Felipe Barros
Felipe Barros

Jovem Coruja BC1 sente o hype do rap e escapa ileso

Rapper apontado como revelação lança ‘No Dia dos Nossos’, o disco de estreia, e combate as próprias angústias

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

19 Novembro 2017 | 06h00

“Vejo no Coruja BC1 muito de mim no começo de carreira”, diz Emicida sobre o rapper de 23 anos. “Ele tem, hoje, a mesma febre que eu tinha há uns dez anos. Conheci por um vídeo de rap clássico, com ele e a turma lá de Bauru, todo magrinho. Estou sempre de olho nessa molecada nova.” Emicida dá a bênção e Coruja BC1, apelido ganhado ainda na infância, voa. Nascido em São Paulo e criado no interior do Estado, Gustavo Vinícius prefere o nome artístico. “Até a minha mãe me chama de Coruja”, brinca. É, desde o ano passado, um dos nomes a ser observado pela cena. No fim de 2016, lançou Passando a Limpo, um single com o beatmaker e produtor Skeeter, para introduzir o que viria a ser No Dia dos Nossos, o álbum de estreia. 

“Levei três anos fazendo esse disco”, conta o rapper, na quinta-feira, 16, um dia antes da chegada do álbum, lançado pela Laboratório Fantasma, às plataformas digitais – o formato físico estará nas lojas a partir de 8 de dezembro. “São muitos detalhes, de batidas, de produção. Quando anunciamos o projeto, não tínhamos investidores. Éramos nós, mesmo. E só.” 

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Coruja tem um plano, uma visão de carreira. “Me preocupei bastante com esse disco, porque queria dar início à minha discografia”, explica. “É um álbum que mostra a minha história até aqui. Apresenta as minhas ideias e se encaixa nessa minha determinação.” 

No Dia dos Nossos é um disco que rebate o mundo ao seu redor. A partir da canção de abertura, chamada N.D.D.N. – sigla também usada em um formato encurtado do nome do álbum –, cujo vídeo coloca o rapper amarrado a uma cadeira, cercado por agressores que, ao ouvirem suas rimas, passam a tomar consciência. E Coruja é direto, sem abrir mão da fúria guardada dentro dele. “Se eu me ajuntar com meus amigo, eu fiz panela / Se eu vencer com meu talento, eu sou vendido / Se aparecer na mídia, esqueci a favela / E se eu abraçar opinião de terceiros, eu tô f...” , diz uma das estrofes da música. “Revolução pra alguns é nascer e morrer na m...” / Falecer no anonimato com conta e um sonho frustrado / Já que viver do que ama por aqui é pecado / Que é bonito, a gente lavar prato e ser empregado / É bonito, a gente ser peão de um engravatado / É bonito, a gente ser alvo fácil no enquadro”. 

E essa é só a primeira música – mas também é a mais agressiva. Coruja descreve No Dia dos Nossos como um filme que passa pela sua cabeça. Nasce desse lugar e momento no qual, diante da atenção recebida, ele também vivia dias de questionamento. Para onde ir, no rap, afinal? Qual caminho seguir. 

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Coruja faz da sua busca pela tranquilidade a trajetória deste álbum. Na segunda metade do disco, os beats arrefecem. A angústia também. Eclesiastes (com vocais do ótimo Godô), Escute-Me (uma bela surpresa com o refrão cantado por Tiê) e De Fã para Fã, Coruja discursa sobre a aceitação. O ápice se dá com Roteiro de Chaplin, a última do álbum. A narrativa é fluida, sem maniqueísmos. 

Aos 23, Coruja exibe maturidade acima da média como reflexo da vida que teve. Perdeu o pai aos 13 anos, saiu de casa aos 18. Dormiu na rua, viveu de favor. “Não estou dizendo que sei tudo. Tenho muito a aprender”, diz. “Mas o que sei é que a gente não é 100% amor nem 100% ódio. Somos equilíbrio.”

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