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Entrevista. Robben Ford

Músico venerado por instrumentistas fala ao 'Estado'

Guitarrista Robben Ford faz show em São Paulo no dia 26

Jotabê Medeiros

07 Julho 2014 | 20h 30

Aos 62 anos, o californiano Robben Ford pode ser encontrado facilmente em qualquer lista dos 100 maiores guitarristas da História. Uma reputação que ele construiu não como um cavaleiro solitário do instrumento, mas com um notável senso de colaboração que começou aos 18 anos, quando o gaitista Charlie Musselwhite o recrutou para tocar consigo.

Desde então, Ford tocou com um leque notável de músicos, de George Harrison (Beatles) e Bob Dylan a Miles Davis e Joni Mitchell. Está na formação que originou os Yellowjackets. Notável instrumentista, ele desembarca no Club A São Paulo (dentro do hotel Sheraton WTC) no próximo dia 26, acompanhado de Brian Allen (baixo) e Wes Little (bateria), para uma apresentação única na cidade. Ford falou com exclusividade ao Estado por e-mail, há alguns dias.

Divulgação
Sons naturais, beleza e um sentimento de liberdade

Seu novo disco, A Day in Nashville, foi gravado ao vivo, mas com material inédito. Gostaria de saber qual foi a intenção. Por que um disco de estúdio para mostrar material novo?

Era para ser três shows ao vivo gravados na Alemanha, mas a gente estava insatisfeito com a qualidade das gravações. O coprodutor Rick Wheeler sugeriu que nós refizéssemos tudo num ambiente controlado de estúdio, com alguns convidados, e gravasse como se fosse um show ao vivo. Funcionou bem.

Um dos novos darlings da guitarra, Joe Bonamassa, é um músico que parece tentar estabelecer pontes entre o blues e o hard rock, e muitas vezes soa como se fosse heavy metal. Mas a sua escolha sempre foi, desde o começo, por um toque macio, você é sempre melódico, lento. Por quê?

Sempre fui impulsionado para um tipo de música que exibisse alguma beleza, sons naturais e um sentimento de liberdade e pouco esforço. E que, ao mesmo tempo, mantivesse um alto calibre de artesanato musical. Gosto de música que fala ao ouvinte, com algum pequeno grunhido aqui e ali.

Muitos críticos o veem com uma proximidade maior com o jazz do que com o blues. Mas, nesse seu novo disco, você parece focar mais no blues, especialmente em canções como Cut you Loose, de James Cotton, e Poor Kelly Blues, de Maceo Merriweather. Como vê sua ligação com o blues?

Sempre houve uma forte influência de jazz no meu jeito de tocar blues, talvez mais do que você possa ouvir em outros guitarristas. Gosto da sofisticação da linguagem do jazz aliada à música cheia de alma do blues.

Sempre houve uma influência do jazz no meu jeito de tocar blues, mais do que em outros guitarristas que você possa ouvir
Houve uma notícia de que você tinha se machucado recentemente. Foi sério? Como está de saúde?

Um tendão se rompeu na minha mão esquerda. Levou dois meses para sarar e ainda sinto um certo desconforto. Mas com algum tratamento e bebendo uma substância de gelatina de osso eu melhorei de fato. Posso tocar como sempre toquei.

Vendo você tocando com Miles Davis, parece para os que estamos ouvindo que se trata de um tipo de iniciação, um rito de passagem. Ali está Miles apresentando às plateias um novo músico, que não é exatamente um músico comum, para uma grande audiência. Que tipo de memórias você tem de Miles?

Ele foi fundamental para mim. Muito complementar, e eu acho que ele gostava de mim como pessoa. Ele podia ser muito complicado de estar em volta, mas se você firmava sua posição e sua personalidade, ele passava a respeitá-lo. Depois disso, não havia mais problemas. Gostaria que ele ainda estivesse por aqui hoje.

Além de Miles, você também tocou com artistas tão diversos quanto Joni Mitchell, Jimmy Witherspoon, George Harrison, Bonnie Raitt, Bob Dylan, John Mayall, Greg Allman. Uma irmandade estelar. Qual foi, entre todos, o seu parceiro preferido e por quê?

Joni Mitchell foi a minha experiência favorita. Foi minha primeira vez com músicos que estavam num estágio mais desenvolvido que eu, e eu estava constantemente em aprendizado. A música dela era linda assim como ela, em todos os sentidos. Foi um tempo brilhante.

Você demonstra interesse em novos guitarristas? Há uns novos prodígios no campo do rock, por exemplo, como Jack White e Dan Auerbach, do grupo Black Keys. Qual sua opinião sobre eles?

Gostei do espírito da música de Jack White a primeira vez que ouvi. Auerbach parece ter influência direta dos White Stripes e acho que ficou um pouco mais próximo do blues tradicional. É bom para a música, porque eles quebram algumas noções preconcebidas do que seja uma banda ou de como uma banda deva soar. Mas eu paro por aqui, não vi nem ouvi mais nada além deles.

Morreu em dezembro o guitarrista Jim Hall, que é influência declarada de muitos instrumentistas, gente como Mike Stern, Pat Metheny, Bill Frisell, John Pizzarelli, John Scofield. Ele foi uma referência também para você?

Jim Hall é provavelmente o meu guitarrista favorito de todos os tempos. Beleza, alma, originalidade, criatividade, técnica. Difícil dizer algo que seja o bastante a respeito dele. Amava seu jeito de tocar.

Você veio algumas vezes ao Brasil, e fez muitos shows aqui. Que tipo de percepção tem de nossos instrumentistas?

Desculpe, mas não pude sair à noite para experimentar a música ao vivo em minhas viagens ao Brasil. Nunca tive tempo suficiente para ver as coisas. Sou um grande admirador de Tom Jobim, mas isso é tudo. Sou deseducado em sua música, é triste dizer. Mas sei de sua grande tradição.