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Wilton Junior / Estadão

ENTREVISTA: Hermeto Pascoal

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Hermeto Pascoal comemora 80 anos no palco

Músico vem a São Paulo para fazer dois shows; ele recebeu o 'Estado' em sua casa, no bairro de Bangu, zona Oeste do Rio

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Julio Maria / BANGU (RJ)

18 Março 2016 | 06h00

Antes da música, eram apenas sons. Não havia piano nem violões, rádios nem cantoria. A infância de Hermeto Pascoal vivida no final dos anos 30 em Lagoa da Canoa, antigo município de Arapiraca, interior de Alagoas, seria no mais profundo silêncio se o bruxinho albino não tivesse vindo ao mundo de ouvidos bem mais abertos do que os olhos. A música de Hermeto estava na fala dos adultos, no metal batido do avô ferreiro, no ritmo das gotas da chuva e na melodia dos pássaros. Quando a mãe viu seu menino tocando algo parecido com Asa Branca em peças de ferro amarradas a um varal, correu para pedir socorro ao avô: “Venha, pelo amor de Deus, o menino ficou louco.”

A mãe tinha razão. Quase oitenta anos se passaram e Hermeto continua louco. Miles Davis o chamou de “crazy albino” depois de gravar com ele duas músicas, chamá-lo para integrar seu grupo e ouvir um “não” que o desconcertou para sempre.

Músicos não entenderam sua linguagem e professores se recusaram a tê-lo como aluno. Chick Corea, Stan Getz, John McLaughlin, ninguém dormia muito bem depois de dividir um palco e ou um estúdio com ele.

Hermeto completa 80 anos no próximo dia 22 de junho. Vai fazer shows e exposições pelo Rio de Janeiro para mostrar suas centenas de músicas escritas em objetos como chapéus, bandejas de restaurante, revistas de bordo e guardanapos. As mostras, por enquanto, estão confirmadas apenas para Bangu, Jacarepaguá e Madureira. Antes de tudo, faz em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, duas apresentações, amanhã (19) e domingo (20), dedicadas ao seu leal saxofonista Vinicius Dorim, morto em janeiro.

Ele vive há seis meses no apartamento do filho percussionista Fábio Pascoal, em um conjunto residencial de Bangu, na zona oeste do Rio. Vida nova para quem passou os últimos 12 anos em Curitiba casado com a cantora Aline Morena, 43 anos mais jovem. A separação foi amigável. “Ela vai estar no show com a gente, segue se apresentando com o grupo”. Sentado em sua sala, cheio de vitalidade e ainda capaz de se apaixonar pelo som dos disparos da máquina fotográfica da reportagem, Hermeto recebeu o Estado para esta conversa.

Quantas músicas já escreveu, Hermeto?

Mais de sete mil, umas sete mil e setecentas. Ou mais Quando pego um avião, por exemplo, e não tenho nada para fazer, uso as partes em branco das revistas para criar alguma música. Estou agora mesmo terminando uma que comecei em uma viagem dessas.

Mas toca tudo o que compõe?

Não, eu apenas dou para as pessoas tocarem. Meu prazer é escrever. Eu já pensei para que estou fazendo isso se não vou escutar nem 100 dessas músicas. Não sei. Deus não fez o mundo para os outros? Escrever música é minha primeira e segunda necessidades.

O senhor aprendeu música na escola?

Os professores não quiseram me ensinar porque eu sempre quis sentir antes de saber. Eles querem saber primeiro, mas o sentir está na frente do saber. Por que você vai duvidar do seu sentir? Quando faz isso, não dá liberdade para sua própria criatividade. Muitas pessoas duvidavam de mim, não acreditavam que eu havia feito as músicas que eu mostrava para elas. Até que um dia em que, anos depois, minha mulher Ilza, que já partiu desse mundo, me disse assim: “Loro, pense: a sua música, o seu maestro e o seu professor são o seu dom. Foi Deus quem deu a você.” Ela me acendeu de um jeito... Eu sempre me lembro de Ilza dizendo isso. Quem duvida de você no jornalismo não são os próprios jornalistas? Pois é, quem duvidava de mim eram os próprios músicos. “Esse cara doido que toca chaleira”, diziam. Sim, eu toco, mas toco uma chaleira bem afinadinha.

