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Guitarrista dos Doors fala sobre show inédito da banda que sai em DVD

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2012 | 19h 42

Robby Krieger, de 66 anos, continua excursionando e contou das dissidências com Jim Morrison

Era um garoto que amava Wes Montegomery e Larry Carlton, dois jazzistas. Ou seja: seria um milagre se ele se tornasse um ícone do rock, ainda mais no turbulento rock dos anos 1970. Mas Robby Krieger tornou-se guitarrista de uma das bandas lendárias do gênero, The Doors, e referência eterna. Hoje com 66 anos, ele continua excursionando com os Doors - quando não está jogando golfe, uma de suas paixões. E, em ocasiões como esta, em que se lança um show inédito dos Doors em CD e DVD, Live at the Bowl 68, Krieger se obriga a falar pela enésima vez do passado. Conta que a banda nunca ficou satisfeita com a explicação sobre a morte repentina de Jim Morrison em Paris. "Sabíamos que ele tinha de fato morrido, mas a forma como morreu será sempre um mistério", disse, falando por telefone ao Estado.

O show que está sendo lançado foi gravado em 5 de julho de 1968 em Hollywood, Califórnia. Somente agora, 44 anos depois, é que os fãs poderão conferir o resultado da performance.

The Doors veio duas vezes ao Brasil, uma vez com Ian Astbury, do The Cult, como cantor, e na segunda com Brett Scallions. Qual desses shows foi o seu preferido?

Rapaz, difícil dizer... Acho que a primeira vez foi a melhor, porque era nossa primeira vez no Brasil, e Ian Astbury é um grande cantor. Atualmente temos um novo vocalista, David Brock.

Quem é David Brock?

Ele tem uma banda chamada Wild Child, uma banda cover dos Doors. Eles vêm tocando Doors desde os anos 1980, fazem um admirável trabalho. Tenho certeza de que, no ano que vem, iremos à América do Sul de novo.

Você reconhece influência dos Doors em bandas contemporâneas, como Black Keys?

Não sabia que eles reconheciam influência dos Doors. Vou ouvir melhor para saber.

Você não é mencionado tão frequentemente quanto deveria em artigos ou mesmo entre as novas gerações, embora seja muito influente. Como se sente a respeito disso? Fica magoado?

Sabe, Jim Morrison foi uma figura tão icônica, carismática, que todo mundo provavelmente pensa que ele compôs todas as canções dos Doors. Não sabem que eu compus muitas delas. Às vezes eu tenho de dizer às pessoas: "Hey, eu escrevi Love Me Two Times". Mas creio que, um dia, vão se dar conta.

É comum, em biografias e filmes, dizerem que o jazz foi mais influente em seu estilo do que o rock, e que você era grande admirador de Coltrane. É verdade?

Sim, é verdade. The Doors foi um tipo de mistura de jazz e poesia harmonizada, quando tocávamos ao vivo era uma grande sessão de improvisação, e todos nós amávamos o jazz. Era basicamente nossa intenção, juntar poesia e jazz, e eventualmente rock e blues e outras coisas também. Acho que The Doors era muito mais uma questão de jazz do que de rock’n’roll. Eu costumava ouvir Wes Montgomery, Miles Davis, Roland Kirk, isso anos antes de eu integrar os Doors.

Sobre o DVD Live at the Bowl 68. Sei que tiveram problemas com o som naquele show, certo?

Nós tínhamos planejado tocar bem alto, queríamos que Los Angeles inteira ouvisse nosso concerto naquela noite. Então, encomendamos a uma empresa de amplificadores um equipamento muito poderoso. Tínhamos 58 amplificadores preparados, estávamos ansiosos. Mas aí chegou o cara da organização e disse que a gente não poderia tocar tão alto, que isso iria incomodar os vizinhos do Hollywood Bowl. Eram tempos difíceis para o rock’n’roll. Eles só nos permitiram usar um amplificador cada um. Mesmo o PA não era muito poderoso. Hoje em dia, há tanta potência, mas era muito duro naqueles tempos. Não havia monitores, Jim não conseguia ouvir o retorno do que estava cantando.

Ouvi que há três canções nessa gravação nas quais os vocais não são audíveis.

Eles tiveram problemas na gravação, mas consertaram com tecnologia e estão muito boas atualmente. A tecnologia nos tornou habilitados para consertar isso.

Você escreveu Light My Fire, Love Her Madly, Love me Two Times. Qual foi sua favorita?

Bom, Light My Fire tornou-se um sucesso absurdo. Mas, na verdade, minha composição preferida entre as canções que escrevi é Wishful Sinful (do álbum The Soft Parade, de 1969). As rádios não a tocaram tanto, mas é muito bonita.

Quem foram os guitarristas que o influenciaram?

Wes Montgomery, Albert King, Larry Carlton. Esses eram os caras que eu ouvia. Wes Montgomery eu tive a sorte de ver tocar ao vivo, tinha um estilo de tocar muito natural.

Vocês buscavam mesmo um efeito hipnótico quando tocavam ou é impressão minha?

Havia grande interesse de todo mundo naquela época na música indiana, em meditação. Nós experimentamos LSD, peyote, buscando algo espiritual, era uma rebelião contra a normalidade católica, judaica, contra as religiões, em busca de algo novo. No início, Ray Manzarek tocava o baixo de forma muito hipnótica. Não sei quanto as pessoas que buscaram caminhos por meio das drogas foram bem-sucedidas. Para muita gente funcionou, para outras não, isso depende de quanto você usou e por quanto tempo. Se você usa pelas razões certas, pode ser muito útil, pode conduzir à abertura da consciência.

LIVE AT THE BOWL 68

DVD e Blu-Ray dos Doors. Eagle/ST2 Preços: R$ 39 (DVD) e R$ 59 (Blu-Ray)