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Entrevista.

Cantor fala sobre o novo álbum 'Bailar en la Cueva'

Jorge Drexler lança disco para dançar

João Fernando

03 Junho 2014 | 19h 33

Acostumado a ficar quieto com seu violão no palco, Jorge Drexler acaba de lançar o disco Bailar en la Cueva, em que faz um convite ao público para dançar. E deu resultado. "Nesta turnê é uma novidade. As pessoas começam o show sentadas. Aí, uns casais se levantam e começam. Na última meia hora, está todo mundo dançando”, conta o uruguaio, que começou as apresentações no álbum pela América do Sul, sem passar pelo Brasil. "Acho que vou em novembro, mas não tenho certeza", avisa.

Bailar en la Cueva - em português, dançar na caverna - traz faixas que inspiram mais passinhos que o anterior Amar la Trama (2010). Uma delas, Universos Paralelos, fez com que ele se arriscasse em uma cômica coreografia do videoclipe, no ar na internet. A nova fase, porém, não o fez querer mudar o estilo no palco. "É uma transição. Não quero perder o lado íntimo do show. Gosto da experiência completa. É um show para dançar, cantar e escutar. Temos usado o som de Bailar em la Cueva nas músicas antigas. Em geral, show com banda é mais expansivo."

Na contramão, estão canções como Bolívia, em que descreve a trajetória dos avós judeus, que fugiram do nazismo na Europa e se refugiaram primeiro no país andino. Nela, há a participação de Caetano Veloso, surgida de maneira espontânea em uma ida à Colômbia, onde parte do disco foi gravada. "Ele estava apresentado o Abraçaço e eu estava lá. Nossas equipes foram jantar juntas e alguém perguntou quando haveria uma colaboração entre nós. Ele disse que gostaria, eu mandei a música. O Moreno (Veloso, filho) fez a parte da gravação e mandou uma mensagem dizendo que tinha gostado da minha cumbia tropicalista."

Drexler tem uma extensa lista de parcerias com brasileiros, que inclui Arnaldo Antunes, Ney Matogrosso, Maria Rita e Paulinho Moska. "Adoraria gravar com Chico Buarque e Gilberto Gil. Meu sonho é com João Gilberto. Não custa sonhar", contou ao Estado, por telefone. Um dos poucos artistas latinos a cruzar a fronteira do mercado do País, ele reconhece que as nações vizinhas consomem mais música brasileira do que os tupiniquins no movimento inverso.

"O Brasil cria referências de si mesmo por sua condição geopolítica e do idioma que nos separa. Tem dimensões que o fazem autônomo. Em princípio, poderia não precisar de uma cultura exterior, pois tem a própria. Na música, é muito rico. Hoje, em que o mundo se comunica mais, o Brasil já se deu conta da importância de se movimentar no que é latino-americano. Há o Grammy latino, há um mercado nos EUA. Estou orgulhoso de estar entre as exceções da música em espanhol que chega. Comecei a trabalhar aí há 12 anos."

Divulgação
Drexler é um dos poucos artistas latinos a cruzar a fronteira do mercado do País

Com parentes maternos no Rio Grande do Sul, o uruguaio diz ter proximidade com o País e começa a falar em português durante a entrevista. “Nem sei quando aprendi. Nunca tive aula de português. Comecei a falar sem perceber. Meu professor foi o João Gilberto”, brinca. “Minha relação com Brasil é antiga. Por toda a minha vida, escutou-se música brasileira em casa. Com 18 anos, comecei a viajar sozinho por aí, de ônibus e de carona”, relembra, retomando o castelhano. “O idioma é um signo da identidade que os brasileiros têm zelo."

É bom que não funcione automaticamente o pão e circo. O futebol é maravilhoso, mas tem de se pensar sobre as prioridades de todo mundo

Jorge Drexler foi um dos escalados para uma campanha do governo brasileiro com artistas latinos que incentiva o turismo dos vizinhos de continente por aqui. Assim como um de seus parceiros musicais, o argentino Kevin Johansen, ele percorre diferentes pontos do País ao som de uma canção autoral em que derrete-se pela hospitalidade com que foi recebido.

Durante a Copa, o cantor terá de torcer para sua seleção do coração na Espanha, para onde se mudou e continuará sua turnê. Sem espírito de rival, ele afirma não ter ideia de uma possível reedição da derrota dos brasileiros contra os uruguaios no Maracanã, como aconteceu em 1950, ano em que o campeonato foi sediado por aqui. “Eu só tenho parte da resposta. O Uruguai, digamos, está bem para o mundial, tem um bom time. Não vai ser fácil para nenhum dos dois. Mas, na Copa, nunca se sabe. Tampouco em 1950 o Uruguai jogou bem. Tem muita vontade saber como vai ser."

Apesar de ter visto as notícias sobre as manifestações contra o campeonato, conta não saber tanto sobre o assunto. "Tenho pouca informação para falar com assertividade. O que posso dizer é que me parece bom que as pessoas reflitam sobre o destinos dos gastos públicos, me parece importante, uma coisa sã", analisa ele, que não se opõe aos protestos. "É bom que não funcione automaticamente o pão e circo. O futebol é maravilhoso, mas tem de se pensar sobre as prioridades de todo mundo. Há muita gente contra", opina.

Radicado na Europa desde os ano 1990, quando deixou Montevidéu, Drexler mantém os laços com seu país de origem, que costuma visitar quatro vezes ao ano. A visibilidade que a nação vizinha tem ganhado desde a eleição do presidente José Mujica, que descriminalizou o uso de maconha e aprovou o casamento gay, é motivo de comemoração para o cantor. "Estou orgulhoso desse momento do Uruguai, que, por meio de Mujica tem jogado bem as cartas no cenário mundial. É um país que não tem peso econômico nem geopolítico, mas oferece uma imagem de liberdade, educação, de país progressista, seguro", defende.

É bom que não funcione automaticamente o pão e circo. O futebol é maravilhoso, mas tem de se pensar sobre as prioridades de todo mundo

Tecnologia. No ano passado, Jorge Drexler lançou o projeto N, um aplicativo para celulares e tablets em que o usuário escolhe a ordem dos versos de músicas ou quais instrumentos quer ouvir enquanto ele e seus companheiros cantam. "Foi um projeto cerebral, com referências à poesia concreta brasileira, do Haroldo de Campos e do (Décio) Pignatari, de que gosto. Gosto de ver a poesia tomando forma", explica, retornando às referências à arte brasileira. "Outro dia, em Montevidéu, cantei Como Uma Onda no Mar, de Lulu Santos e Nelson Motta. Nelson e eu estamos trabalhando juntos em um projeto e cantei em homenagem a ele", justifica.

Vencedor de um Oscar pela trilha de Diários de Motocicleta, o uruguaio teve a primeira experiência como ator em A Sorte em Suas Mãos (2012), de Daniel Burman, que gostaria de repetir. "Adoraria. Deixo um chamado aberto para os diretores de cinema. Posso fazer um sotaque brasileiro", diverte-se, em português.

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