A saída, então, foi aprender sozinho?

Sim, mas é triste não ter na vida um guia, um mestre. Então, eu usei a própria música, ela mesmo passou a tirar minhas dúvidas. E então, ninguém acreditava também que eu não tinha professor. Quando era jovem, morando em São Paulo, tocava muito em orquestras sem saber ler, só improvisava. Certo dia fui tocar em um aniversário de casamento e lá veio uma velhinha com a partitura nas mãos me pedindo uma valsa. O trombonista amigo meu cantou a música no meu ouvido e eu saí tocando com meus acordes. No final, o maestro perguntou a ela o que havia achado, e ela disse: “Eu gostei, mas achei meio estranho, sabe maestro?”

O senhor parece muito bem de saúde.

Sim, agora aos 80 eu vou começar a contar os dias para viver, mais uns 400 anos está bom. Eu só escrevo partitura grande porque não enxergo muito bem, meus olhos ficam se mexendo para os lados. Mas veja a vantagem: quando estou sentado ao lado de uma mulher de saias, ela não sabe que um dos olhos está vendo suas pernas. Olha que maravilha.

O senhor parece ter uma relação religiosa com sua música...

Eu sinto a presença de pessoas que já foram quando estou no palco, para mim é normal. Eu nem digo mais. A turma chega mesmo. Não sou vidente, nada disso, apenas sinto, vejo. Às vezes, estou em um palco e chega o Tom Jobim, chega o Sivuca, o Dominguinhos. É algo natural para mim, mas não é coisa de religião. Minha religião é a música.

E como a música chega para você?

A música, para mim, está em todos os lugares. Eu transformo qualquer coisa em música.

Quando perguntamos aos artistas quem mais influenciaram suas vidas, eles costumam dizer nomes de músicos como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Miles Davis. O senhor diz que foi o seu avô ferreiro, os pássaros, os peixes. O fato de o som ter chegado antes da música pode explicar sua forma diferente de pensar harmonias e melodias?

Eu fiquei na minha terra até os 14 anos, mas parece que eu fiquei mais de 100 anos. E lá não tinha luz. Minha vida era no campo. Eu escutava os animais e os vendedores que são lindos, que precisam saber cantar para vender. Meu avô era um ferreiro maravilhoso e eu adorava os sons que ele fazia. Quando ele trabalhava, eu pegava os ferrinhos que sobravam e os colocava em um saquinho escondido. Fui juntando. Um dia peguei escondido da minha mãe um cordão de varal, estiquei e coloquei as peças penduradas. Minha mãe escutou e pensou que eu estava doido. Saiu correndo chorando e foi falar com meu avô: “Vai lá ver o menino que ele ficou doido”.

E então, um dia, os instrumentos chegaram...

Sim, primeiro foi a sanfona de oito baixos que eu passei a tocar com meu irmão, mas nós que escolhemos. Hoje os pais colocam os filhos para aprender música sem deixar que eles escolham seu instrumento. É a pior coisa que podem fazer. Não deixar a criança sentir antes de aprender é a pior gafe de um pai. Eu não tive chance de ter instrumento em casa, mas eu inventava para tocar com os passarinhos, com os bois, com as vacas.

O senhor ganhou destaque na Era dos Festivais, tocou com o Quarteto Novo. Mas, enquanto todos tinham a canção com letra e música, falando uma mesma língua, você não se sentia sozinho com o som que fazia?

Eu não tive nem tenho a divulgação que eles têm porque muita gente pensa que o povo não gosta da música que eu faço. Coitado do povo, ele paga sem merecer. Eles é que não alcançam o que eu faço e impõem isso. Imagine você, não tem um lugar que eu toque que não fique lotado, sem anúncio nenhum. Shows para cinco, oito, dez mil pessoas. Estão anunciando há um mês Cauby Peixoto e Angela Maria, que vão tocar no Teatro Municipal aqui do Rio. Deus me livre se me anunciarem todo dia, iriam fechar o Brasil para o povo todo me ver. Pena que tem gente que não sabe disso.

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