Grupo de percussão Li Biao faz malabarismos para entreter o público

Excepcional do ponto de vista técnico, conjunto caminha na mesma avenida lucrativa de André Rieu

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 02h07

Uma das regras básicas da crítica musical é não cobrar de um músico no palco que faça algo mais do que ele explicitamente se propõe a fazer. Ou seja: tentar avaliar sua performance no âmbito da sua proposta artística. O grupo de Percussão Li Biao, que se apresentou por duas noites, esta semana, na Sala São Paulo, quer fazer, antes de mais nada, um espetáculo que entretenha o público. Se os seis percussionistas fossem tenistas como Djokovic, seria uma partida-exibição, fórmula introduzida no show biz pelos magos do basquete Harlem Globetrotters.

Estamos, portanto, no reino dos entertainers. Em música, Biao caminha na mesma avenida lucrativa de André Rieu. Ele é um músico excepcional do ponto de vista técnico. Sabe tudo do xilofone e da marimba, é um mago prestidigitador. E mostra, num espetáculo diversificado, todas as suas artes, de um arranjo do Concerto Italiano de Bach a Piazzolla, sem esquecer melodias incrustadas no inconsciente coletivo, muitas extraídas do "songbook" pop norte-americano. Houve duas exceções: a ótima, e hoje um clássico, Drumming de Steve Reich, pioneiro do minimalismo, movimento que rejeitou as radicalidades da música contemporânea europeia e promoveu um retorno ao pulso regular, à repetição e ao consequente mergulho em outras linguagens, sempre tonais. E a pós-moderna Mudra, de escasso interesse, assinada por Bob Becker, ex-integrante do Steve Reich Ensemble.

O público, lógico, delirou com os malabarismos do sexteto. Missão cumprida? Talvez não. Menos de um mês atrás, os assinantes assistiram à pianista Mitsuko Uchida e Mariss Jansons com a Orquestra da Rádio da Baviera; e semana passada um quarteto de cordas excepcional, como o Emerson. Ora, a tendência do público é nivelar Uchida, Jansons, Emerson e Li Biao. Os três primeiros tocam pra valer; o quarto está numa partida-exibição... Isto é, eles trafegam em universos distintos. Sem preconceito algum. Com uma boa divulgação, aliás, Li Biao teria chance de lotar o Ginásio do Ibirapuera, como fez André Rieu.

O sexteto de Li Biao caiu de paraquedas na temporada 2014. Biao seria apenas o solista do concerto da Orquestra Sinfônica da China, que, no entanto, cancelou sua vinda. Em todo caso, um concerto exibição para esquecer. Afinal, a Sociedade de Cultura Artística já trouxe a São Paulo memoráveis apresentações de percussão, como Les Percussions de Estrasburgo; e, em termos de música contemporânea, em 2012 a incrível Cassandre, de Michael Jarrell, com o Ensemble InterContemporain.

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