Robson Fernandes/AE (24/2/2009)
Robson Fernandes/AE (24/2/2009)

Gilberto Mendes termina sua primeira novela e ganha um documentário no YouTube

Compositor completa 90 anos neste sábado, 13, e relembra memórias de infância

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 07h00

ENVIADO ESPECIAL / SANTOS - A música chegava de Buenos Aires e Montevidéu e, naqueles anos 30, as criações de Bach, Mozart, Beethoven e tantos outros compositores iam e vinham ao sabor da intermitência das ondas. “Eu era moleque, ouvia fascinado, a música chegava forte e, de repente, começava a desaparecer até o silêncio completo. Mas não era ruim, ficava aquela coisa misteriosa, aquela música que aparecia e desaparecia.” 

É na mesma cidade de Santos que o compositor Gilberto Mendes relembra, dias antes de completar 90 anos, essas memórias de infância. A cidade se transformou. Os cassinos e seus jardins à beira-mar já não existem - como já não se dança mais ao som das big bands de lendas como Tommy Dorsey. E os cinemas de rua, agora, se apertam em shopping centers.

Engana-se, no entanto, quem atribui a Mendes qualquer dose de saudosismo. O compositor, símbolo da vanguarda musical brasileira, criador, nos anos 60, do Festival Música Nova, segue produzindo, seja atendendo a encomendas, seja no contato com jovens músicos em busca de orientação. E a memória, nos revelam suas últimas obras, não é mais do que uma parte de uma trajetória que, mesmo tendo flertado com algumas correntes estéticas ao longo da segunda metade do século 20, nunca se limitou a um só caminho. Por trás de obras diversas como Beba Coca-Cola, Vila Socó Meu Amor, nascemorre ou Saudades do Parque Balneário, são muitos os compositores que se revelam - e se reencontram em uma origem única, que é o olhar bem-humorado e sem preconceitos de Gilberto. 

O compositor faz aniversário neste sábado, 13. A Osesp se atrasou na homenagem e lança apenas no ano que vem um disco inteiro dedicado a suas peças, com regência de Alondra de la Parra. O Festival Música Nova foi realizado este ano na USP de Ribeirão Preto - e Mendes festeja sua ligação ao mundo universitário. Em Santos, o Sesc promove uma série de concertos. E ele prepara também, para a Editora Perspectiva, um volume de textos publicados nos últimos anos na imprensa brasileira, em jornais como a Tribuna de Santos e o Estado, onde foi colunista do Caderno2+Música.

A principal homenagem, no entanto, é fruto do trabalho de seu filho, o cineasta Carlos Mendes. Autor de A Odisseia Musical de Gilberto Mendes, documentário em que acompanha o pai em viagens mundo afora, ele agora criou 90XGilberto Mendes. São 90 anos - e 90 depoimentos do compositor sobre temas dos mais variados, disponibilizados no YouTube. É o testemunho da carreira do compositor, extremamente útil às novas gerações que começam a conhecê-lo, mas também a prova de que ele segue como uma das mentes mais iluminadas da música brasileira, seja no que diz respeito a sua postura estética, seja pela clareza com que analisa o meio cultural - e o papel que a criação erudita, a música de invenção, ocupa nele. 

A grande novidade neste aniversário, no entanto, é o próprio Gilberto Mendes - e sua capacidade de se reinventar. Conversando sobre sua juventude, em especial seu começo na música, ele insiste que nada foi previsto - e que se havia um sonho, era o de ser escritor. Aos 90, o sonho se realiza. Mendes acaba de terminar sua primeira novela, ainda sem título definido, que será publicada pela editora Algol. Nela, o compositor Mathias, em uma viagem à Alemanha, relembra sua juventude e a primeira paixão, a jovem Daniele, com quem descobre o amor e o desejo em uma Santos mítica, onde Mendes foi colega de classe de Cacilda Becker e esteve em saraus e festas no Cassino da Ilha Porchat ao lado de Pagu. É um texto, ele diz, descompromissado. Mas, na referência a compositores, cineastas, músicos, escritores, é um retrato da personalidade do compositor. E de sua capacidade de, voltando ao passado, continuar forjando uma ideia de futuro.

Trecho de sua primeira novela, ainda sem título:

“Teria começado naquela manhã, tinha onze anos, quando outro menino apontou para a Ponta da Praia e perguntou, assustadíssimo, o que era uma sombra enorme no céu, voando em direção deles. Verdadeiro continente aéreo, gigantesco, o Graf Zeppelin sobrevoava as praias de Santos, inesperadamente. Mathias ficou paralisado, a princípio de medo, depois empolgado com o que via, o famoso dirigível alemão bem em cima dele, voando baixo. (...) Era demais, o que Santos possuía de especial para merecer tal privilégio?"

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