Sylvia Sanchez
Sylvia Sanchez

Jonavo lança disco com potencial para virar ‘case’

‘Casulo’, despudoradamente pop, entre o folk e o rock, é bem construído e cheio de estratégias para usar as redes como fazem os roqueiros indie

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 06h05

Sempre houve algo nos shows do trio Folk na Kombi indicando ali três vidas criativas que poderiam caminhar sozinhas. Bezão fez isso recentemente com a parceira Nô Stopa no ótimo álbum Duas Casas. Felipe Camara prepara seu disco para breve. E Jonavo aparece agora com Casulo, um salto de composição e qualidade de gravação que pode fazer de seu trabalho um “case”.

A produção de Wlajones Carvalho mantém o folk nos violões de aço, talvez sem a mesma obrigatoriedade do trabalho em grupo. É um disco pop, de pegada roqueira e comunicação imediata, e tem no despudor de assumir essa condição sua maior virtude. Jonavo constrói sempre canções, de amor ou não, daquelas de se fazer ao violão na sala de casa, a mesma que ele chama de Casulo, o nome do disco.

Casulo soa algo nos anos 90, a última década do pop rock de rádio. É lá que parece ter suas referências maiores, e não entrega logo a face mais forte do álbum. A introdução de Beijo Beijo, nas cordas de Diogo Baroza, faz isso melhor, com uma steel guitar que amarra as ideias no universo folk. A voz de Renato Teixeira, pequena e avassaladora, engrandece o faroeste de Musicando o Vento; e Slackline in Love, mais adolescente e com uma segunda parte encantadora, mostra Mogena (Maria Eugenia) dividindo vozes com o irmão cheia de carisma. Do trabalho com o Folk na Kombi são aproveitadas Bom Dia, de refrão que faz o corpo querer decolar; e a stoniana Caipira do Mato, com o reforço da banda Corcel. 180 Fios tem a maior delicadeza do disco, com um acordeom de Regis Santos que faz a diferença. Ainda tem Barriga na Minha, outro hit dos tempos de se cantar junto. Um discaço. O show de Jonavo com todo o repertório de Casulo será neste sábado, 14, na casa Z Carniceria.

Jonavo vem em 2011, de Campo Grande para São Paulo, já com uma carreira iniciada. Depois de cursar três anos de jornalismo, vive em um pequeno apartamento na Liberdade, sozinho, aos 22 anos, pensando em como furar o bloqueio para emplacar a música que brota em um primeiro disco.

Sete anos depois, suas estratégias são outras. Vivendo em um apartamento próximo à Praça da República, ele criou seu próprio QG, com uma pequena equipe da qual controla tudo de perto. Além do conteúdo artístico, virou seu próprio empresário. “Se não fizesse assim, não iria conseguir.” O apartamento foi redecorado com a ajuda do pai, as fotos de divulgação são cheias de conceito e os vídeos são editados por ele mesmo para garantir vida nas redes.

O caso de Tiago Iorc ainda parece único nesse meio: uma proposta pop/romântica que usa dos meios independentes para formar uma base de fãs abrangente a ponto de criar um circuito autossustentável de shows. A linguagem das redes suporta bem roqueiros indies, novos rappers e esporádicos nomes de massa bem conduzidos, como o de Anitta. Outras linguagens penam mais para fazer essa roda girar, e é aí que Jonavo pode estar chegando. O disco tem potencial, mas é preciso como ninguém saber com quem ele está falando. 

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