TIAGO QUEIROZ
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Joe Cocker aprendeu lições do soul, da disco music, do jazz, do blues e levava tudo ao palco

Cantor Joe Cocker, um dos maiores intérpretes da música moderna internacional, morreu no domingo, 21, em sua casa no Colorado

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

22 Dezembro 2014 | 17h14

O cantor inglês Joe Cocker, um dos maiores intérpretes da música moderna internacional, morreu no domingo, 21, em sua casa em Crawford, no Colorado. Ele tinha câncer no pulmão. A morte foi confirmada por seu agente, Barrie Marshall.

Ele se tornou universalmente conhecido ao cantar uma versão de With a Little Help From my Friends, dos Beatles, no Festival de Woodstock, em 1969. Sua voz rouca, seu estilo trágico e sua interpretação lancinante criaram novos paradigmas para a interpretação na música pop. “Não sei por que escolhi With a Little Help From My Friends - eu queria uma bem conhecida e meio que espremer ela, sacou? Era o último número do show e senti que tínhamos nos comunicado com alguém”, ele disse, sobre a canção que o projetou mundialmente.

Em 1975, uma outra interpretação dele, You Are So Beautiful, se tornou novo hit planetário, e em 1983 ele ganhou um Grammy pelo single Up Where We Belong, um dueto com Jennifer Warnes. Em 2007, ele recebeu uma comenda do governo britânico no Palácio de Buckingham por sua contribuição à música.

Sua última passagem pelo Brasil foi em 2012, quando se apresentou para 5 mil pessoas na Vila Olímpia. Havia então 21 anos que não cantava aqui (esteve no Rock in Rio, em 1991) e veio com uma banda que incluía um tecladista, um organista, guitarrista, baterista, baixista e duas fenomenais cantoras de apoio (Nichelle Tillman e Andrick Brown). Ele cantou duas músicas do disco que lançou naquele ano, o derradeiro, Hard Knocks, e de resto mandou um desfile de hits: Unchain My Heart (que Ray Charles celebrizou), You Can Leave Your Hat On, Cry Me A River, Feeling Alright, Shelter Me, You Are So Beautiful, Unforgiven, entre outras.

Seu show era basicamente uma transfiguração pessoal do soul e do blues, mas havia também um condimento de funk que eletrificava a plateia, e que ele imprimia a canções especiais, como Come Together, dos Beatles. Deixou no Brasil uma sensação de êxtase coletivo, as pessoas saíam do show com sorrisos de satisfação de orelha a orelha, aquele jeito glorioso de quem está saciado, mas não empapuçado. 

Musicalmente, Joe Cocker aprendeu lições do soul, da disco music, do jazz, do blues, e tudo isso comparecia em seu amálgama. “Eu amava James Brown. Nós fizemos uma turnê juntos pela Europa pouco antes de ele morrer, com uma orquestra, e ambos estávamos no programa. Toda noite ele vinha ao meu show e a gente dividia o microfone. Acho que todo cantor de R&B dos Estados Unidos tem um débito para com James Brown, assim como eu tenho um débito para com Ray Charles e também para com Marvin Gaye”, ele disse, ao Estado.

Não eram só as baladas que ele desfiava fibra por fibra. A voz de Joe Cocker era capaz de abarcar qualquer coisa, de Honky Tonk Women (dos Rolling Stones) a Feelin’ Alright (do Traffic). Ele cantou Could You Be Love, reggae de Bob Marley, e Don’t Let Me Be Misunderstood, que foi hit da era disco com o Boney M.; além de triturar Can’t Find My Way Home, sucesso do Traffic, também animava a trilha yuppie do filme 9 e 1/2 Semanas de Amor com You Can Leave Your Hat On. “Apesar de ele ser um garoto inglês de Sheffield, de 24 anos, sua voz é a de um negro sulista de meia-idade”, espantou-se um crítico de música ao vê-lo cantar pela primeira vez.

Influenciou artistas posteriores que não têm nada de ordinários, como Bryan Adams, a canadense k.d. lang, a guitarrista Deborah Coleman e até contemporâneos como Dr. John e Van Morrison. Joe, no palco, transmitia a ideia de uma viagem sem retorno, uma grande aventura pela alma. “Quando interpreto canções como You’re So Beautiful, minha proposta é reinventá-la a cada noite. Isso é interpretação, trazer emoção à sua voz. Eu tenho uma boa banda, que sabe o que eu quero. Se estou ainda cantando após 45 anos, é porque talvez eu possa transformar uma canção em algo especial. Tento comunicar um sentimento por meio de uma canção, o que não é fácil”, afirmou. 

Nascido John Robert Cocker, teve sérios problemas com drogas na época da contracultura, problemas que aumentaram com o abuso de substâncias alcoólicas. “Não havia rehab na minha época. Ninguém chegava para mim e dizia: ‘Joe, você precisa parar com isso’”, ele disse, também em entrevista ao Estado.

Ele dizia que nunca tentara se acercar do mistério que o fez se tornar tão íntimo do american songbook, mesmo tendo nascido tão longe do Mississippi. “Nunca tentei entender isso, mas sou do Norte da Inglaterra. Quero dizer, os Beatles eram de Liverpool, que não é tão distante de Sheffield. Ali, fomos muito influenciados pelo blues de Chicago. Acho que carreguei aquilo comigo em minha voz. Amo Ray Charles, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson. Sou um ‘bluesband guy’.” (Atualizado às 18h19).

Ringo e Clapton lamentam perda do grande amigo

“Adeus e que Deus bendiga Joe Cocker, é o desejo de um de seus amigos. Paz e Amor”, disse Ringo Starr sobre a morte do cantor. “Descanse em paz”, escreveu Eric Clapton. Joe Cocker integrou o maior clube de estrelas da música. Isso começou a ser gestado em 1960, quando ele formou seu primeiro grupo de música, The Cavaliers. Tinha então 16 anos. O sonho só duraria um ano: a banda acabou e ele foi trabalhar de instalador de gás. Mas não largou a música: criou depois Vance Arnold and the Avengers, influenciado pelo fascínio que já tinha pela cultura americana. Finalmente, em 1966, achou o formato que o consagraria, ao lado da Grease Band – ao lado do pianista Chris Stainton. O agente do Procol Harum os ouviria e o resto é história. Voltaria a ser cultuado em 1988, quando colocaram sua versão de With a Little Help from My Friends na trilha do seriado de TV Anos Dourados.

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