Kanye West faz a sua jornada nas estrelas nos palcos

Multimilionários, rappers como ele investem em alta tecnologia, superando os rockstars

Jotabê Medeiros, enviado especial,

16 Agosto 2008 | 16h23

Em 1978, tudo que o hip-hop tinha era um microfone, um mixer, alguns discos de vinil, um tubo de spray e uns dançarinos de break dance na calçada.   Em 2008, o hip-hop viaja numa nave espacial com computadores de última geração, som surround, luzes-robôs, imagem digital em 10 telões e banda com 8 músicos numa plataforma suspensa. O que era somente rhythm and poetry, ritmo e poesia, hoje se desloca no hiperespaço à velocidade da luz. Mudou o hip-hop ou mudou o mundo? Ambas as coisas. Glow in the Dark, o novo show do megalomaníaco astro do hip-hop Kanye West (pronuncia-se câniei), que ele apresentou no Madison Square Garden de Nova York na semana passada, com lotação esgotada, é a demonstração cabal que o rap já não cabe no arcabouço tradicional.   Multimilionário, é um mercado feito de investimentos maciços em áreas nem sempre afeitas à música - o rapper 50 Cent, por exemplo, recentemente comprou ações de uma bebida da Coca-Cola (a Vitamin Water da Glaceau), abocanhando um lucro de US$ 400 milhões.   Quando perguntaram recentemente no programa The Today Show ao atleta Michael Phelps, o maior medalhista olímpico da história, que tipo de música ele ouve enquanto está se preparando para nadar, ele respondeu rápido: Lil Wayne - I’m Me. Muito adequado: em apenas 8 semanas, Lil Wayne, o rapper mais cheio de grana do momento, vendeu 2,1 milhões de cópias do seu novo disco Tha Carter III. Ninguém mais vende tanto disco no mercado musical.   Kanye West é um dos garotos de ouro do gênero, e é também o mais excêntrico e desbocado. Seu novo show, Glow in the Dark, que está a caminho do Brasil para o TIM Festival 2008, em outubro, é o Dark Side of the Moon do rap.   O que acontece com o hip-hop nesse momento também aconteceu com o rock’n’roll nos anos 1970, quando os shows de arena se tornaram tão grandiosos e cheios de efeito que houve uma reação furiosa na direção oposta - reação que ficou conhecida como punk rock.    Coreógrafo de Madonna   Glow in the Dark talvez seja o mais impactante show de música do momento, em termos de tecnologia. E não só: o rapper contratou o coreógrafo de Madonna, Jamie King, para dirigir seus movimentos. Seu apetite em direção ao vaudeville é imenso: ele também será o produtor do novo disco de outro megastar do gênero, Jay-Z, que, ao render-se ao apelo do colega, abriu mão do celebrado produtor Timbaland.   O novo show do megalomaníaco astro do hip-hop West é definido por ele como "uma missão para trazer a criatividade de volta à Terra". Essa é a historinha que dá o mote à space opera que o cantor criou, Glow in the Dark. Sua abordagem é pós-moderna, misturando todo o arsenal de invencionices da ficção científica. Vai ao "espaço" sob a orientação de um computador-espaçonave que dá conselhos ao seu tripulante, aqui chamado Jane (como Hal, o computador de 2001, Uma Odisséia no Espaço).   Outros efeitos: pin ups que fazem strip tease e simulam sexo virtual, luas que explodem, gêiseres de fogo e muito crepúsculo espacial. Até um dinossauro apareceu (no espaço? ) para engolir o astro do rap megalô, mas logo ele escapou, rasgando o ventre da criatura e ressurgindo no palco.   "Kanye é o primeiro autêntico astro que o hip-hop produziu desde que Eminem dividiu o palco dos prêmios Grammy com Elton John. Como Bob Dylan, Bono, Prince e outros grandes rock stars, ele é um visionário, um rebelde com uma causa, um inovador que pinta fora das margens da página, um provocador com senso de arte e do desafio, um über-talent que tem consciência do que é", escreveu o crítico Jon Bream no site Popmatters.   Glow in the Dark mistura elementos do pop, do R&B, da música eletrônica do Daft Punk e bastante senso de humor. Como no disco que o sustenta, Graduation, lançado por Kanye no ano passado, é um patchwork pop: samples de Elton John, Steely Dan, Daft Punk, Can, Michael Jackson, Public Enemy; participações de Chris Martin, do Colplay, e Mos Def, entre outros. Junte a essa miríade os efeitos visuais mais mirabolantes, tudo em cores laranja, vermelho, púrpura e neon rosa, e eis o monolito de West solto no espaço. Cortinas de telões superpostos (e integrados em imagem e efeitos), som surround. É talvez o mais high tech dos shows de arena em circulação pelo mundo nesse instante.No final de tudo, a nave-mãe Jane diz a Kanye: "Nós precisamos do poder do maior astro do universo, Kanye. Nós precisamos de você".    Mas nem tudo é megalomaníaco no novo hip-hop. Antes de Kanye West em Nova York, houve o show de uma estrela emergente do rap, Lupe Fiasco, cheio de groove, um tanto jazzy, outro tanto soul, inspirado pelo manancial inesgotável do american songbook, e mostrando uma outra direção. Nem todos os caminhos levam a uma estrela supernova.

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