Patricia Martins
Patricia Martins

Giovani Cidreira recorta e cola a própria vida em disco de estreia 'Japanese Food'

Músico baiano lança primeiro disco, ‘Japanese Food’, com inspirações em Clube da Esquina e Legião Urbana

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2017 | 04h00

A resposta para a questão que atormentava os miolos de Giovani Cidreira, músico baiano de 26 anos, estava em um desenho criado pela namorada ainda na adolescência dela. Ele queria o nome para o seu primeiro disco solo, depois de três lançamentos com a antiga banda Velotroz, mas nada lhe agradava. Desejava debochar de si mesmo. “Tinha a ideia de que queria algo nonsense, nada que tivesse tantas explicações e conexões.” 

Cidreira não perseguia porquês. Buscava o inesperado. E dessa forma veio o título, Japanese Food. O nome da banda imaginária que a garota costumava rabiscar quando mais jovem chamou a atenção e pegou. Assim se apresenta o álbum, cuja arte da capa toma emprestada a estética de Honky Château, o quinto disco de estúdio de Elton John, lançado em 1972, despretensioso e jocoso, ao mesmo tempo. Japanese Food teve o apoio do edital Natura Musical e é lançado nesta sexta-feira, 7, pelo descolado selo Balaclava Records. 

“Curiosamente, depois percebi como questões da cultura japonesa estavam dentro do meu cotidiano na fase em que gravei esse disco”, conta Cidreira. Na época, ele gostava de ouvir música de videogames e voltou a assistir aos episódios de Jiraiya, série do herói japonês sucesso na virada das décadas de 1980 e 1990 da emissora Manchete, extinta em 1999. 

Não há nenhuma referência direta ao personagem ninja ou coisa do tipo em Japanese Food, contudo. Aqui, Cidreira recorre ao seu passado e presente para tentar descobrir o que o futuro tem para lhe oferecer. Uma das novas apostas da nova música do Estado, que tem o Baiana System como um dos nomes mais proeminentes, o músico desenterrou as referências da Legião Urbana, banda apresentada a ele pela mãe, e a uniu com descobertas que vieram na adolescência e na vida adulta – dentre elas, ele cita Clube da Esquina e o canadense amalucado Mac Demarco. “Não são ligações diretas com a minha música”, justifica Cidreira, “mas são artistas que me tocam profundamente porque eles compõem de maneira muito próxima.” 

Vencedor do Festival de Música da Educadora FM na categoria de melhor canção com letra por Ancohuma, música que integra o EP dele, lançado em 2014, Cidreira vem há tempos testando o terreno para achar uma sonoridade muito própria. A música Um Capoeira, uma das parcerias com Paulo Dinis, é exemplo da transformação do artista. A faixa, de mais de seis minutos de duração, nasce com a voz de Cidreira ecoando por um espaço vazio, acompanhada por um órgão sintetizado. Aos poucos, ela ganha peso, ganha rock. O baixo surge para puxar a corrida e encorpar a canção, seguido por guitarra e bateria. Em determinado momento, os sopros dão ares de afrobeat à música que, minutos antes, ganhava contornos e góticos. 

No primeiro disco solo, Cidreira mostra que pode seguir o caminho que quiser seguir. Pode fazer dançar (com Movimento da Espada), pode pirar (em Última Vida Submarina). Invariavelmente, contudo, Japanese Food faz chorar. Músicas como Última Vida Submarina, Rosa Sol, Eu Não Presto e Estrada Provisória transpiram a melancolia de se olhar para dentro e encontrar o vazio – quem estava ali, inundando com bons sentimentos, já não está mais lá. “Acho que é um disco urbano. E a cidade embrutece a gente”, ele diz. “Ainda estou descobrindo o que quis dizer quando inventei essas canções.” 

Ouça Japanese Food: 

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