AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO

Jovens artistas do continente trocam experiências sobre valor da música

Em turnê, Orquestra das Américas se une a jovens artistas brasileiros

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 05h00

Durante o ensaio no Auditório Ibirapuera, o maestro interrompe a orquestra logo após o solo do fagote. Segue-se um breve silêncio, os músicos se entreolham: o que teria acontecido? “Uau. Parabéns, que belo solo, não?”, diz Carlos Miguel Prieto, arrancando gritos de bravo da orquestra. Dias depois, o cenário é o Instituto Baccarelli e o instrumento, o clarinete. “Por favor, por favor, um minuto”, interrompe o regente. “É raro ouvir um solo como esse, com essa riqueza de coloridos, obrigado.”

Não é só no hábito de interromper não com broncas, mas com elogios, que o trabalho da Orquestra das Américas soa diferente. O grupo esteve ao longo da última semana no Brasil, convidado da temporada da Cultura Artística, pela qual se apresentou na terça e na quarta, na Sala São Paulo. É formado por jovens músicos de todo o continente americano, selecionados em audições. E, após um período de duas semanas de aulas e ensaios, parte em turnê – este ano, ao lado de artistas como a violinista Nadja Salerno-Sonnemberg e o pianista Ricardo Castro.

“A exigência de qualidade não é negociável. Mas o clima precisa ser diferente. São várias culturas reunidas em um grupo, várias origens. O sentido precisa ser a troca de experiências. Energia, camaradagem”, explica Prieto. “A orquestra, aqui, é o espaço de união entre diferentes sociedades e realidades. É a imagem bem acabada de que o resultado final nasce do trabalho em equipe.”

A viagem pelo Brasil começou no fim da semana passada, quando o grupo se uniu à Orquestra Jovem do Estado de São Paulo para concerto no Ibirapuera. Pouco antes do primeiro ensaio, um pequeno grupo de músicos se reunia para uma conversa. Hermann Schreiner é argentino de Buenos Aires; Ryellen Joaquim, do conjunto brasileiro, nasceu em Campos dos Goytacazes. “É uma experiência de troca”, diz Hermann. “Você conhece a realidade do outro e com isso entende um pouco da sua”, completa Ryellen.

“Veja o conturbado ambiente político em todo o continente. Estudar, ensinar, entendendo a música como ferramenta de resistência é um conceito com o qual todos nós podemos nos relacionar”, emenda Hermann.

A preocupação política talvez seja pontual, mas a ideia de que a atividade do músico inclui uma reflexão a respeito dos sentidos do fazer musical é um dos pontos-chave da Orquestra das Américas, assim como de projetos brasileiros, como a Orquestra Jovem, o Neojiba ou o Instituto Baccarelli. “Quando você toca em um país como a Jamaica, por exemplo, sem tradição de música clássica, ou quando recebe músicos que têm atuado na consolidação de projetos em lugares como Honduras, essa vocação se mostra fundamental”, explica Prieto. Administrador do grupo, Mark Gillespie segue na mesma linha. “Isso nos levou a criar o programa Global Leaders, que busca formas de se pensar a transformação por meio da música”, diz.

Na última segunda-feira, os músicos estiveram no Instituto Baccarelli, projeto de formação musical em Heliópolis. Em uma manhã, foram muitas as atividades. A começar por aulas, dentro da ideia de que, apesar de jovens, há informações a serem trocadas. “Fiquei muito contente, são músicos muito bons”, conta Gabriel Polycarpo, gaúcho que integra este ano a Orquestra das Américas, e orientou um grupo de três violistas, focando em questões como a produção do som. Contrabaixista da Orquestra Juvenil Heliópolis, Adans D’Angelo, há 14 anos no instituto, também participou das masterclasses. “É interessante. Eles também são jovens, passaram faz pouco tempo pelo que hoje passamos e então tem uma troca de experiências diferente, eles têm na cabeça ainda frescas as dificuldades que os estudantes enfrentam”, comenta.

Em seguida, grupos de câmara do Baccarelli e da Orquestra das Américas se revezaram em um concerto aberto a todos os alunos e professores. E, para encerrar a manhã, o grupo se uniu à Sinfônica Heliópolis para um ensaio conjunto, comandado por Prieto e pelo maestro Edilson Venturelli. Além da sinfonia de Dvorák, a abertura de O Morcego, de Strauss Jr., parte do programa que o grupo de Heliópolis toca hoje no Teatro Municipal, e música brasileira, um arranjo de Aquarela do Brasil e Tico-Tico no Fubá. Entre elogios e correções, Prieto divertia-se. “Quando um músico perde a alegria de tocar, perde muita coisa junto”, explica. Talvez por isso, a todo instante pedia aos artistas que tocassem sorrindo. “Claro, quando for possível. Tocar oboé e sorrir é difícil, não?”, ele brinca. “Mas, se você conseguir, pagamos em dobro.” Os músicos caem na gargalhada, antes de voltar a tocar. Sorrindo, claro. 

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