REUTERS/Bruno Kelly
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Jovem de favela carioca transforma rua em palco com apresentações em violino remendado

Paulo Maurício Dias começou tocando violino nas ruas e hoje estuda na tradicional Escola de Música Villa-Lobos

Reuters, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2017 | 18h33

Com um violino remendado e um repertório que vai de Vivaldi e Bach a trilhas sonoras de novelas e filmes populares, Paulo Maurício Dias, 24, encanta multidões e profissionais da música. 

O jovem começou a tocar violino aos 9 anos de idade em um projeto social da comunidade Santa Marta, favela da zona sul do Rio de Janeiro, onde mora. Logo começou a tocar na rua como forma de pagar por aulas particulares de violino e ajudar nas despesas de casa. “Eu gosto dos sentimentos que as músicas passam e de como as pessoas reagem com elas”, afirma.

Foi graças a uma dessas apresentações que Maria Bourgeois, presidente da ONG Comitê pela Vida, conheceu o jovem músico. “A calma dele tocando músicas maravilhosas no meio da rua assim, sozinho. Eu achei um deslumbramento”, relembra Bourgeois. “Ninguém parava, só jogava o dinheiro no chão. Eu falei: ‘eu vou mudar esse negócio.”

Assim, ela decidiu ajudá-lo a ingressar na tradicional Escola de Música Villa-Lobos, onde Dias ganhou uma bolsa de estudos integral. Hoje, ele chega à escola às 8h30 — com um violino novo a tira colo — para estudar teoria musical, vocal e outros instrumentos.

“Na rua eu aprendi muito com muitas pessoas, mas não são informações exatas, são experiências próprias”, diz. “Aqui é uma coisa que vai me dar uma visão melhor do que eu estou fazendo. Não é só o sentimento, é o raciocínio.”

A professora Fernanda Canaud recebeu o rapaz em seu primeiro dia na Villa-Lobos e conta que ficou impressionada com o seu repertório. “Quando ele empunhou o violino e tocou, ele puxou da manga um repertório que não faz parte da vida da comunidade”, afirma. “Ele puxou rapsódia de Brahms, rapsódia de Paganini, um repertório de violinistas de grande envergadura.”

Se não fosse pela música, Dias reconhece que sua vida poderia ter tomado um rumo diferente, marcado pela violência e a criminalidade. “Imagina você ver todo mundo com tênis legal, com blusa legal, todo mundo com dinheiro... Que garoto de 15 anos, que não tem sorte na vida, não iria querer topar ganhar muito dinheiro e ter as garotas mais bonitas? Acho que se não fosse a música, acho que eu teria aceitado”, diz.

Para o futuro, o músico sonha em trabalhar com cinema e ajudar aqueles que começaram como ele: “[Sonho] lá na frente poder ter uma orquestra com a galera da minha comunidade. Ensinar a galera que realmente precisa de uma oportunidade”.

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