário, há um quê de gótico e sombrio na faixa. “É um reflexo da Los Angeles real”, explica Kim. “Existe essa cultura da celebridade, de Hollywood, as praias. Ao mesmo tempo, tem algo de sombrio. Com a recessão, as coisas tem mudado. Essa música é tão crua quanto essa cidade.” 

BODY/HEAD

Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran.

Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, tel.: 3095-9400. Dias 21 (6ª) e 22 (sáb.), 21h. 

R$ 18 / R$ 60. 

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