Guiomar e Nelson Freire: DNA idêntico

Guiomar Novaes parece trazer o público para a música ao invés de levar a música ao público", escreveu um crítico do Washington Post. Esta "doce avozinha" parecia tomar cada um da plateia pela mão e sobretudo pelos ouvidos, conduzindo-os para uma música construída de constantes surpresas, lances inesperados, sacadas de gênio. Que um jovem pianista adolescente provoque este tipo de reação no público e na crítica, é normal. O toque de gênio é manter esta chama por décadas.

João Marcos Coelho/ESPECIAL PARA O ESTADO,

25 Novembro 2011 | 21h00

No caso de Guiomar, por mais de seis décadas. Porque cada apresentação ou gravação sua era uma aventura feita de descobertas. Ela costumava dizer que, uma vez no palco, oferecia "meu humor do momento" - fosse na sua pequenina São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, onde nasceu em 1894, ou em meio século de presença constante nos EUA.

Mas, quando a gente pensa ter descoberto um fio condutor lógico para entender melhor sua arte, ela assume com tranquilidade contraditórias perspectivas. Podia até conduzir as plateias à música, mas ao mesmo tempo atuava "como se fosse só para si", como escreveu outro crítico americano.

"Quando toco em público, alheio-me por completo dos circunstantes (...) No dia seguinte e isto quase ninguém compreende, sinto-me exausta (...) e - engraçado! - tenho um apetite! Não abandono meu cartucho de bombons!", disse, em entrevista de 1919. Outra resposta enigmática, digna de um Thelonious Monk, pianista genial do jazz igualmente conhecido por suas contradições: "Não sou clássica nem romântica em meus gostos musicais, ou talvez seja ambos."

Como vocês podem imaginar, todo mundo que tinha algum espaço na mídia americana queria decifrar o enigma Guiomar Novaes. Noel Straus, por exemplo, definiu-a como pertencendo à tribo dos pianistas que, "dotados de viva imaginação, tendem a recriar uma dada composição de forma diferente em cada performance, de acordo com a inspiração do momento".

Ou seja, intuitivos, como é hoje um Nelson Freire, por exemplo. Straus chegou bem perto. Sampaio e Medeiros, lá pela página 131, parecem não concordar com esta "imagem de uma artista puramente intuitiva, incapaz de articular de forma intelectual sua arte". E recorrem a uma frase de quem? Justamente Nelson Freire, outro intuitivo que não pode - ou não quer, melhor dizendo - explicar sua arte. Prefere demonstrá-la tocando, como Guiomar. Freire jamais repete uma interpretação. Não é como os músicos que preparam uma abordagem da obra musical e depois a congelam. Ponto para Guiomar, ponto para Nelson, sem dúvida. Em sua argumentação, Nelson parece dizer o que acontece com ele próprio em ação: "O que acontece no palco traz sempre algo de imponderável, mas escutando suas gravações tenho a sensação de que ela sabia muito bem o que pretendia dizer musicalmente e quais as maneiras de atingir, por meio da técnica, a mensagem pretendida." Curiosamente, ou melhor, sintomaticamente, em seguida, os autores dão conta de que em várias entrevistas ao longo da vida ela "aborda a relação entre técnica e inspiração, chegando a conclusões diferentes em cada ocasião". Ou seja, impossível ficar com uma resposta definitiva.

Em suma, ela & ele, DNA idênticos, oferecem "o humor do momento" no palco. Pois aí é que moram a graça e a genialidade de Guiomar - e de Nelson. Ele divide com ela também a relação com os instrumentos. "Os pianos têm alma", disse ela. "Este piano não gosta de mim", observa Nelson olhando desconfiado para o Steinway da Sala São Paulo no documentário de João Moreira Salles.

Ainda falta muito para termos o retrato completo de Guiomar Novaes. Ainda há - mania provinciana - gente que possui acervos importantes sobre ela, mas se considera "dono" de uma documentação que o mundo tem o direito de conhecer. Este livro e os dois CDs, sem dúvida, podem ser o início de uma pesquisa mais profissional sobre "o país dos pianistas", como dizia Mário de Andrade.

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