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Julio Iglesias fala de sua última turnê mundial

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2014 | 19h 26

Cantor espanhol é recordista de vendas

Julio Iglesias vai completar 71 anos no Brasil, no dia 23 de setembro. No dia 20, canta em São Paulo. No dia 26, no Rio. Entre um show e outro, tem uma folga razoável de 6 dias para uma festa de aniversário.

"Jotabê, aniversário eu comemorei até os 42 anos!", ele diz, com uma gargalhada, após ouvir a sugestão. "Acho que vou à Bahia, tenho uma namorada de 73 anos lá, ela canta para mim Mal Acostumado e a gente se diverte", continua, sem deixar a piada cair. "Brincadeira. No meu aniversário, pode ter certeza que eu vou estar em algum lugar lindo do Brasil, com as pessoas que eu quero."

Iglesias inicia em Brasília, no dia 13 de setembro, aquela que é sua turnê de despedida dos palcos. Após 46 anos de carreira, 300 milhões de álbuns vendidos, 80 discos lançados, shows para mais de 60 milhões de pessoas, o cantor espanhol que mais vendeu discos no mundo está pendurando as chuteiras. Ele falou ao Estado por telefone, da Espanha, na terça-feira.

Divulgação
Iglesias. "Julinho, tive meus 3 filhos ouvindo sua música", me dizem na rua em Manaus"

Primeiro de tudo, o que está levando você a anunciar sua aposentadoria?

O que acontece... Veja, agora mesmo eu queria fazer a maior turnê de minha vida pelo Brasil. Estou fazendo o possível. Mas não está sendo fácil para mim. Acabo de passar pela Nova Zelândia, Austrália. Você já ouviu falar do produtor Ken Ehrlich? Pois bem, o produtor dos Grammys. Ele está fazendo um especial sobre a minha vida, um programa de três horas sobre a minha carreira para a CBS americana. Tenho de cantar com jovens artistas americanos que gosto, mas não conheço. É um sacrifício ensaiar. E é quase impossível para mim fazer turnês extensas agora.

Mas você já foi goleiro, tem uma reputação de esportista.

Eu a mantenho. Quero muito ir a Natal, no Rio Grande do Norte, e correr 20 km numa daquelas praias maravilhosas. Conheço muito o Brasil. A primeira vez que fui ao Brasil foi em 1972, quando você provavelmente não pensava em nada ainda. Mas não vou parar de cantar. Se eu paro, morro. Vou cantar todos os dias da minha vida, porque senão eu não existo. Eu morro em vida. Mas não vamos falar na morte.

A CBS estima que você é o artista espanhol que mais vendeu discos na História.

Não sei se é verdade. Os números não são tão importantes quanto a vida. Veja, eu conheci artistas maravilhosos no Brasil: Chico Buarque, Caetano Veloso. Esses artistas não são números. A arte é uma coisa mais importante. Os números só importam quando continuam.

No seu discurso de despedida, você disse: "Comecei há quase 45 anos com uma guitarra, uma voz frágil, débil, que insinuava pequenas histórias que se converteram depois em partes emblemáticas de minha vida".

É verdade. Nós somos cantores de pequenas histórias simples que chegam às pessoas e elas as identificam com um monte de coisas de suas vidas. Quando um cantor assim tem muitas músicas, a vida é mais longa. Vou cantar até os 132 anos, em um pacto com o Diabo. E depois renascer. É bonito isso de renascer nas almas das pessoas.

As canções, de certa forma, garantem sua imortalidade...

Não sei se é verdade. O que sei é que, quando vou a Manaus, as pessoas me param nas ruas e dizem: "Julinho, como está? Tive 3 filhos ouvindo suas músicas! Casei com minha mulher ouvindo suas músicas! Eu digo o seguinte: só sou responsável por 20% disso".

Quantos filhos você tem?

Tenho 347 filhos. Hahahaha. Não, 8 filhos...

Você cultivou, em sua carreira, uma imagem de macho man, de amante latino.

Sou fraquinho. Amo as mulheres. Tudo que aprendi em minha vida foi com as mulheres. Não posso pensar no amor sem pensar nas mulheres que o fizeram ter sentido.

Foi traído alguma vez?

Traído? Toda minha vida. A traição é muito atrativa. Fui traído muitas vezes, graças a Deus! Foi assim que escrevi minhas canções mais famosas. Eu acho que não sermos traídos é um sonho, porque os homens e as mulheres têm a traição na cabeça. Ocorre que aprendemos a não consumá-la.

Estão dizendo que esse vai ser o seu show tecnicamente mais sofisticado. É verdade?

Sim, É o show com a parte técnica mais refinada de toda minha vida. Aí no Brasil vou cantar mais em português que em outras línguas. Nunca fui um estrangeiro em seu país. Não há cantor estrangeiro que tenha cantado mais em português do que eu.

Você acompanhou a Copa?

Sim. O futebol é uma coisa muito malvada, os resultados ficam para sempre. Não acho que a Espanha perca sempre de 5 a 1 para a Holanda. Foi um dia de merda. Assim como não acredito que o Brasil perca de novo da Alemanha de 7 a 1. Mas são os resultados que ficam na memória.

O rei Juan Carlos cunhou aquela frase "Por que no te callas?". Para quem você a diria?

Aí é difícil... Eu cantei um mês e meio no Oriente Médio, no Norte do Líbano, em Israel. Canto muito em lugares em conflito. Não posso me acostumar com a matança de pessoas. Quero que se calem os sons das bombas, das pistolas, das coisas que matam.

O que você pretende fazer nos próximos 10 anos de sua vida?

Viver. Sentir. Mesclar as cores mais bonitas da vida. Aprender. Ensinar. Aprender a aprender.