Ice Cube, de crítico feroz da polícia a líder policial

Na sequência milionária de 'Anjos da Lei', o rapper com cara de mau interpreta um capitão da polícia

Ian Spelling, The New York Times

23 Junho 2014 | 02h06

Em se tratando de escolhas de atores para determinados papéis, temos os acertos, as grandes sacadas e, por fim, a opção perfeita. Um exemplo desta última: Ice Cube, o rapper da eterna cara de mau, antigo membro do influente grupo de hip-hop N.W.A. e coautor da controvertida canção Fuck tha Police (1988), escolhido para interpretar um capitão de polícia, mais especificamente o capitão Dickson, no filme Anjos da Lei (2012).

Foi Dickson, com sua constante cara de mau e sua metralhadora de xingamentos, que fez os relapsos policiais Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) aceitarem uma missão como agentes infiltrados na tentativa de solucionar um caso envolvendo uma nova e popular droga numa escola da cidade.

"Se a ideia era conseguir alguém capaz de dizer barbaridades o bastante e manter Channing Tatum e Jonah Hill na linha, eu era mesmo a opção certa", diz Cube. "Foi muito divertido. Jonah tinha me contado a respeito do primeiro filme cerca de um ano antes de começarmos as filmagens, e ele estava decidido a me ver interpretando o papel do capitão Dickson." "Anjos era uma grande brincadeira", diz ele. "Um filme divertido sob todos os aspectos. Quando chegamos ao set de filmagens e começamos a atuar, tive certeza que o resultado seria engraçado. Só pude confirmar essa impressão quando vi o filme pronto. Foi então que vi a maluquice que tínhamos produzido e soube que seria um sucesso." O filme teve renda de US$ 200 milhões em todo o mundo, e a Columbia Pictures logo aprovou a produção de uma continuação. Anjos da Lei 2 estreou nos cinemas americanos no dia 13, e nele o capitão Dickson manda Schmidt e Jenko numa nova missão como agentes infiltrados, desta vez no campus de uma universidade.

Cube falou sobre a continuação, dirigida por Phil Lord e Chris Miller, durante uma conversa pelo telefone do quarto da casa que ele divide em Los Angeles com a mulher, Kimberly, e os quatro filhos.

"É um filme maior e melhor", diz Cube. "Conseguimos uma igreja maior e melhor dessa vez. Como se trata de uma continuação, Dickson tem mais dinheiro. Ele tenta fazer com que esses sujeitos se infiltrem na faculdade, se aproximem dos vilões e identifiquem o fornecedor."

"Channing, Jonah e eu seguimos o roteiro e, em seguida, Phil e Chris deixaram que improvisássemos." O filme foi rodado em formato digital. "Com isso algumas tomadas foram feitas em 10 minutos. Foram cenas longas porque eles deixavam a câmera rodando enquanto encenávamos tomadas e piadas diferentes. Foi um dos filmes mais malucos dos quais participei, por causa do processo de filmagem, mas foi divertido."

"Rodamos em New Orleans, em Porto Rico. Desta vez foi tudo mais relaxado. Todos estavam mais à vontade. Phil e Chris estavam tranquilos com o processo, conosco, e isso fez tudo ser mais divertido agora." O lado irônico da escolha de Ice Cube para o papel de Dickson vai além do fato de ele ser o sujeito que cantava Fuck tha Police. Em 1988, quando o N.W.A. dominava o cenário do rap e a música serviu como canção de protesto do momento, a última coisa que Cube esperava fazer era atuar. Hoje, 26 anos mais tarde, ele chegou aos 44 anos com várias participações em filmes e um número ainda maior de sucessos.

Para alguém que nunca pensou em ser ator, Cube se mostrou surpreendentemente versátil. Seu trabalho foi elogiado em dramas como Os Donos da Rua (1991) e Três Reis (1999), provando seu talento em comédias como Sexta feira em Apuros (1995), a sequência filmada em 2000, Um Salão do Barulho (2002), Um Salão do Barulho 2 (2004). Mas ele também foi o astro de comédias para a família como Querem Acabar Comigo (2005) e Uma Casa de Pernas pro Ar (2007). O mais recente filme de Ice Cube, Ride Along (2014), o levou a fazer dupla com Kevin Hart, mais uma vez como policial durão, e também alcançando o sucesso nas bilheterias. Sim, a continuação já está sendo preparada, e deve chegar às telas em 2016.

"Eu tinha curiosidade para saber como seria o trabalho como ator", admite Cube, "mas não me sinto como um alienígena nem tenho a sensação de que não deveria estar fazendo aquilo. Brincávamos de polícia e ladrão na infância. Às vezes eu era o policial, e gostava daquilo. Gosto de trabalhar com cinema. Irônico seria se eu fosse um policial de verdade".

Cube ri, mas a graça termina quando ele é indagado a respeito do impacto de Fuck tha Police. A incendiária canção denuncia a brutalidade da polícia, o tratamento dispensado às minorias raciais e a suposição de muitos policiais segundo a qual um jovem negro não passa de um crime esperando para acontecer. Passados vinte e cinco anos, será que a situação melhorou? "Eu diria que não", responde Cube, que deixou o N.W.A. em 1989 e deu início a uma produtiva carreira de artista solo e produtor. "Acho que ainda há questões a serem resolvidas entre as pessoas. Há ricos e pobres, e me parece que os mesmos problemas continuam ocorrendo." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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